TÍMIDO, desprovido de dinamismo, o bem é inapto a se comunicar; o mal, pelo contrário, apressado, quer se transmitir e o consegue, já que possui o duplo privilégio de ser fascinante e contagioso. Assim, vê-se mais facilmente se estender, descolar de si, um deus malvado que um deus bom.

Esta incapacidade de permanecer em si mesmo, da qual o criador devia dar um exemplo tão irritante, todos nós a herdamos: engendrar é continuar de outra maneira, e numa escala diversa, a empresa que leva seu nome, é, por uma deplorável macaquice, acrescentar algo à sua “criação”. Sem o impulso que ele deu, não haveria o desejo de prolongar a cadeia dos seres, nem essa necessidade de subscrever aos artifícios da carne. Todo parto é suspeito; os anjos, felizmente, são incapazes dele, pois a propagação da vida está reservada aos caídos. A lepra é impaciente e ávida, ama se expandir. É importante desencorajar a geração, pois o medo de ver a humanidade se extinguir não possui nenhum fundamento: não importa o que aconteça, sempre haverá suficientes tolos que farão de tudo para se perpetuar, e, se inclusive eles acabassem se safando, sempre se encontrará, para se devotar à causa, algum casal hediondo.

Não é tanto o apetite de viver o que se trata de combater, mas o gosto da “descendência”. Os pais, os genitores, são provocadores ou loucos. Que o último dos abortos tenha a faculdade de dar à luz, de “trazer ao mundo”, existe algo de mais desmoralizador? Como pensar sem espanto ou repulsa nesse prodígio que faz de qualquer um que apareça um demiurgo em potencial? O que deveria ser um dom tão excepcional quanto o gênio foi conferido indistintamente a todos: liberalidade de má fé que desqualifica para sempre a natureza.

A injunção criminosa do Gênese: Crescei e multiplicai-vos – não poderia ter saído da boca do deus bom. Sede escassos, teria sugerido ele se tivesse podido opinar sobre o assunto. Tampouco poderia acrescentar estas palavras funestas: E enchei a terra. Dever-se-ia, antes de mais nada, apaga-las para lavar a Bíblia da vergonha de tê-las acolhido.

A carne se estende mais e mais, como uma gangrena, pela superfície do globo. Não sabe impor-se limites, toma seus defeitos por conquistas, não aprende nunca. Ela pertence antes de tudo ao reino do criador, e é justamente nela que ele projetou seus instintos malfeitores. Normalmente, ela deveria aterrar menos aqueles que a contemplam do que aqueles que a fazem durar e asseguram sua progressão. Mas não é este o caso, pois não sabem de que aberração são cúmplices. As mulheres grávidas serão, um dia, lapidadas, o instinto maternal proscrito, a esterilidade aclamada. É com razão que nas seitas em que a fecundidade era vista como suspeitável, entre os bogomilos e os cátaros, por exemplo, condenava-se o matrimônio, instituição abominável que todas as sociedades protegem desde sempre, para o desespero maior daqueles que não cedem à vertigem comum. Procriar é amar a o flagelo, é querer entretê-lo e aumentá-lo. Tinham razão aqueles filósofos antigos que assimilavam o Fogo ao princípio do universo, e do desejo. Pois o desejo arde, devora, aniquila: ao mesmo tempo agente e destrutor dos seres, é infernal por essência.

Este mundo não foi criado com alegria. E, no entanto, procria-se com prazer. Sim, sem dúvida, mas o prazer não é a alegria, mas seu simulacro: sua função consiste em nos trapacear, em nos fazer esquecer que a criação carrega, em todo mínimo detalhe, a marca dessa tristeza inicial de que surgiu. Necessariamente enganoso, é ele também que nos permite executar certa performance que, em teoria, nós reprovamos. Sem seu concurso, a continência, ganhando terreno, seduziria inclusive os ratos. Mas é na volúpia que compreendemos até que ponto o prazer é ilusório. Graças a ela, ele o seu ápice, seu máximo de intensidade, e é aí, no cúmulo de seu êxito, que ele se abre subitamente à sua irrealidade, que ele se afunda em seu próprio nada. A volúpia é o desastre do prazer.

Não se pode consentir que um deus, nem mesmo um homem, proceda de uma ginástica coroada por um grunhido. É estranho que, ao cabo de um período de tempo tão longo, a “evolução” não tenha conseguido providenciar outra fórmula. Para que se daria o trabalho, quando a vigente funciona tão bem e convém a todo mundo? Sejamos francos: a vida em si mesma não entra em questão, ela é misteriosa e extenuante a bel-prazer; o exercício em questão, de uma inadmissível facilidade, dadas suas consequências, é que não o é. Quando se sabe o que o destino reserva a cada qual, fica-se perplexo diante da desproporção entre um momento de esquecimento e a soma prodigiosa de desgraças que dele resulta. Quanto mais nos voltamos a este assunto, mais pensamos que os únicos a terem entendido alguma coisa ao seu respeito são aqueles que optaram pela orgia ou pela ascese, os libertinos ou os castrados.

Como procriar supõe um desvario sem tamanho, é certo que, se nos tornássemos sensatos, isto é, indiferentes à sorte da espécie, guardaríamos dela apenas algumas amostras, como são conservadas espécimes de animais em vias de extinção. Barremos o caminho à carne, tentemos paralisar seu espantoso crescimento. Nós assistimos a uma verdadeira epidemia, a uma proliferação de rostos. Onde e como permanecer, ainda, cara a cara com Deus?

Ninguém está continuamente sujeito à obsessão do horror; acontece de nos desviarmos dele, quase esquecê-lo, sobretudo quando contemplamos alguma paisagem de que nossos semelhantes estejam ausentes. A partir do momento em que aparecem, ela se reinstala no espírito. Se se estivesse inclinado a absolver o criador, a considerar este mundo como aceitável e mesmo satisfatório, seria preciso ainda manter reservas a respeito do homem, esse ponto negro da criação.

CIORAN, E.M., Le mauvais démiurge (1969). Trad. do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

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