A DEPRESSÃO é uma enfermidade narcísica. O que leva à depressão é uma relação consigo mesmo exageradamente sobrecarregada e pautada num controle exagerado e doentio. O sujeito depressivo-narcisista está esgotado e fatigado de si mesmo. Não tem mundo e é abandonado pelo outro. Eros e depressão se contrapõem mutuamente. O eros arranca o sujeito de si mesmo e direciona-o para o outro. A depressão, ao contrário, mergulha em si mesma. O sujeito de hoje, voltado narcisicamente ao desempenho, está à busca de sucesso. Sucesso e bons resultados trazem consigo uma confirmação de um pelo outro. Ali, o outro, que é privado de sua alteridade, degrada-se em espelho do um, que confirma a esse em seu ego. Essa lógica do reconhecimento enreda o sujeito narcisista do desempenho de forma ainda mais profunda em seu ego. Com isso, vai se criando uma depressão do sucesso. O sujeito do desempenho depressivo mergulha e se afoga em si mesmo. O eros, ao contrário, possibilita uma experiência do outro em sua alteridade, que o resgata de seu inferno narcisista. Ele dá curso a uma denegação espontânea do si mesmo, um esvaziamento voluntário do si mesmo. Um sujeito do amor é tomado por um tornar-se-fraco todo próprio, que vem acompanhado ao mesmo tempo por um sentimento de fortaleza. Mas esse sentimento não é o desempenho próprio de si mesmo, mas o dom do outro.

No inferno do igual, a chegada do outro atópico pode tomar uma forma apocalíptica. Aliás, hoje, só um apocalipse nos poderá libertar — sim, redimir — de um inferno do igual em direção ao outro. Nessa perspectiva, o filme de Lars von Trier começa com o anúncio de um acontecimento apocalíptico, desastroso. Desastre significa literalmente des-astro (lat. des-astrum). Na noite estrelada, junto com sua irmã, Justine, descobre uma estrelha vermelha cintilante, que depois se mostra como um des-astre (des-astro). Melancolia é um des-astre, com o qual se inicia a desgraça completa. Mas é também um negativo de onde surge um efeito salvífico e terapêutico, purificador. Nesse sentido, melancolia é um nome paradoxal, quando o planeta aproxima justamente uma salvação ou cura da depressão numa forma específica de melancolia. Ele se manifesta como o outro atópico que arranca Justine do charcho narcisista. Assim, ela floresce em sua forma frente ao planeta mortal.

HAN, Byung-Chul, Agonia do Eros. Trad. de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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