PLANEJAR uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos – seus nomes horríveis se parecem com seu destino, pesadelo que também nos está reservado, já que nós mesmos o transformamos em ideal.

De tanto louvar as vantagens do trabalho, as utopias deveriam tomar a direção oposta do Gênese. Neste ponto particularmente, são a expressão de uma humanidade absorvida pelo trabalho, orgulhosa em comprazer-se com as consequências da queda, das quais a mais grave é a obsessão pela produtividade. Carregamos com orgulho e ostentação os estigmas de uma raça que adora “o suor da fronte”, que faz dele um sinal de nobreza, que se agita e sofre exultando; daí o horror que nos inspira, a nós os condenados, o eleito que se recusa a trabalhar ou a sobressair no que quer que seja. Só aquele que conserva a lembrança de uma felicidade imemorial é capaz dessa recusa que censuramos. Desorientado no meio de seus semelhantes, ele é como eles e, no entanto, não pode comunicar-se com eles; para onde quer que olhe, não se sente daqui; tudo lhe parece usurpação, até o fato de possuir um nome…Suas empresas fracassam, aventura-se nelas sem convicção: simulacros dos quais o afasta a imagem precisa de um outro mundo. O homem, uma vez excluído do paraíso, para não sofrer e não pensar mais nele, obteve como compensação a faculdade de querer, de tender para o ato, de perder-se nele com entusiasmo, com brio. Mas o abúlico, em seu desapego, em seu marasmo sobrenatural, para que se esforça, para que objetivo se entrega? Nada o induz a sair de sua ausência. E, no entanto, ele próprio não escapa inteiramente à maldição comum: esgota-se em uma nostalgia, e gasta nela mais energia do que colocamos em nossas proezas.

CIORAN, E.M., “Mecanismos da utopia”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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