“O que nos distingue de nossos antepassados é nossa petulância em face do Mistério. Nós até o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo…” (Silogismos da amargura)

AFASTA-ME do antinatalismo a total carência do sentido do mistério, o misterioso, no caso, sendo uma categoria teológica ou — a fortiori — mística por excelência — e perfeitamente fora de moda, obsoleta no mundo moderno. O sentido do mistério como uma espécie de “ouvido musical” (de onde a paixão-Cioran), percepção dilacerada — e eventualmente transfigurada — da existência como plenitude, dádiva, beatitude, vontade ascensional, muita vez musical…

O antinatalismo é uma filosofia calculista: uma ética negativa, e, enquanto tal, demasiado racionalista, e o que é pior, demasiado utilitária, pautada no prazer e na dor como critérios fundamentais de valoração da existência. Nietzsche é um filósofo sui generis que passou do pessimismo romântico de juventude, inspirado no mestre Schopenhauer, a um afirmativismo que não é o mesmo das morais tradicionais (cristianismo, platonismo, etc.) denunciado por filósofos antinatalistas como Julio Cabrera: trata-se, no caso, de um afirmativismo trágico, em muitos aspectos pessimista (portanto, não um pessimismo da negação, negativo), tentando manter-se sempre bem-disposto, acolhedor do Imponderável e do Terrível, aprobatório e jubilatório mesmo na desgraça. Quem diria Sim! ao demoniozinho do Eterno Retorno, cochichando no seu ouvido?

Diferentemente de um Schopenhauer (e de um Cioran), Nietzsche jamais poderia ser utilizado em prol da causa e do movimento antinatalista, cada vez mais difundido ao redor do mundo. Por que não? O antinatalismo é, segundo Julio Cabrera, uma ética negativa que postula que não-ser é preferível a ser, ou que pelo menos questiona o pré-conceito que consiste em idolatrar o ser e proscrever o não-ser. Apesar de demasiado “racionalista”, é uma ética da compaixão (ou talvez não seja apesar de, uma vez que o patrono do pessimismo, Schopenhauer, é um grande racionalista). O Antinatalismo é um moralismo às avessas: moralismo negativo. Vejamos  o que diz Nietzsche sobre a ética e a psicologia da compaixão, no aforismo 338 da Gaia Ciência, intitulado “A vontade de sofrer e os compassivos”:

É vantajoso para vocês próprios serem sobretudo homens compassivos? É vantajoso para os sofredores que vocês o sejam? Mas deixemos a primeira questão sem resposta por um momento. — Aquilo de que sofremos de modo mais profundo e pessoal é incompreensível e inacessível para quase todos os demais: nisso permanecemos ocultos ao próximo, ainda que ele coma do mesmo prato conosco. Sempre que somos notados como sofredores, porém, o nosso sofrer é interpretado superficialmente; é da essência do afeto compassivo despojar o sofrimento alheio do que é propriamente pessoal: — nossos “benfeitores” são, mais do que nossos inimigos, diminuidores de nosso valor e de nossa vontade. Na maioria dos benefícios prestados a infelizes, há algo de revoltante na frivolidade intelectual com o que o compassivo faz o papel do destino: ele nada sabe de toda a sequência de complicações interiores que a infelicidade significa para mim e para você! A economia geral de minha alma e o seu equilíbrio mediante a “infelicidade”, a irrupção de novas fontes e necessidades, o fechamento de velhas feridas, o afastamento de passados inteiros — tudo isso, que pode estar envolvido com a infelicidade, deixa de preocupar o querido compassivo: ele quer ajudar, e não pensa que exista uma necessidade pessoal de infortúnio, que para mim e para você haja terrores, empobrecimentos, privações, meias-noites, aventuras, riscos e erros tão necessários quanto o seu oposto, e que, para me expressar misticamente, a trilha para o céu de cada um sempre passe pela volúpia do seu próprio inferno. […] Viva retirado, para que possa viver para si! Viva na ignorância daquilo que seu tempo considera mais importante! Ponha, entre você e o hoje, uma pele de ao menos três séculos! E a gritaria de hoje, o barulho das guerras e revoluções, não deve ser mais que um murmúrio para você! Você também quererá ajudar: mas apenas aqueles cuja miséria compreende inteiramente, pois têm com você uma dor e uma esperança em comum — os seus amigos: e apenas do modo como você ajuda a si mesmo: — eu quero fazê-los mais corajosos, mais resistentes, mais simples, mais alegres! Eu quero ensinar-lhes o que agora tão pouco entendem, e os pregadores da compaixão menos que todos: — a partilha da alegria!*

Deve-se ter em mente, a propósito da conclusão, sobre essa “partilha da alegria” de que os pregadores de compaixão, segundo o psicológico Nietzsche, entendem menos que todos, que “compaixão” em alemão, Mitleid, significa literalmente “sofrer-com”, e portanto “partilhar o sofrer/sofrimento”. A Gaia Ciência propõe o oposto: alegrar-se-com, partilhar a alegria. Em todo caso, o antinatalismo continua sendo uma filosofia e/ou ideologia muito bem-vinda no mundo contemporâneo, onde a procriação se tornou uma questão de empreendedorismo, projeto familiar de sucesso pautado na lógica, puramente quantitativa, da eficácia total. Não poderia compreender melhor as razões ético-filosóficas do antinatalismo, inclusive as endosso, pelo crivo da razão, e estaria disposto a promover a causa antinatalista pelos quatro cantos do globo; mas o coração, em contradição com a razão, não entende de antinatalismo (nem de natalismo): o Coração só “entende” de Tragédia e Mistério.

Convenhamos: o antinatalismo é uma causa perdida de antemão. Por isso mesmo é que, segundo Cioran, “é importante desencorajar a geração, pois o medo de ver a humanidade se extinguir não possui nenhum fundamento: não importa o que aconteça, sempre haverá suficientes tolos que farão de tudo para se perpetuar, e, se inclusive eles acabassem se safando, sempre se encontrará, para se devotar à causa, algum casal hediondo.” (Le mauvais démiurge) Pois “só podemos optar entre uma vontade doente e uma vontade má; a primeira, excelente, porque atingida, imobilizada, ineficaz; a outra, nociva, logo turbulenta, investida de um princípio dinâmico: a mesma que alimenta a febre do devir e suscita os acontecimentos. É esta vontade que teria que ser suprimida no homem se se pensa em uma idade de ouro! Mas seria como despojá-lo de seu ser, cujo segredo reside nessa propensão a prejudicar, sem a qual não saberíamos concebê-lo.” (História e Utopia)

Neste mundo horrível e irresistível, o Mal está mais em casa do que o Bem: um estranho, um intruso, deslocado, perdido, eclipsado. Mal que se perpetua, que se expande e se adensa parasitando a Vida, o Ser, o Devir. Por isso, vale sempre propor um remédio radical, ainda que em grande medida inócuo, para que ao menos se procrie com sobriedade, com atenção, e só um pouco menos… O Antinatalismo está na pauta do dia, para ser debatido com progenitores atuais e/ou potenciais, homens e mulheres. Minha objeção ao antinatalismo: se não há pessoas, não há músicos; se não há músicos, unde Musica? Imagine se aqueles que conceberam os nossos ídolos tivessem sido antinatalistas: podemos dar graças a Deus que os progenitores de Bach não o eram!  E também os de São Nick Cave de Warracknabeal!

09/11/2019

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