“Por que eu não me suicido? Porque a morte me enoja tanto quanto a vida.”  (Nos cumes do desespero)

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Se o sofrimento não fosse um instrumento de conhecimento, o suicídio seria obrigatório. E a vida mesma — com sua dolorosa inutilidade, sua obscura bestialidade, que nos arrasta aos erros para nos pendurar, de vez em quando, a uma verdade –, quem a suportaria, se ela não oferecesse um espetáculo de conhecimento singular? (O Crepúsculo dos pensamentos)

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Contra o suicídio, só há um tipo de argumento: não é natural pôr um fim a seus dias antes de ter mostrado até onde se pode ir, até onde se pode realizar Por mais que os suicidas creiam na sua precocidade, eles consumam um ato antes de ter alcançado a maturidade, antes de estarem maduros para uma destruição desejada. Compreende-se facilmente que um homem deseje acabar com sua vida. Mas que não escolha o apogeu, o momento mais alto de seu crescimento? Os suicídios são horríveis porque não são cometidos no tempo certo; interrompem um destino em vez de coroá-lo. (O Crepúsculo dos pensamentos)

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Para aquele que, ao aproximar-se do Absoluto, não pode furtar-se às tentações da vida, nenhum suicídio poderia pôr um fim à sua divisão interior. Nada o ajuda a resolver o drama cruel do espírito. O caráter insolúvel do pensamento se esgota nesse conflito. O charme do real pesa na balança, e não há como anulá-lo, por mais que as ideias deslizem para a superfície brilhante do não-ser. Viver sensualmente no nada… (O Crepúsculo dos pensamentos)

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“É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido.
De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande Desconhecida.
Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível –, se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira se alimenta do inverificável; um suplemento de lógica seria funesto para a existência – esforço até o Insensato… Dê um objetivo preciso à vida: ela perde instantaneamente seu atrativo. A inexatidão de seus fins a torna superior à morte – uma gota de precisão a rebaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciência positiva do sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum frenético conseguiria reanimar a improbabilidade fecunda do Desejo.” (Breviário de decomposição)

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Como é difícil aprovar as razões que invocam as pessoas. Cada vez que nos afastamos de qualquer uma delas, a pergunta que vem ao espírito é invariavelmente a mesma: como é que não se mata? Pois nada é mais natural do que imaginar o suicídio dos outros. Quando se entreviu, por uma intuição devastadora e facilmente renovável, sua própria inutilidade, é incompreensível que outro qualquer não faça o mesmo. Suprimir-se parece um ato tão claro e tão simples! Por que é tão raro, por que todo mundo o elude? É que, se a razão desaprova o apetite de viver, o nada que faz prolongar os atos é entretanto uma força superior a todos os absolutos; ele explica a coalizão tácita dos mortais contra a morte; não só é o símbolo da existência, mas a existência mesma; é o todo. E esse nada, esse tudo não pode dar um sentido à vida, mas ao menos a faz perseverar no que é: um estado de não suicídio.” (Breviário de decomposição)

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“Aceito a vida por cortesia: a revolta perpétua é de tão mau gosto como o sublime do suicídio. Aos vinte anos, se rompe em impropérios contra os céus e a imundície que cobrem; depois se cansa. A pose trágica só corresponde à puberdade prolongada e ridícula; mas são necessárias mil provas para alcançar o histrionismo do desapego.” (Breviário de decomposição)

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“Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a ideia do suicídio já teria me matado há muito tempo.” (Silogismos da amargura)

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“A tenacidade que empreguei em combater a magia do suicídio teria me bastado para alcançar a salvação, para pulverizar-me em Deus.” (Silogismos da amargura)

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“Refutação do suicídio: não é deselegante abandonar um mundo que com tão boa vontade se pôs a serviço de nossa tristeza?” (Silogismos da amargura)

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“Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Os outros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer?” (Silogismos da amargura)

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“Apesar de tudo, continuamos amando; e esse ‘apesar de tudo’ cobre um infinito.” (Silogismos da amargura)

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O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até a morte. (Silogismos da amargura)

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“Não vale a pena matar-nos, visto que nos matamos sempre demasiado tarde.” (Do inconveniente de ter nascido)

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“O fato de que a vida não tem nenhum sentido é uma razão de viver, a única afinal.” (Aveux et anathèmes)

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

Um comentário sobre ldquo;Refutações do suicídio (E.M. Cioran)

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