“30 anos da primeira edição brasileira do Breviário de Decomposição” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Encaminhar-se para o fim da história com uma flor na lapela: único traje apropriado no desenvolvimento do tempo. Que lástima que não haja um Juízo Final, que não tenhamos ocasião para um grande desafio!” (Breviário de decomposição)

*

“O final da história? O fim do homem? É sério pensar nisso? São acontecimentos longínquos que a Ansiedade – ávida de desastres iminentes – deseja a todo custo precipitar.” (Silogismos da amargura)

Coincidências à parte, neste ano de 2019, quando a Alemanha e o mundo comemoram o aniversário de 30 anos da queda do Muro de Berlim, e por conseguinte o fim da Guerra Fria (mas não o da História), completam-se 30 anos da primeira tradução do Précis de décomposition em língua portuguesa, pelas mãos do filósofo (e professor da PUC-RJ) José Thomaz BrumBreviário de decomposição. Mais um motivo para organizar um evento acadêmico em torno deste livro e do seu autor, especialmente quando contaremos com a ilustre presença do tradutor e amigo de Cioran.

Cartaz - Programacao Jornada UFABC 70 anos Breviário

Breviário 7.0 – mini-blogue de divulgação da Jornada Acadêmica UFABC – 70 anos do Précis de Décomposition

Um dos temas mais recorrentes no conjunto da obra fragmentária de Cioran é o da História, pensada, por um lado, em contraposição ao atavismo da crença finalista e da necessidade do zoon politikon de imaginar-se e arquitetar utopias (de onde o otimismo natural, muitas vezes ilusório, enganoso e perigoso, da natureza humana), e, por outro, em contraposição ao absurdo, o sem-sentido e a perfeita irracionalidade que caracterizam o processo histórico e o devir enquanto tal (de onde o pessimismo e tragicismo). O tema da História já se faz presente no Breviário de decomposição, e ganhará a centralidade de um tema-título em História e utopia (1960), o quarto livro de Cioran escrito em francês.

“A História: manufatura de ideais…, mitologia lunática, frenesi de hordas e de solitários…, recusa de aceitar a realidade tal qual é, sede mortal de ficções…” (Breviário de decomposição)

*

“[A História] não é o fundamento do ser, mas sua ausência, o não de toda coisa, a ruptura do vivente consigo mesmo; não sendo constituídos pela mesma substância que ela, nos recusamos a cooperar em suas convulsões. Pode nos esmagar à vontade, só atingirá nossas aparências e nossas impurezas, esses restos de tempo que ainda arrastamos, símbolos de fracasso, marcas de escravidão.” (História e Utopia)

Para Cioran, como para Schopenhauer antes dele, a História não tem nada de novo (nem de positivo) a ensinar: é o reino da má repetição, da monotonia, do tédio e da perpetuação idiota da Vontade de vida, à custa dos indivíduos e das coletividades. “História universal: história do Mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações.” (Breviário) De onde o pessimismo irrespirável quando se trata de pensar a existência humana submetida ao tempo, ao devir: duração do drama da Humanidade, essa turba dos dormentes, pensa Cioran, “cuja única virtude é esperar, ofegantes, algo que não seja a morte”. (Breviário) Na sua visão, a figura arquetípica que mais bem descreve a Humanidade é o “Cavaleiro da Triste Figura“, Dom Quixote. O Homem não é mais sujeito do que objeto do processo histórico: ele “faz” a História, e a História o “desfaz” em contrapartida.

“Já que cada destino é apenas um estribilho que se agita em torno de algumas manchas de sangue, depende de nossos humores ver na sucessão de seus sofrimentos uma ordem supérflua e divertida ou um pretexto de piedade.” (Breviário de decomposição)

Um dado biográfico digno de nota, a propósito do autor e do livro em questão, e também das datas coincidentes, é o “passado infame” de Cioran (a expressão é de Marta Petreu), que em sua juventude foi entusiasta de um movimento político ultra-nacionalista e xenófobo, inspirado num misticismo coletivista e fascista, cuja missão  —utopia — era fundar uma nova Romênia e um novo Homem (não sem relação com a filosofia nietzschiana do Übermensch, conforme seria cooptada e falsificada pela irmã de Nietzsche, e logo pelos ideólogos do nazismo), fazendo com que os romenos despertassem, se não por bem, à força, da sua milenar letargia — ou, conforme aos versos iniciais do hino nacional da Romênia atual, adotado a partir de 1989, após a queda do ditador comunista Nicolae Ceaușescu, do seu “sono de morte”:

Deșteaptă-te, române, din somnul cel de moarte,

În care te-adânciră barbarii de tirani!

Acum ori niciodată croiește-ți altă soartă,

La care să se-nchine și cruzii tăi dușmani!

Desperta-te, Romeno, deste sono
de morte,

Em que te mergulharam bárbaros e tiranos!

Agora ou nunca, muda a tua sorte,

Faz com que se curvem teus infaustos rivais!

Em virtude do seu passado fascista, Cioran seria, como tantos outros ex-legionários, cotidianamente vigiado e perseguido de perto, já vivendo em Paris, por agentes da Securitate, a polícia secreta (equivalente à KGB) romena (cf. “Cioran vigiado pela Securitate“). Muitos assassinatos de romenos expatriados, nunca solucionados, como Ion Petru Culianu, morto no banheiro da Universidade de Chicago, onde era professor, ou casos como o da escritora Monica Lovinescu, inimiga declarada de Ceaușescu, que foi brutalmente espancada, em plena luz do dia, em Paris, por dois homens, levantam suspeitas neste sentido. Uma das táticas insidiosas do regime comunista romeno, em vez de eliminar estes que eram considerados personae non gratae entre os romenos no exílio, intelectuais críticos e — potenciais ou atuais — inimigos-do regime, era tentar persuadi-los e cooptá-los à causa. Assim, chegaram a sondar o irmão de Cioran, Aurel (que permaneceu a vida toda na Romênia, e que seria encarcerado pelo seu legionarismo), como “isca” para convencer o autor do Breviário de decomposição a retornar, ao menos em visita, como propaganda favorável ao regime, à pátria.

Sobre o livro que completa, em 2019, 70 anos de decomposição: é a partir da tradução de José Thomaz Brum que o Précis torna-se, em português, Breviário (assim como Fernando Savater já o havia traduzido, ao espanhol, como Breviario de podredumbre). Faz toda a diferença, uma vez que não está claro, provavelmente, para a  maioria de nós o que seja um “breviário”. Tirando o livro de Cioran, quem já pegou um breviário nas mãos? É um livrinho contendo orações diárias, para diferentes momentos da jornada, que os religiosos utilizam para cultivar, cotidianamente, a sua fé. Ao passo que um précis, em francês, seria equivalente a um manual de gramática conciso, abreviado na forma, para consulta rápida e fácil. Assim, por exemplo, os précis de grammaire.

imagesBreviário de decomposição: nenhuma escolha mais acertada, em termos de tradução, no hibridismo dos núcleos semânticos do termo original, em francês, e deste escolhido em português: o Breviário possui toda uma gramática do desespero e da vertigem, sendo ao mesmo tempo um conjunto de orações negativas e subversivas cujo objeto privilegiado de meditação — e de horror — não é senão a decomposição universal. O êxtase é monopólio do homem, da criatura vertical e decaída (os deuses o ignoram), e sem dúvida existem cumes, apoteoses, instantes excepcionais e privilegiados, de uma plenitude e uma felicidade dificilmente suportáveis, de uma “comoção exterior ao universo” (História e utopia),  mas “nossos relâmpagos são momentâneos; as quedas são nossa regra. A vida é o que se decompõe a todo momento; é uma perda monótona de luz, uma dissolução insípida na noite, sem cetros, sem auréolas, sem nimbos.” (Breviário)

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