Um ser sem duplicidade não possui profundidade e mistério; não esconde nada. Só a impureza é sinal de realidade. E se os santos não são inteiramente desprovidos de interesse, é que sua sublimidade mistura-se ao romance e sua eternidade presta-se à biografia; suas vidas indicam que abandonaram o mundo por um gênero suscetível de cativar-nos de vez em quando. (Breviário de decomposição)
A função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre. (Breviário de decomposição)
O encarniçamento em banir da paisagem humana o irregular, o imprevisto e o disforme beira a indecência. Que em certas tribos ainda se comprazam em devorar os anciãos excedentários é sem dúvida deplorável; mas que tão pitorescos sibaritas devam ser exterminados, com isso não consentiremos jamais, sem contar que o canibalismo representa um modelo de economia fechado e, ao mesmo tempo, uma prática apta a seduzir, um dia, um planeta abarrotado. A minha intenção não é a de lamentar-me pela sorte dos antropófagos, ainda que os persigam impiedosamente, que vivam no terror e que sejam os grandes perdedores do mundo de hoje. Convenhamos: o seu caso não é necessariamente excelente. São, ademais, cada vez mais raros: uma minoria acuada, desprovida de autoconfiança e incapaz de advogar em causa própria. Muito diferente nos parece a situação dos analfabetos, massa considerável, apegada às suas tradições e aos seus privilégios, que se castiga com uma virulência que nada justifica. Pois, afinal, é um mal não saber ler nem escrever? […] Nós somos feitos para vegetar e para florescer na inércia, não para perder-nos pela rapidez e pela higiene, responsáveis pela profusão desses seres desencarnados e assépticos, desse formigueiro de fantasmas em que tudo fervilha e nada vive. Alguma dose de sujeira sendo indispensável ao organismo (fisiologia e imundície são termos intercambiáveis), a perspectiva de uma higiene em escala universal inspira uma legítima apreensão. Deveríamos ter-nos contentado, piolhentos e serenos, à companhia das bestas, definhar ao lado delas por milênios mais, respirar o odor dos estábulos e não o dos laboratórios, morrer das nossas doenças e não dos nossos remédios, rodopiar em torno do nosso vazio e afundar nele docemente. (La chute dans le temps)
Um livro deve remoer feridas, provocá-las inclusive. Um livro deve ser um perigo. (Écartèlement)

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O liso é a marca do presente. É ele que conecta as esculturas de Jeff Koons, iPhones e a depilação à brasileira, como é conhecida a depilação total na Europa. Por que achamos belos, nos dias de hoje, o liso? Além do efeito estético, nele se reflete um imperativo social universal. Ele corporifica a sociedade da positividade atual. O liso não quebra. Também não opõe resistência. Ele exige likes. O objeto liso extingue seus contrários. Toda negatividade é posta de lado.

O smartphone também está inserido na estética do liso. O smartphone G Flex, da LG, é revestido até mesmo com uma capa autorregenerativa que faz desaparecer rapidamente qualquer risco, qualquer marca. Seria possível dizer que é inquebrantável. Sua capa artificial mantém o smartphone sempre liso. Além disso, ele ainda é flexível e maleável. É fácil curvá-lo. Por isso, adapta-se perfeitamente ao rosto e às nádegas. Esse caráter adaptável e de ausência de resistência é um traço característico da estética do liso.

Edição espanhola de Écartèlement: conceito visual bastante oportuno.

O liso não se reduz ao exterior do aparato digital. Também a comunicação dos aparatos digitais opera de modo alisado, suave, pois o que nela se troca são, sobretudo, curtidas, positividades. Sharing e like representam um meio comunicativo liso, polido. As negatividades são eliminadas por representarem entraves para a comunicação acelerada.

Jeff Koons, provavelmente o artista mais bem-sucedido da atualidade, é um mestre da superfície lisa. Em Jeff Koons, […], não há desastre, quebra, marca, risco ou costura. Tudo é arredondado, polido, liso. A arte de Jeff Koons é a da superfície lisa e de seu efeito imediato. Não dá nada a interpretar, a descodificar ou a pensar. É uma arte para dar like.

É o próprio Jeff Koons quem diz que o observador de suas obras deveria emitir apenas um simples “uau”. Sobre a sua arte não é necessário se fazer nenhum juízo nem interpretação, hermenêutica, reflexão ou pensamento. Ela se mantém, de modo consciente, no campo do infantil, do banal, do imperturbável, relaxante, desarmante e aliviante. Ela está esvaziada, seja de profundidade, seja de superficialidade; isto é, está esvaziada de toda Tiefsinn, quer dizer, de pensamento capaz de se aprofundar e de se tornar melancólico.

Diante de suas esculturas lisas surge uma “coerção tátil” de tocá-las, até mesmo um desejo de chupá-las. Sua arte carece da negatividade que impõe distância. A positividade do liso por si só provoca a coerção tátil. Ela convida o observador a uma falta de distância patológica ao touch. Um juízo estético pressupõe, contudo, uma distância contemplativa. A arte do liso a suprime. […]

Em Mitologias, Roland Barthes aponta para a coerção tátil que o então novo modelo DS da Citroën causava: “Sabe-se que o liso é sempre m atributo da perfeição, porque seu contrário trai a operação técnica e essencialmente humana do ajustamento: a túnica de Cristo não tinha costuras, assim como as aeronaves da ficção cientifica são de um metal sem emendas. O DS 19 não pretende o liso absoluto, ainda que sua forma geral seja muito arredondada; entretanto, são as sobreposições de seus planos que mais interessam ao público: tateia-se furiosamente o encaixe dos vidros, passa-se as mãos nas largas canaletas de borracha que ligam o vidro de trás a seus contornos feitos de níquel. Com o DS começa uma nova fenomenologia do ajustamento perfeito, como se passássemos de um mundo de elementos soldados a um mundo de elementos justapostos, que, com toda a certeza, apenas pela virtude da forma maravilhosa, têm a incumbência de introduzir a ideia de uma natureza mais fácil. Quanto à matéria propriamente ditas, é certo que ela reafirma um gosto pela beleza, no sentido mágico. […] Aqui, os vidros não são mais janelas, aberturas furadas na escura lataria, mas grandes espaços de ar e de vazio, tendo a curvatura exibida e a brilhância das bolhas de sabão.” As esculturas sem juntas de Jeff Koons também passam a sensação de serem brilhantes e sem peso, como se fossem bolhas de sabão feitas de ar e de vazio. Como o DS sem juntas, transmitem uma sensação de perfeição, de leveza em um sentido mágico. Incorporam uma superfície perfeita, otimizada, sem profundidade ou ausência de profundidade.

Para Roland Barthes, o tato é, “entre todos os sentidos, o que mais desmistifica, ao contrário da visão, o mais mágico de todos”. A visão guarda distância, enquanto o tato a suprime. Sem distância não é possível haver mística. A desmistificação torna tudo fruível e consumível. O tato destrói a negatividade do totalmente outro. Seculariza aquilo que toca. Ao contrário da visão, é incapaz de surpresa ou maravilhamento. Por isso, também a touchscreen lisa é um lugar da desmistificação e do consumo total. É ela que produz aquilo que a gente curte.

As esculturas de Jeff Koons são, por assim dizer, lisas como um espelho, fazendo com que o observador se veja nela espelhado. Na sua exposição na Fundação Beyeler, comentou sobre seu Ballon Dog: “O Ballon Dog é mesmo um objeto maravilhoso. Ele quer encorajar o observador em sua existência. “Trabalho frequentemente com materiais que refletem, que espelham, pois eles encorajam o público automaticamente em sua autoestima. É claro que em um espaço escuro isso não gera nada. Mas quando a gente fica diretamente na frente do objeto, espelha-se nele e se assegura de si mesmo”. O Ballon Dog não é um cavalo de troia. Não oculta nada. Não há interioridade que se ocultaria atrás da superfície lisa.

Como com o smartphone, nas esculturas polidas, de brilho intenso, a gente não se confronta com o outro, mas apenas com si mesmo. O lema de sua arte é o seguinte: “O núcleo é sempre o mesmo: aprenda a acreditar em si mesmo e em sua própria história. É isso que quero comunicar ao observador dos meus trabalhos. Ele deve experimentar seu próprio desejo de viver”. A arte abre um espaço ecoante, no qual eu garanto minha existência a mim mesmo. Fica eliminada totalmente a alteridade ou a negatividade do outro e do estrangeiro.

A arte de Jeff Koons apresenta uma dimensão soteriológica. Promete uma redenção. O mundo do liso é um mundo do culinário, um mundo da pura positividade, no qual não há dor, ferimento nem culpa. A escultura Balloon Venus, em posição de parto, é a Maria de Jeff Koons. Mas ela não pare um redentor, nem, de modo maravilhoso, um homo doloris do resplendor, mas sim um champanhe, uma garrafa de Dom Pérignon Rosé Vintage 2003 que fica em sua barriga. Jeff Koons se encena como um batista que promete uma redenção. Não por acaso a sequência de imagens do ano 1987 se chama Baptism. A arte de Jeff Koons aciona uma sacralização do liso. Ele encena uma religião do liso, do banal, uma religião do consumo. Para tanto, é preciso que toda negatividade seja eliminada.

1713-jeff-koons

Segundo Gadamer, a negatividade é essencial para a arte. Ela é sua ferida. Ela se opõe à positividade do liso. Nela tem algo que me abala, me revolve, me põe em questão, a partir do que surge o apelo Você tem que mudar sua vida: “É o fato da existência desse algo particular que constitui o ‘mais’: que algo assim exista: para falar como Rilke: ‘Algo assim existia entre os humanos’. A existência disso, a facticidade, é igualmente uma resistência intransponível contra toda previsão de sentido imaginada. Reconhecer isso é o que nos obriga a obra de arte. ‘Não há lugar no qual não te vês. Deves mudar tua vida’. É um choque, um ter-se chocado, o que acontece pela particularidade do nosso encontro com cada experiência artística”. A obra de arte pressupõe que algo choque. Ela derruba o observador. Mas o liso tem uma intencionalidade diversa. Ele aninha o observador, arranca-lhe um like. Quer apenas ser curtida, e não derrubar.

HAN, Byung-Chul, A Salvação do Belo. Trad. de Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis : Vozes : 2019.
Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br