“O bem-sucedido em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é uma versão moderna do nada. Ao longo da minha vida, estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio se impõe. Ao ser perfeitamente sadio física e psiquicamente falta um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

“A única experiência profunda é a que se realiza na solidão. Aquela que resulta de um contágio permanece superficial — a experiência do nada não é uma experiência de grupo.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

“Não é Deus, mas a Dor quem desfruta das vantagens da ubiquidade.” (Silogismos da amargura)

“Ma position philosophique est faite d’une double tentation : celle du Vedânta et des Madyamika(s). L’absolu et le vide; la suprême réalité; la suprême irréalité.” (Cahiers : 1957-1972)

*

Ressentimento e abstração: artificialismo e o “veneno abstrato” como pharmakon

Segundo Paolo Vanini, “Wilhelm Worringer, quando escreve em 1907 Abstraktion und Einfühlung, sustenta que a origem da arte não se encontra na tensão realista do naturalismo e do classicismo, mas numa primitiva predisposição à abstração geométrica que, à caótica irregularidade do orgânico, prefere a uniformidade linear do inorgânico. Esta tensão não realista corresponderia a uma exigência antropológica e psicológica do homem primitivo, que, sendo extremamente vulnerável às ameaças da natureza, tenta reduzi-la às suas formas abstratas e basilares, junto às quais ‘possa encontrar refúgio do caótico panorama do mundo que o circunda’.” (Cioran e l’utopia: prospettive del grottesco, p. 76)

Essa exigência, essa necessidade primitiva — antropológica, psicológica — de tensão não realista e abstração salutar, dir-se-ia terapêutica — encontra-se muito presente em Cioran (que estudou Worringer em sua juventude insone), a despeito de todo ceticismo como exercício de desfascinação, ou talvez possamos dizer que se trata aqui de “anti-abstração”, abstração negativa e “terrorista” como instrumento de desfascinação, desilusão e desprendimento: condição de possibilidade de redenção, ou libertação (délivrance em francês, palavra-chave no vocabulário [a]soteriológico de Cioran).

Uma amostra da afinidade eletiva insuspeita entre Cioran e Worringer é o aforismo do Breviário de decomposição intitulado “O veneno abstrato”. Com efeito, a presença hipostasiada de Deus, ou o mau demiurgo, tão recorrente (quase ubíquo) no corpo do texto cioraniano, não é outra coisa que o cúmulo dessa exigência-necessidade de abstração, qual seja a de “transmutar os venenos imediatos”, os ressentimentos experimentados, “em valor de troca intelectual”, “veneno abstrato”, e portanto inócuo, atenuado, depurado, manejável a bel-prazer pelas manobras da inteligência, que os esvazia de imediatidade, concretude, intensidade: “A teoria espreita e capta nossos venenos, e os faz menos nocivos. É uma degradação para o alto, pois o espírito, amante das vertigens puras, é inimigo das intensidades.” (Breviário de decomposição) São então venenos abstratos, não mais imediatos, nem (tão) nocivos (ao menos, não como eram de fato): tornam-se pharmakon ad usum proprium, e tão mais eficaz quanto impuro, ambivalente, híbrido, artificial. “Meus aforismos são como pílulas, que eu me prescrevo e tomo, e que fazem efeito”, explica Cioran, espirituosamente, numa entrevista (pelas manhãs, uma pílula-demiurgo…).

Coringa não é Cioran

Todo mundo vive no ressentimento, nossa atmosfera cultural e natural comum, em escala planetária. Poucos se ressentem de estar ressentidos, utilizam o seu ressentimento contra si, a seu favor, em benefício próprio. E alegrar-se de tomar consciência dos seus ressentimentos e das suas amarguras: para Cioran, toda consciência, sendo consciência de algo, é Consciência-Atentado contra o “objeto” ao qual se intenciona (anti-fenomenologia cioraniana). Convidar os ressentimentos para sair, a bailar noite adentro! Pretexto para tirá-los de casa, ao qual já não retornarão na aurora do dia seguinte…

Todo homem é um assassino virtual, e o assassino de facto é um ressentido pela metade, um pobre-diabo que não explorou até o fim, à exaustão, seu potencial de ressentimento, seu patrimônio negativo, sua pletora de abismos: sua vocação à Queda. Tendo-se detido a meio-caminho, timorato e tíbio, volta-se então ao acidental, ao inessencial, ao exterior; cede ao fácil — babando de sede de vingança contra qualquer um, qualquer ser, qualquer coisa, salvo ele mesmo. Se ao menos mirasse alto! Antes fosse perfeccionista, ou minimamente exigente!
Todo inimigo, como toda batalha, e campo de batalha, é sempre interior… “Dois inimigos: o mesmo homem dividido.” (Do inconveniente de ter nascido)

A propósito: Coringa, ou antes Arthur Fleck, é a perfeita encarnação cinematográfica do Homem-Massa de que fala Ortega y Gasset, em A rebelião das massas: Sujeito Coletivo do Puro Ressentimento, cúmulo da existência inautêntica, gregária, destituída de interioridade e subjetividade, pautada pela aprovação ou desaprovação do olhar alheio, corroborando a (tóxica) cultura do narcisismo e da adulação. Um personagem niilista? Pode ser, como qualquer coisa pode ser dita “niilista”, quando inclusive o contrário de “niilista” é “niilista”. O novo Coringa é de um niilismo anedótico, manualístico, puro cliché: niilismo de cinema. Num dos diálogos ocorridos da metade para o final do filme, talvez com a psicóloga, ele diz, faz questão de dizer, como se se explicasse, não só para o outro personagem, também para o espectador: “Eu não acredito em nada…” É sério isso? Niilismo por niilismo, prefiro o corte cioraniano:

A sátira e o suspiro me parecem igualmente válidos. Tanto em um panfleto como em um Ars Moriendi, tudo é verdadeiro… Com o desembaraço da piedade adoto todas as verdades e todas as palavras.
“Serás objetivo!” – maldição do niilista que acredita em tudo. (Silogismos da amargura)

Quanta mediocridade, quanto cretinismo não entra nisto que se poderia chamar, a partir de Nietzsche, e a propósito da Massa-Coringa, “niilismo ativo“; quanto tremor, quanto desespero no “anarquismo”! Todo arruaceiro é um abismo que se ignora, e “cada homem evolui à custa de suas profundidades, cada homem é um místico que se recusa: a terra está povoada de graças goradas e de mistérios pisoteados.” (Breviário)

A melhor referência filosófica para traçar o seu perfil psicológico seria o Tratado sobre o Desespero Humano. A julgar por Kierkegaard, Arthur Fleck seria o portador do tipo mais inferior e covarde dos desesperos: desespero de não querer ser si mesmo, quem se é. No fundo, apesar de ser verdadeiramente medíocre, sem talento algum, Arthur Fleck se julga um ser especial, e irreconhecido, e esse irreconhecimento, que lhe é inaceitável, é como uma injustiça e uma ofensa pessoal, cometidas contra ele pela humanidade em bloco. Arthur se forja uma vida, uma narrativa, uma identidade, um eu ideal, um duplo agradável da (sua) realidade e, quando finalmente descobre a verdade sobre si mesmo (sobre sua mãe, seu pai, seu nascimento, sua história de vida), este duplo desmorona e o mundo junto com ele: é Arthur quem desmorona sob o peso de uma verdade brutal e insignificante…

O “suplício de não se vingar” e a “universalidade do tormento” como condição de possibilidade da redenção: só o Vazio não se ressente de nada…

Deus, ou o demiurgo, é o mais elevado, e sofisticado, dos “venenos abstratos”. Uma abstração consoladora, reconciliadora, unificadora, salvífica? Antes intolerável, como a “ubiquidade da Dor” (Silogismos), agente de separação, decomposição e destruição universal, divindade problematizadora, problemática ela mesma, tão caída, tão perdida quanto suas criaturas: “O deus mau é o deus mais útil que já existiu”, escreve Cioran em Le mauvais démiurge; “sem ele, aonde encaminharíamos nossa bílis?”

Trata-se de forjar, conscienciosamente, “duplos do real” (para falar como Clément Rosset), ficções e mitologias? Se “o real”, não sendo nada, é em si falsificável a bel-prazer, por que não multiplicar as ilusões e aturdir os espíritos, adensar a confusão geral? Não se trata de “aliviar” a nossa situação atual, não se trata de tranquilizar e confortar (tarefa da autoajuda), enquadrando “o real” numa ordem transcendente que o justificaria ética e onto-teologicamente; trata-se antes de reiterar o horror da Criação e da História universal (fluxo do Pecado Original), de aguçar a consciência do horror (sempre recalcitrante), enfim, de adensar a confusão universal: “A instauração de um equívoco universal é a façanha mais calamitosa que nós teremos realizado, e que nos coloca como rivais do demiurgo.” E essa façanha calamitosa começa por repetir-se, e por repetir diariamente, em voz alta, no topo dos telhados:

“Discernir que o que és não é tu, que o que possuis não é teu, não ser mais cúmplice de nada, nem mesmo de tua própria vida – eis o que é ver com justeza, eis o que é descer até a raiz nula de tudo!” (Le mauvais démiurge)

O horror pelo prazer do horror? A confusão pela confusão? O Demiurgo não é destino, mas etapa intermédia entre o inferno deste mundo, o horror da existência atual, e toda libertação (délivrance, para não dizer “salvação”, salut) possível. A libertação — outro modo de dizer a cura, a consciência sendo uma doença não-localizada — exige a travessia do (seu próprio) infernoou, para falar como Nietzsche, para “me expressar misticamente, a trilha para o céu de cada um sempre passe pela volúpia do seu próprio inferno.” (A Gaia Ciência) O demiurgo é um artifício psicológico intensificador do horror da consciência de si e do mundo (o não-si, não-eu), ergo um alimento para a lucidez, de modo a tornar imediata, urgente, emergencial, a besoin de délivrance (“necessidade de libertação”).

16 décembre [1967] – La maladie est une immense réalité, la propriété essentielle de la vie – non seulement tout ce qui vit, mais encore ce tout ce qui est, y est exposé: la pierre elle-même y est sujette. Le vide seul n’est pas malade; mais pour y avoir accès, il faut l’être. Car personne de sain ne saurait y atteindre. La santé attend la maladie; la maladie seule peut conduire à la négation salutaire d’elle-même.
[A doença é uma imensa realidade, a propriedade essencial da vida — não apenas tudo o que vive, mas também tudo o que é, está exposto a ela: a pedra mesma lhe está sujeita. Só o vazio não é doente; mas para ter acesso a ele, é preciso está-lo. Pois ninguém são poderia esperá-lo. A saúde espera a doença; só a doença pode conduzir à negação salutar dela mesma.] (Cahiers : 1957-1972)

E, como se lê em “L’arbre de vie”, primeiro ensaio de La chute dans le temps (1964):

A salvação vem do ser, não dos seres, pois ninguém se cura em contato com seus males. Se a humanidade se apegou durante tanto tempo ao absoluto, é porque não podia encontrar em si mesma um princípio de saúde. A transcendência possui virtudes curativas: sob qualquer disfarce que se apresente, um deus significa um passo em direção à cura. Mesmo o diabo representa para nós um recurso mais eficaz que nossos semelhantes. (La chute dans le temps).

Por fim, conforme se lê em “L’Indélivré”, um dos ensaios de Le mauvais démiurge (1969):

O vazio é o nada destituído de suas qualificações negativas, o nada transfigurado. Se nos acontece de degustá-lo, as nossas relações com o mundo se encontram modificadas, algo muda em nós, ainda que guardemos nossos antigos defeitos. Mas não somos mais daqui da mesma maneira que antes. Eis porque é salutar recorrer ao vazio em nossas crises de furor: nossos piores impulsos amolecem em seu contato. Sem ele, quem sabe, nós estaríamos agora, talvez, no patíbulo ou em alguma jaula. A lição de abdicação que ele nos oferece nos convida também a um comportamento mais nuançado em face de nossos detratores, de nossos inimigos. Deveríamos matá-los? Poupá-los? O que faz mais mal, o que enrubesce mais? A vingança ou a vitória sobre a vingança? Como discernir? Na dúvida, prefiramos o suplício de não nos vingar. Tal é a concessão-limite que se pode fazer quando não se é santo.
Está maduro para a libertação aquele a quem oprime a universalidade do tormento. Buscar libertar-se, sem a consciência deste tormento, é uma impossibilidade, ou um vício. Nenhuma libertação gratuita; é preciso libertar-se de alguma coisa, no caso, da onipresença do intolerável — que se ressente tanto na hipótese do ser quanto na do não-ser, pois coisas e aparências de coisas fazem sofrer igualmente.

Se, “quanto mais se detesta os homens, mais maduro se está para Deus”, então quanto mais se detesta o Criador, determinado a livrar-se dele como quem se livra do “último chato” (Silogismos), e disposto a ver nele um mau demiurgo, o Fracassado do alto — mais maduro se está para a vacuidade (sunyata, em sânscrito): o vazio transfigurado, e contente sem causa, como princípio de cura, redenção, dir-se-ia “salvação” (salut). Visitando cemitérios, com o intuito de tirar algumas lições de Paleontologia, Cioran reflete:

Aí, onde o homem não é nada, percebe-se até que ponto as doutrinas da libertação são inaptas a compreendê-lo, a interpretar seu passado e decifrar o seu futuro. É que a libertação não tem conteúdo senão para cada um de nós, individualmente, e não para a turba, incapaz de compreender a relação que existe entre a ideia de vazio e a sensação de liberdade. Não se vê de que maneira a humanidade poderia salvar-se em bloco; chafurdada no falso, fadada a uma verdade inferior, sempre confundirá aparência e substância. Admitindo-se, contra toda evidência, que segue uma marcha ascendente, ela não saberia conquistar, ao final de seu avanço, o grau de clarividência do mais obtuso sannyasin hindu. Na existência cotidiana, é impossível dizer se este mundo é real ou irreal; o que podemos fazer, o que fazemos efetivamente, é passar incessantemente de uma tese à outra, bastante contentes de nos esquivar a uma escolha que não resolveria nenhuma de nossas dificuldades no imediato. (Le mauvais démiurge)

Um comentário sobre “O Mau Demiurgo: Cúmulo do “Veneno Abstrato”, ou Porque Coringa Não É Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

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