Já que uma voz tão autorizada nos instruiu sobre a fragilidade da antiga idade de ouro e sobre a nulidade do futuro, somos obrigados a tirar as consequências disso e não nos deixar mais iludir pelas divagações de Hesíodo nem pelas de Prometeu, e menos ainda pelas sínteses delas que tentaram as utopias. A harmonia, universal ou não, não existiu nem existirá jamais. Quanto à justiça, para considerá-la possível, para simplesmente imaginá-la, seria preciso desfrutar de um dom de cegueira sobrenatural, de uma eleição insólita, de uma graça divina reforçada por uma graça diabólica, e contar, além disso, com um esforço de generosidade do céu e do inferno, esforço, para dizer a verdade, altamente improvável, tanto de um lado como do outro. Segundo o testemunho de Karl Barth, não poderíamos “guardar sequer um sopro de vida se, no mais profundo de nosso ser, não existisse esta certeza: Deus é justo”. No entanto, existem aqueles que vivem sem conhecer esta certeza; sem nunca tê-la conhecido. Qual é seu segredo? E, sabendo o que sabem, por que milagre continuam respirando?

CIORAN, E. M., História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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