“Não se pode eludir a existência com explicações, só se pode suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorá-la ou temê-la, nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres.” (Breviário de decomposição)
“Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido o paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases.” (Silogismos da amargura)
Beckett, à propos du Démiurge, m’écrit : « Dans vos ruines je me sens à l’abri. » (Cahiers : 1957-1972)

Pode ser desconcertante, quando não perturbador, tentar dar conta da “soma de atitudes” sem nenhuma “preocupação de unidade” que é a obra de Cioran.[1] O equívoco e os mal-entendidos em torno do seu caso só podem ter uma explicação, a única razoável a meu ver: trata-se aqui de uma alma perdidamente musical.

Talvez seja o caso de “ler” Cioran não como se busca instrução e erudição em manuais de filosofia, não para embarcar na ficção do enredo dramático de uma criação literária, mas antes como fruição de um pensamento eminentemente musical, música hipostasiada em “fel pensativo”, de onde uma prosa (mais ou menos) lírica e esse (en)canto convivial, essa conversa (en)cantadora, que faz da experiência da leitura uma auscultação musical das profundezas íntimas do (de um) ser. “Lugar-momento” de encontro, e de cumplicidade, fora do mundo e do tempo, na Música: “refúgio das almas feridas pela felicidade.”[2] Analogamente ao “Santo dos Santos” do Templo de Salomão, poder-se-ia falar de um “Coração do Coração”, em toda a sua dualidade e impureza (em toda a sua humanitas), a propósito desse edifício em ruínas, dessa miniatura de universo em decomposição, dessa criação deliberadamente fracassada que é a obra Cioran: mímesis-macaquice de uma outra, (des)obra do “Fracassado do Alto”.[3]

Não seria Cioran, mais do que um pensador, e um escritor, um espírito musical, um pensador-cantor? Um aedo contemporâneo, niilista e sombrio, mas também irônico e altivo, frívolo e diletante, cantando não a glória dos deuses, mas a tragicomédia de um mundo em que “nada está em seu lugar, começando pelo próprio mundo.”[4]

Se tivesse que renunciar ao meu diletantismo, me especializaria no uivo.[5]

O tom, o ritmo, a tonalidade afetiva, a cadência, a fisionomia, os “maneirismos” da obra cioraniana, enfim, tudo isso parece convidar a uma exegese da mesma pelo filtro do ser-pensar-musical. “Eu não fui feito para ‘pensar’; assim que me entrego ao pensamento, a sequência dos meus raciocínios é cortada logo pela irrupção de algum refrão interior, de um murmúrio, pois. Meu ‘pensamento’ mesmo é musicista.”[6] Anotação que se encontra num dos seus Cahiers, de janeiro de 1963, portanto, já numa fase que se pode situar na maturidade de sua vida, na França, longe de seus extravasamentos e delírios de uma juventude marcada pelas noites em branco e pelo lirismo exacerbado de um espírito transfigurado nos cumes do desespero.

Dado biográfico importante, relatado pelo seu irmão Aurel,[7] e que representa uma ruptura precoce, prenúncio de muitas outras, na vida do Insone transilvano: até a quarta série, o pequeno Emil praticava o violino, de duas a três horas todo dia,  até que um belo dia, do nada, largou abruptamente o instrumento para tornar-se um habitué obsessivo das bibliotecas, devorando todos os livros que encontrava pela frente. O que nos traz a outra anotação dos seus Cahiers (os cadernos de Cioran, publicados postumamente), ela também bastante reveladora em termos autobiográficos e existenciais:

Tudo o que me trabalha, essas nostalgias de todo tipo, esses dilaceramentos uivantes, essa tristeza subterrânea e esses frissons para além de todo os mundos — é pela música que eu teria podido exprimi-los, e é com todo direito que posso me declarar fracassado por não ser músico.
Essa ferida secreta de não ser músico.[8]

Talvez Cioran tenha se deparado, ainda criança, com o mesmo dilema oracular com que se deparou o velho Sócrates, na véspera da morte: ser chamado a “compor e executar música”,[9] mas não ter certeza acerca da natureza dessa mousiké. Talvez tivesse intuído que nunca seria um excelente músico, ou que faria menos sentido rivalizar com Bach do que com o próprio Deus. E que deveria se dedicar àquilo que poderia realizar da melhor maneira, como ninguém: ser um “perito em anti-Criação”,[10] aperfeiçoando-se na arte dessa “demiurgia verbal”[11] pela qual o criador-compositor canta as dores e os êxtases do mundo, as lágrimas e os risos, “paraísos e latrinas: cosmogonia de delirium tremens; apoteose convulsiva em que o fel coroa os elementos…”[12]

Escrever é uma provocação, uma visão felizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir. Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre de sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa.[13]

Ora, como esperar de um espírito tal, de um pensador-cantor temerário, imbuído de um pensamento titânico e musical, pensamento-refrão, que se limite a uma única figura, uma única forma, um único tema ou gênero, na monotonia de uma ideia fixa (solo fértil do fanatismo, ou dessa palavrinha de ordem, tão antipática, que é “especialização”[14])? O ideal é variar de tristezas, como “quem muda de camisa”,[15] ou então “poder repetir-se como… Bach”.[16] Neste ponto, o pensador-músico, que é uma alma poética, tanto quanto (se não mais) que filosófica, se avizinha do místico: ambos são “insubmissos por vocação”,[17] verdadeiros “fenômenos”, ou “aberrações”, da natureza, que a sociedade e as instituições tentam em vão domesticar. O fenômeno não é nenhuma novidade:

Já na Idade Média, certos espíritos, cansados de repisarem os mesmos temas, as mesmas expressões, tinham, para renovarem a sua piedade e a emanciparem da terminologia oficial, que recorrer ao paradoxo, à fórmula sedutora, ora brutal, ora recheada de matizes. Foi o caso de Mestre Eckhart. Por muito rigoroso e atento à coerência que fosse, era demasiado escritor para não parecer suspeito à Teologia: foi o seu estilo, mais do que as suas ideias, que lhe valeu a honra de ser acusado de heresia. […] Como todos os heréticos, pecou pela forma. Inimiga da linguagem, a ortodoxia religiosa ou política postula a expressão prevista. Se quase todos os místicos tiveram dificuldades com a Igreja, o motivo foi o seu excessivo talento; a Igreja não exige qualquer talento e reclama somente a obediência, a submissão ao seu estilo.[18]

Um músico deve alimentar-se e enriquecer-se – mediante o seu rigoroso “filtro seletivo”[19] – de todo o patrimônio musical – e cultural – universalmente disponível, ao seu alcance. Tal é o caso de Cioran, homem de uma vasta – e eclética – erudição, que abandonou a prática disso que julgava ser a expressão quintessencial de uma dada civilização, notadamente a Música, para dedicar-se a isso que diagnosticava, de maneira ambivalente, como sendo o signo da ruína, e do eclipse iminente, de toda uma civilização: a atividade intelectual – pautada pela lucidez[20], tal como a concebe Cioran – de pensar e escrever. Um cantor não só pode como deve cantar sobre tudo, cantar todas as coisas, fazendo jus ao ser e ao não-ser, à vida e à morte, à alegria e à tristeza, ao êxtase e ao tédio, a Deus e ao Diabo.

Afinal, por que cantam os cisnes? É a interrogação derradeira de Sócrates, à espera da morte, no Fédon. Por tristeza da morte iminente? Por alegria de reintegrar a plenitude anterior à individuação? Por perder esta vida? Por ganhar a eternidade? Todas as alternativas anteriores? Que a existência possa ser pensada e cantada em sua integralidade, sem negligenciar-se os seus aspectos mais nocivos e intoleráveis, mas também nas suas mais profundas e delicadas camadas — de onde a beleza das chamas e a das ruínas, o mistério de abismos insondáveis e que nos parecem estranhamente familiares, e essa tranquilidade vazia, pós-desespero, pela qual rivalizamos com os loucos –; essa possibilidade, essa necessidade premente, surgida das profundezas da condição humana, em toda a sua complexidade e problematicidade, é o que culmina em Cioran.

A que veio Cioran? Onde quer chegar? “Que fazer? Onde ir? Não façamos nada, nem tentemos ir a lado nenhum, muito simplesmente.”[21] Que pensava ele, afinal? “Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas.” Mas, quem foi, de fato, esse ilustre meteco das catacumbas trácias e bogomilas, esse “hóspede inquietante” por uma espécie de familiar estranheza (unheimlichkeit),[22] autodenominado “exilado metafísico”, de passagem pelo mundo, a perambular pelas mesmas esquinas que nós? “Sou um estrangeiro para a polícia, para Deus, para mim mesmo.”[23]

Não que “ler” musicalmente Cioran seja um método a fornecer respostas a todas estas perguntas. Apenas as torna impertinentes, deslocadas e impróprias, tanto quanto fazê-las a um músico ou a um cantor. Antes de concluir, a passagem a seguir, extraída do Livro das ilusões (1936), que sucede imediatamente Nos cumes do desespero (1934), o livro de estreia, é uma amostra de que, muito embora o pensamento se mature e se depure, numa série indeterminada de metamorfoses e transfigurações, as intuições essenciais e originais, as únicas que importam, permanecem inalteradas ao longo do devir.

Quem refletiu muito sobre a eternidade, a morte, a vida, o tempo e o sofrimento, é impossível que tenha um sentimento definido, uma visão precisa e uma convicção determinada sobre todas essas coisas. Só têm um sentimento definido da morte os que a pensaram e sentiram pela metade; não se pode ter uma visão precisa do sofrimento; e é impossível ter uma convicção determinada sobre a vida. Quando te fundiste neles e fostes subitamente ou alternadamente eternidade, morte, vida, tempo e sofrimento, é impossível amá-los sem odiá-los. Um furor admirativo, uma aversão extática e um tédio sedutor te aproximam e te afastam deles. A ambivalência e a ambiguidade pertencem às realidades últimas. Estar com a verdade contra ela não é uma fórmula paradoxal, porque todos os que compreendem seus riscos e revelações não podem deixar de amar e de ao mesmo tempo odiar a verdade. Quem acredita na verdade é um ingênuo; quem não acredita, um estúpido. A única via reta passa pelo fio da navalha.[24]

Esta passagem acima ilustra bem a significação existencial e gnosiológica da lucidez cioraniana. “A única via reta passa pelo fio da navalha”: outra maneira de dizer que a conclusão lógica do 2 + 2 = 4 seria, no limite, o suicídio (tema central do aclamado ensaio de Camus, citado anteriormente). É por isso é que “a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela”,[25] pondera o filósofo nascido na Transilvânia; por isso também que a única atitude viável, uma vez que se concebe a vida como um “estado de não suicídio”,[26] é o rodeio, o desvio (détour), a errância: não “ir direto ao alvo”.[27] De onde, por um lado, a necessária flutuação entre ideias e atitudes contrárias, que no limite se anulam a si mesmas, a necessidade das contradições vitais, o princípio de incerteza e de insegurança radicais; de onde também, por outro, o socorro providencial da Música, uma vez tendo constatado, pela experiência interior, que “Existência = Tormento”[28] é uma evidência tão forçosa quanto 2 + 2 = 4.

Gostaria de terminar cantando: La vida es um carnaval… “No hay que llorar, todos podemos cantar / Carnaval, ay señores / Hay que vivir cantando / Carnaval, todo aquel que piense / que la vida es cruel / Carnaval, nunca estará solo / Hay que vivir cantando / Dios está con el”. (Celia Cruz) E que carnaval, no qual a ressaca da quarta-feira de cinzas tem um peso filosófico tão grande quanto a soma das horas tragicamente festivas.

NOTAS:

[1] Esta caracterização, feita por Cioran no seu terceiro livro escrito em francês, da obra de Nietzsche, aplica-se perfeitamente bem à sua própria obra: “Nada mais irritante do que essas obras que apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo excepto com o sistema? De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurara nele uma vontade de ordem, uma preocupação de unidade.” CIORAN, E.M., A tentação de existir, p. 119.
[2] “A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade.” IDEM, Silogismos da amargura, p. 89.
[3] “‘Senhor, sem ti estou louco, mas mais louco ainda contigo!” Esse seria, na melhor das hipóteses, o resultado de um reatamento de contato entre o fracassado de baixo e o fracassado do alto.” IDEM, Ibid., p. 76.
[4] IDEM, Breviário de decomposição, p. 47.
[5] IDEM, Silogismos da amargura, p. 57.
[6] IDEM, Cahiers : 1957-1972, p. 144.
[7] No documentário romeno Apocalipsa după Cioran (“O Apocalipse segundo Cioran”), disponível no YouTube com legendas em inglês (32m00s): <https://www.youtube.com/watch?v=78y06QkpnC8&gt;.
[8] CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972, p. 717.
[9] Mousikén poiein kai ergakon: “‘ὦ Σώκρατες,’ ἔφη, ‘μουσικὴν ποίει καὶ ἐργάζου.’” (Fédon, 60e)
[10] “Teologia sumária? Contemplando esta criação sabotada, como não incriminar seu autor? Como, sobretudo, julgá-lo hábil ou simplesmente destro? Qualquer outro deus teria dado provas de maior competência ou equilíbrio do que ele: para onde quer que se olhe, só existe erro e confusão. É impossível absolvê-lo, mas também é impossível não compreendê-lo. E nós o compreendemos por tudo o que em nós é fragmentário, inacabado, malfeito. Sua empresa carrega os estigmas do provisório, e, no entanto, não foi tempo o que lhe faltou para realizá-la bem. Para nossa desgraça, ele foi inexplicavelmente apressado. Por uma ingratidão legítima, e para que sinta nosso mau humor, nos esforçamos – peritos em anti-Criação – para deteriorar seu edifício, para tornar ainda mais miserável uma obra já comprometida desde seu início.” CIORAN, E.M., História e utopia, p. 83.
[11] “O mal-estar que a linguagem suscita em nós em nada difere do que o real nos inspira; o vazio que entrevemos no fundo das palavras evoca o que colhemos no fundo das coisas: duas percepções, duas experiências em que se opera a distinção entre objetos e símbolos, entre a realidade e os signos. No acto poético, essa disjunção assume o aspecto de uma ruptura. Arrancando-se por instinto às significações estabelecidas, ao universo herdado e às palavras transmitidas, o poeta, em busca de uma outra ordem, lança um desafio ao nada da evidência, à óptica do tal e qual. Empenha-se na demiurgia verbal.” IDEM, “Demiurgia verbal”, A tentação de existir, p. 153-154.
[12] IDEM, “A negativa de procriar”, Breviário de decomposição, p. 128.
[13] IDEM, “Confissão resumida”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis, p. 152.
[14] Numa entrevista, Jorge Luis Alfen observa que “os imperativos técnicos invadiram a esfera do pensamento e disso que normalmente se denomina as ‘humanidades’”. “Cioran responde: Mas veja que, no fundo, todo mundo sabe que o mundo se destruirá pela especialização e pela técnica. E é agora necessário admiti-lo como um fato consumado. Antes, os pais acreditam que o futuro dos seus filhos seria feliz; diziam: ‘Para eles, as condições serão mais favoráveis.’” IDEM, Entretiens, p. 107-107. A crítica cioraniana à ideia (e ao imperativo) de especialização técnica, inseparável de uma crítica, mais geral, à ideologia do progresso (de onde certo otimismo utópico, de caráter humanista e antropocêntrico). Ela dialoga de maneira oportuna com a análise filosófica que Byung-Chul Han desenvolve acerca da cultura e da sociedade contemporâneas, em livros como Sociedade da transparência, Sociedade do cansaço e, mais recentemente, Psicopolíticas – o neoliberalismo e as novas formas de poder. O sujeito da especialização técnica é um “sujeito” que já não se sujeita a nenhuma autoridade exterior, a nenhuma heteronomia, mas exclusivamente a si mesmo, tornando-se uma existência que se explora a si mesma (em nome da riqueza, do poder, do sucesso e da fama, pautando-se pela lógica da eficácia total), internalizando a herdada negatividade da alteridade e dos deveres, doravante, na forma de uma positividade que é tão autodestrutiva quanto narcísica, fazendo-se acompanhar de slogans que exaltam uma “liberdade” que é, na verdade, uma compulsão, uma tirania, qual seja, do imperativo de uma liberdade infinita e irrestrita, e por isso mesmo vazia, inautêntica (pois, no fundo, liberdade de consumo, de escolher entre este ou aquele produto no mercado).
[15] “O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda de camisa.” CIORAN, E.M., Silogismos da amargura, p. 102.
[16] IDEM, Aveux et anathèmes, Œuvres, p. 1650.
[17] “Insubmissos por vocação, desenfreados nas suas orações, os místicos, tremendo, brincam com o Céu. A Igreja reduziu-os à categoria de conquistadores do sobrenatural, a fim de, irritantemente, poder usá-los como ‘modelos’.” IDEM, “O comércio dos místicos”, A tentação de existir, p. 122.
[18] IDEM, Ibid., p. 123-124.
[19] Cioran compartilha com um importante antecessor filosófico, Nietzsche, a valorização disso que o filósofo alemão descreve, em Ecce homo, em termos de “princípio seletivo”, indissociável da arte, também compartilhada por Cioran com Nietzsche, de dar um estilo ao seu caráter: “De tudo o que vê, ouve e vive forma instintivamente sua soma: ele é um princípio seletivo, muito deixa de lado. Está sempre em sua companhia, lide com homens, livros ou paisagens: honra na medida em que elege, concede, confia.” NIETZSCHE, Friedrich, “Por que sou tão sábio?”, §2, Ecce Homo. 4ª ed. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, p. 23.
[20] O tema da lucidez, possivelmente o termo único que mais bem condensaria o complexo do pensamento de Cioran, mereceria todo um estudo à parte. Para efeitos propedêuticos, digamos que ela se distingue da lucidez conforme concebida por outro importante filósofo contemporâneo de Cioran, Albert Camus (cf. O Mito de Sísifo), no sentido de que, enquanto a lucidez camusiana é uma disposição intelectiva “solar” e perfeitamente “terrena”, muito embora num estado de permanente desacordo e irresolução em face da absurdidade do mundo, a lucidez cioraniana é “noturna”, abismal (possui algo de místico, e ao mesmo tempo niilista), sendo a causa eficiente disso que ele conceberá em termos de “exílio metafísico”: condição de uma dualidade existencial intransponível, incurável, pela qual o homem tem a consciência de ser e de não ser, de participar e de estar alheio, de pertencer e não pertencer ao mundo, ao devir, etc. Trata-se da lucidez como consciência dilacerada pela experiência da não-identificação com nada, nem sequer consigo mesmo (cúmulo paradoxal do processo de individuação, atualização desastrosa do principium individuationis), de estranhamento radical em relação ao fato de existir, à dupla “anomalia”, diz o autor, que consiste em ser e ser humano: “Nós percebemos primeiro a anomalia do fato bruto de existir e só depois a de nossa situação específica: o espanto de ser precede o espanto de ser homem. Contudo, o caráter insólito de nosso estado deveria constituir o dado primordial de nossas perplexidades: é menos natural ser homem do que ser pura e simplesmente.” CIORAN, E.M., “L’arbre de vie”, La chute dans le temps, Œuvres, p. 1071.
[21] “O paraíso não era suportável, senão o primeiro homem ter-se-ia acomodado a ele; este mundo também está longe de o ser, porque nele lamentamos o paraíso ou gozamos antecipadamente um outro. Que fazer? Onde ir? Não façamos nada, nem tentemos ir a lado nenhum, muito simplesmente. IDEM, Do inconveniente de ter nascido, p. 15.
[22] “Nietzsche via no niilismo ‘o mais perturbador’ de todos os hóspedes. Era como um visitante funesto perambulando por todos os cômodos da casa, sem que se pudesse expulsá-lo porta fora.” VOLPI, Franco, O niilismo, p. 7-8.
[23] CIORAN, E.M., Le mauvais démiurge, Œuvres, p. 1245.
[24] IDEM, O Livro das ilusões, p. 193.
[25] IDEM, “O Autômato”, Breviário de decomposição, p. 111.
[26] IDEM, “Coalizão contra a morte”, Ibid., p. 27.
[27] “Enquanto que os animais vão diretamente a seu alvo, ele se perde em rodeios; é o animal indireto por excelência.” IDEM, “O animal indireto”, Ibid., p. 32.
[28] “Existência = Tormento. A equação parece-me evidente. Ela não o é para um dos meus amigos. Como convencê-lo disso? Não posso emprestar-lhe as minhas sensações; quando só elas teriam o poder de o persuadir, de lhe levarem esse acréscimo de mal-estar que ele há tanto tempo reclama insistentemente.” IDEM, Do inconveniente de ter nascido, p. 106.

REFERÊNCIAS:

Livros de Cioran

CIORAN, E.M., A tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’Água, 1988.
______, Aveux et anathèmes, in : Œuvres. Paris : Gallimard, 1995.
______, Breviário de decomposição. 2ª ed. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
______, Cahiers : 1957-1972. Paris : Gallimard, 1997.
______, Do inconveniente de ter nascido. Trad. de Manuel de Freitas. Lisboa: Letra Livre, 2010.
______, Exercícios de admiração: ensaios e perfis. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
______, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
______, La chute dans le temps, in : Œuvres. Paris : Gallimard, 1995.
______, Le mauvais démiurge, in : Œuvres. Paris, Gallimard, 1995.
______, O livro das ilusões. Trad.de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
______, Silogismos da amargura. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
Outros:
NIETZCHE, Friedrich, Ecce homo. 4a ed. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.
VOLPI, Franco. O niilismo. Trad. de Aldo Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999.
Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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