Um belo e inspirado texto do filósofo e professor colombiano a esta que foi, além de poeta, escritora e tradutora (mulher polivalente), uma filósofa da existência perfeitamente marginal, ou seja, alheia aos academicismos, às patifarias e à vanitas que são, via de regra, proporcionais ao grau de erudição e de institucionalização, vícios quase onipresentes nos departamentos das universidades e nos círculos intelectuais, na Colômbia, no Brasil e no mundo letrado de modo geral. Alfredo Abad, amigo, companheiro acadêmico de Liliana e co-organizador, junto a ela, do Encuentro Internacional Emil Cioran, compartilha com a homenageada esse espírito, e o mesmo sentido de probidade intelectual. Liliana foi ousada, original e destemida, entre tantas outras qualidades, sabendo abrir-se um caminho num mundo acadêmico dominado por homens, muitas vezes machistas e misóginos, e muitos dos quais não podem admitir sequer a ideia de uma mulher brilhar, como brilhou Liliana. Não um brilho ostensivo e ostentador, mas discreto, contido, elegante, como o sorriso do auriga de Delfos. “Uma pessoa é uma revelação”, escreve sábia e belamente o professor Abad. E nenhuma mais cativante, encantadora, inspiradora, do que a revelação-Liliana, que encanta e inspira, presente na memória, ao modo de uma epifania, como somente é capaz quem confere à vida uma “epidemia de inefável mistério”. Boa leitura!

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Da sua presença perdida podem-se evocar recordações e sentidos que não a alcançam, que não a suprem. Contudo, se luta também para contradizer esta condição, porque conservam-se de quem desaparece, justamente, suas características, suas peculiaridades, rememorando-as e acedendo ao seu legado. Ambígua experiência. Sim, e não teria sido tão alheia à singular maneira de Liliana de se reconhecer no mundo, e que definia (se é que este termo cabe aqui) a sua figura. Ambiguidade, paradoxo, equívoco, insolubilidade. Através destas palavras, e da sua apropriação, é possível conceber a sua passagem pelo mundo, a sua experiência, o seu trabalho, o seu percurso acadêmico e vital.

Uma pessoa é uma revelação. Como se mostra essa aparição de que se é nutrido: um estilo propriamente. A morte nos arranca essa experiência, que só é revivida através da memória. Perdemos a sua imediatidade, perdemos muito, é claro, e nos aferramos à sua presença expressa na vivência diferida, constituição dolorosa de fragmentos que nos marginam, que nos ausentam. Mas também nos aferram à dita revelação. É disso que se fala justamente quando se faz manifesta a sua imagem, representável como exceção. Na particularidade da existência, em suas definições contraditórias e imprecisas, nutre-se o a descoberta que fazemos dela, como epifania, afirmando-se em nossa consciência e em nossas dispersas emoções. Ao evocar, pensar, recordar, definir essa manifestação sua, nós nos introduzimos na caracterização inequívoca que a individualiza, que a torna singular, única, e, como tal, excepcional.

Aí radica a contundência arrasadora da morte. A perda de uma presença e o encontro inexorável com o limite. Estas precisões advertem uma filosofia da existência que não é senão uma filosofia desgarradora e desvinculada dos embustes academicistas, dos quais Liliana soube fugir, para sorte sua, e a partir da qual pudemos aceder ao domínio de sua intimidade. Aí a reconhecemos e a situamos. Os seus interesses filosóficos nunca estiveram apartados das preocupações que assinalaram, de maneira vital, o seu entorno e a sua cotidianeidade. O que é a filosofia senão a preocupação e o assombro em relação ao que nos envolve? E ela esteve envolvida por uma constituição inalienável na qual pôde ser livre.

O deslocamento que motivou as suas buscas esteve sempre representado por um imprescindível acesso aos aspectos paradoxais da nossa existência. Encontramos aí o seu sentido e a sua orientação. Reconhecer-se nas margens do ser não tem grandes vantagens diante do burburinho do mundo; examinar a ruína que é cada um de nós é, e destacar essa gravidade trágica que nos circunda, foi uma necessidade. Mas não absoluta, pois a música e a risada tiram do vazio o seu peso. O pessimismo também sabe celebrar a vida. Liliana soube celebrá-la. Nada diferente se verifica no anseio apaixonado e certeiro pelo qual ela pôde conferir à vida uma epidemia de inefável mistério, como o que se desprende de todo espírito profundo. O seu foi um.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br