Um importante aforismo do Breviário de decomposição, no tocante ao que muda, na economia do pensamento de Cioran, conforme ele muda de idioma: do nativo, o romeno, ao francês, idioma estrangeiro para um estrangeiro. No fundo (ele mesmo o afirma), seu pensamento, suas “ideias” ou intuições originais (vide Nos cumes do desespero) nunca mudaram, permaneceram sempre os mesmos. O que muda, com o câmbio de idioma, é o tom, a forma (que subsume, no caso de um filósofo-artista como Cioran, o conteúdo, o teor), a expressão, e sobretudo muitas das conclusões práticas (éticas e ao mesmo tempo estéticas) a que chega, doravante, a partir das mesmas intuições originais, uma vez reconfigurada a relação entre a (sua) linguagem (interior, pré-linguística) e a língua estabelecida (o francês) na qual se dá a sua consecução. Se, no dizer do autor do Breviário, o romeno é uma língua “bárbara”, dada a excessos e maneirismos, a uma efusão lírica sem fim nem forma, o francês é a língua (clássica por excelência) da norma culta, da rigidez gramatical, da contenção, da sobriedade, do laconismo — todo o contrário, portanto, da fisionomia linguística do romeno, ao menos no juízo do nosso autor. Outro aforismo importante do Breviário, no tocante à reconfiguração francesa do pensamento romeno de Cioran, é “Civilização e frivolidade“, a frivolidade, no caso, praticamente ausente do seu torrencial pensamento de juventude, sendo aqui a grande novidade, enquanto princípio ético-estético de diletantismo e superficialidade jovial, na contramão de toda busca e obsessão pelo “profundo”, pelo “sério”. É uma ideia bastante nietzschiana, que já se encontra de maneira patente na obra de Nietzsche: o imperativo, que identifica na “serenojovialidade” grega, de ser superficial por excesso de profundidade. “O veneno abstrato” é importante no sentido de descrever uma manobra ou artifício salutar do espírito: instância mais elevada do complexo psíquico humano, a mais superficial e a menos significativa: a inteligência, que “em si só pode ser superficial, pois sua natureza está preocupada unicamente com a ordenação dos acontecimentos conceituais, e não com suas implicações nas esferas que significam”. “As esferas que significam“, isto é, as partes anímicas inferiores, a alma vegetativa e apetitiva, pré-humana, pré-racional, ou simplesmente (segundo a psicologia heterodoxa de Cioran): a alma.  Noutro aforismo do Breviário, que dialoga diretamente com “O veneno abstrato”, lemos que

“[…] o espírito não tem defesa contra os miasmas que o assaltam, pois surgem do lugar mais corrompido que existe entre a terra e o céu, do lugar onde a loucura jaz na ternura, cloaca de utopias e vermineira de sonhos: nossa alma. E mesmo que pudéssemos mudar as leis do universo ou prever seus caprichos, ela nos subjugaria por suas misérias, pelo princípio de sua ruína. Uma alma que não esteja perdida? Onde está, para que se faça o seu processo, para que a ciência, a santidade e a comédia apoderem-se dela!” (“O pensamento interjetivo”)

Enfim, uma das principais mudanças, e novidades, em relação aos precedentes romenos do pensamento de Cioran, é a profunda suspeita e desconfiança cética em relação às profundezas da alma, ao que jaz, adormecido ou não, no fundo dela, e ao que dela emana à superfície do espírito e da expressão. De onde o imperativo ético-estético de “converter os venenos imediatos em valor de troca intelectual, elevar à função de instrumento a corrupção sensível, ou cobrir por meio de normas a impureza de todo sentimento e de toda sensação, é uma busca de elegância necessária ao espírito, comparada à qual a alma – essa hiena patética – é apenas profunda e sinistra.” Contudo, é digno de nota que esse imperativo ético-estético está, em grande medida, em perfeita contradição com o livro no qual se encontra, que, apesar de escrito em francês, sendo a primeira experimentação do filósofo de Rasinari em território linguístico estrangeiro, é um texto bastante parecido com Nos cumes do desespero (incluindo alguns dos mesmos aforismos sobre os mesmos temas, como “O animal metafísico”). Comparado aos que se seguirão, a começar pelo segundo, Silogismos da amargura (1952), e também pelo último, Aveux et anathèmes (1987), o Breviário é um livro de um lirismo “balcânico”, efusivo, gritado, cantado, inteiramente interjetivo (a exemplo do aforismo citado). Muito embora o resultado de um imenso, intenso e exaustivo exercício da inteligência, o Breviário de decomposição é todo alma, um livro intenso, impuro, visceral, “fisiológico”.

*

“O veneno abstrato”

MESMO nossos males vagos, nossas inquietudes difusas, quando degeneram em  fisiologia, convém, por um processo inverso, reconduzi-los às manobras da inteligência. E se alçássemos o tédio – percepção tautológica do mundo, tênue ondulação da duração – à dignidade de uma elegia dedutiva, se oferecêssemos a ele a tentação de uma prestigiosa esterilidade? Sem o recurso a uma ordem superior à alma, esta se perde na carne – e a fisiologia revela-se a última palavra de nossas perplexidades filosóficas. Converter os venenos imediatos em valor de troca intelectual, elevar à função de instrumento a corrupção sensível, ou cobrir por meio de normas a impureza de todo sentimento e de toda sensação, é uma busca de elegância necessária ao espírito, comparada à qual a alma – essa hiena patética – é apenas profunda e sinistra. O espírito em si só pode ser superficial, pois sua natureza está preocupada unicamente com a ordenação dos acontecimentos conceituais, e não com suas implicações nas esferas que significam. Nossos estados só lhe interessam na medida em que são transmutáveis. Assim, a melancolia emana de nossas vísceras e alcança o vazio cósmico; mas o espírito só a adota purificada do que a une à fragilidade dos sentidos; ele a interpreta; refinada, torna-se ponto de vista: melancolia categorial. A teoria espreita e capta nossos venenos, e os faz menos nocivos. É uma degradação para o alto, pois o espírito, amante das vertigens puras, é inimigo das intensidades.

CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

Um comentário sobre ““O veneno abstrato” (E.M. Cioran)

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