Realidade e Irrealidade, ou o “Ecletismo do Sorriso e da Destruição” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Je suis la plaie et le couteau !
Je suis le soufflet et la joue !
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau !

BAUDELAIRE, L’Heautontimoroumenos

Si Stavrogin croit, il ne croit pas qu’il croie.
S’il ne croit pas, il ne croit pas qu’il ne croie pas.

DOSTOIEVSKI, Frères Karamazov

Esqueça o Coringa, personagem cinematográfico vulgar, construído e confeccionado para ser um sucesso de bilheteria, para receber milhões de likes, para ganhar o Oscar. Se há uma diferença entre Cioran e Arthur Fleck, entre Cioran e o Sujeito Coletivo do Puro Ressentimento (Homem-Massa), é que Cioran — espírito exigente, demiurgo infinitamente escrupuloso — não cede facilmente a seus ressentimentos, não se rende a eles como uma vítima de si, do mundo, da família, da sociedade, etc. Eles (Cioran, Coringa) entretêm, de maneira (muito) geral, certa poética e retórica do fracasso, do derrotismo, do decadentismo, etc… mas é preciso ver nisso o que há de poética e de retórica, e o que há de ideologia narcótica para consumo  em massa.

Coringa é o anti-Cioran, e vice-versa, em todos os aspectos essenciais. Superficialmente, e de maneira anedótica, pode ser legal compará-los, a título de entretenimento, utilizar Cioran como citação num artigo-manifesto sobre o Joker, revolutionary character, etc. O “niilismo” (se niilismo há) do personagem humanizado de Arthur Fleck, não tem nada a ver com o niilismo, ao menos com aquele de corte cioraniano. Arthur se leva a sério de mais, e se acha mais engraçado do que é; Cioran não entende como alguém possa se levar a sério, e como queira provar para os outros que é engraçado…

A sátira e o suspiro me parecem igualmente válidos. Tanto em um panfleto como em um Ars Moriendi, tudo é verdadeiro… Com o desembaraço da piedade adoto todas as verdades e todas as palavras.
“Serás objetivo!” – maldição do niilista que acredita em tudo. (Silogismos da amargura)

O problema — e o drama — do ser humano é que ele vive sabendo que pode acreditar em muitas coisas, inclusive acreditar que não acredita em nada, e contudo não saber em que acreditar, nem se acredita que não acredita em nada… “Eu não acredito em nada”, explica-se Arthur Fleck, mais ou menos do meio pro final do filme: é de um patetismo que dói o coração; nada mais cliché, nada que mereça menos a compaixão de um homem de carne e osso… Arthur Fleck acreditou demais que não acreditava em nada, e a sua descrença — tão inflamada, apaixonada, dogmática — terminou por voltar-se contra ele mesmo. Ele se apegou a uma de duas teses (ou hipóteses) ontológicas fundamentais, e sempre parciais, equívocas em si mesmas, produtoras de ilusão e sofrimento. E não importa a qual das duas eu ou você se apega: “Ao medo de que não haja nada sucede o de que haja alguma coisa. É muito mais cômodo dar adeus ao não-ser do que ao ser. Não que este mundo não exista, mas sua realidade não é tal. Tudo tem ares de existir e nada existe.” (Le mauvais démiurge)

Somos todos Arthur Fleck, permanecemos mais ou menos ressentidos, e vingativos, enquanto insistimos em esposar esta ou aquela tese, a contrária mas não a contrária da contrária, a do ser mas não a do não-ser, e vice-versa.  Toda a neurose, assim como todo canibalismo chez nous, resulta de uma recalcitrância ao hamletismo. Arthur Fleck é alguém que apostou, que acreditou, mais do que devia, mais do que podia, numa única ideia, numa única ilusão, numa única “tese”. Faz parte da sabedoria universal o saber variar de ilusões, transitar entre elas, intercambiar as ideias, como quem troca dinheiro — como um comerciante, ou uma prostituta (Arthur não possui a lábia de um, nem a valentia da outra).

Cioran não é X ou não-X, não ensina ou convida a X ou não-X; o que ele é, ou não é, e também as vertigens do pensamento às quais ele convida, ou não convida, supõe o transitar, alternar, flutuar, desequilibrar-se, entre tendências, impulsos, ideias e opiniões contraditórias, opostas, inconciliáveis, sem aderir nem a uma (X), nem à sua oposta (não-X). Acreditar na prevalência de X em detrimento de não-X é acreditar nos “dogmas inconscientes”. Dizer “eu” é, por si só, uma demonstração de religiosidade; que dirá dizer que X, ou não-X, é!

Arthur Fleck é um retrato, uma caricatura, uma instantânea calculada para o cinema, do Homem-Massa contemporâneo. Ele é uma existência congelada, capturada num único instante idiota e insignificante, no interior de uma obra da arte tecnológica (da ilusão) do movimento por excelência. O Mascarado malvado é um ingênuo, ao acreditar que “uma realidade se oculte atrás das aparências”; o que seria até perdoável, mas esperar que a linguagem possa reproduzir essa “realidade”, aí já é demais… “Por que, então, adotar uma opinião em lugar de outra, recuar ante o banal ou o inconcebível, ante o dever de dizer ou escrever qualquer coisa? Um mínimo de sabedoria nos obrigaria a defender todas as teses ao mesmo tempo, em um ecletismo do sorriso e da destruição.” (Silogismos da amargura) Arthur não tem a vocação  desse “ecletismo”…

Aí, onde o homem não é nada, percebe-se até que ponto as doutrinas da libertação são inaptas a compreendê-lo, a interpretar seu passado e decifrar o seu futuro. É que a libertação não tem conteúdo senão para cada um de nós, individualmente, e não para a turba, incapaz de compreender a relação que existe entre a ideia de vazio e a sensação de liberdade. Não se vê de que maneira a humanidade poderia salvar-se em bloco; chafurdada no falso, fadada a uma verdade inferior, sempre confundirá aparência e substância. Admitindo-se, contra toda evidência, que segue uma marcha ascendente, ela não saberia conquistar, ao final de seu avanço, o grau de clarividência do mais obtuso sannyasin hindu. Na existência cotidiana, é impossível dizer se este mundo é real ou irreal; o que podemos fazer, o que fazemos efetivamente, é passar incessantemente de uma tese à outra, bastante contentes de nos esquivar a uma escolha que não resolveria nenhuma de nossas dificuldades no imediato. (Le mauvais démiurge)

 

 

2 comentários sobre “Realidade e Irrealidade, ou o “Ecletismo do Sorriso e da Destruição” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

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