“Deve ser algo herdado dos meus pais, que tinham temperamentos completamente opostos. Eu nunca pude escrever senão no abatimento [cafard] das noites de insônia, e durante sete anos mal pude dormir. Eu creio que se reconhece em cada escritor se os pensamentos que o ocupam são pensamentos diurnos ou noturnos. Tenho necessidade desse cafard e até hoje, antes de escrever, coloco um disco de música tsigane húngara. Ao mesmo tempo, tenho uma forte vitalidade, que conservei e que dirijo contra ela mesma. Não se trata de estar mais ou menos abatido, é preciso ser/estar melancólico ao excesso, extremamente triste. É então que se produz uma reação biológica salutar. Entre o horror e o êxtase, eu pratico uma tristeza ativa. Durante muito tempo achei Kafka deprimente.” (Entretien avec François Bondy, Entretiens, p. 10).

Essa atitude, tão “baudelairiana”, por assim dizer, é o ponto crucial de divergência entre Cioran e um Clément Rosset: grandes amigos, filósofos que possuem muitíssimas afinidades e também discordâncias, e que são conscientes de cada uma delas. A propósito, Roland Jaccard, que é amigo de ambos, escreve:

Nós falamos de Cioran, que ele me disse, com sua insolência habitual, que achava agradável, mas seus livros um pouco “scrogneugneu”. “Eu não consigo entender”, acrescentou, “que Cioran possa se comprazer com uma música tão caótica quanto a de Brahms. Seu lado ‘música cigana’  me irrita.” Evocou também o livro que corria para publicar: Alegria – a força maior. Ele pretendia abordar aí, num post-scriptum intitulado “O descontentamento de Cioran”, a questão mais grave colocada, segundo ele, pelo autor dos Silogismos da amargura: há aliança possível entre a alegria e a lucidez? (JACCARD, “Clément Rosset, un drôle de pistolet“)

Rosset, por sua vez, escreve:

“A alegria pura, aquela que nenhuma sombra de reserva encobre, é, facilmente, suspeita de frivolidade, ainda que seja o sentimento mais profundo, ou também de vulgaridade, ainda que seja o sentimento mais nobre. Cioran resume muito bem a reticência geral em relação à alegria quando escreve: “É necessariamente vulgar tudo o que está isento de algo minimamente fúnebre”. A esta fórmula oporei, por minha parte, outra exatamente inversa: é eminentemente nobre o que não se mistura com nada de fúnebre, sequer minimamente.” (Alegria: a força maior)

Mas a questão não é tão simples, tão binária assim, de modo que Cioran advoga em nome da tristeza, e Rosset da alegria, e portanto este último sairia melhor na foto por ter o valor de aprovar a existência a despeito de todo o Intolerável que entra nela, de ousar-experimentar com a Alegria (“força maior” da existência), sem por isso ser otimista, enquanto que Cioran mostrar-se-ia em posição de inferioridade ao não saber, e nem mesmo querer, desenredar-se de suas amarguras, de seus ressentimentos e rancores. Primeiramente, alegria e melancolia não são atestados existenciais de autenticidade a priori, per se. Em segundo lugar, a “tristeza ativa”, no caso, não poderia ser mais radicalmente ambígua, ambivalente (a começar por ser “ativa”!): tristeza altiva, jovial, alegre por estar triste, com todas suas tristezas e todas suas alegrias (tristes). Omnibus laetitiis laetum, “alegre com todas as alegrias”, é uma fórmula excludente: aí não entra tristeza alguma, nenhum vestígio de amargura, de condensada melancolia (ao menos não no texto rossetiano); já a “tristeza ativa” (e altiva) postulada por Cioran é lúcida e generosamente includente: acolhe tudo o que não é ela, a começar pelo seu oposto, a despeito do próprio equilíbrio vital e em favor de um denso e rico “fel pensativo”, princípio de impureza e decomposição, de onde a noção cioraniana do “insolúvel afetivo”, a despeito de toda pretensão racional, tecnocientífica, de problem-solving. Insolúvel, pois, em mais de um sentido: metafísico, de não oferecer resposta, resolução (a um enigma existencial, digamos), e também fisioquímico, de não poder ser solubilizado numa substância simples (óleo e água, por exemplo). No composto improvável em que consiste uma existência humana, um indivíduo vertical e racional, nada permite separar, em todos os possíveis sentidos, dos mais concretos aos mais abstratos, o que é bom e o que é mau, o que vive e o que morre, o que é salutar e o que é virulento, enfim, o que é e o que não é. Por fim, este aforismo dos Silogismos da amargura, tão significativo, tão emblemático do hibridismo temerário de um Filósofo-Artista (“baudelairiano”) como Cioran:

Quando esgotamos os pretextos que incitam à alegria ou à tristeza, conseguimos vivê-las, ambas, em estado puro: nos igualamos assim aos loucos…

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