No começo, acreditamos avançar para a luz; depois, fatigados por uma marcha sem fim, deixamo-nos deslizar: a terra, cada vez menos firme, não nos suporta mais: abre-se. Em vão buscaríamos perseguir um trajeto para um fim ensolarado, as trevas se dilatam ao redor e dentro de nós. Nenhuma luz para iluminar-nos em nosso deslizamento: o abismo nos chama e nós o escutamos. Acima ainda permanece tudo o que queríamos ser, tudo o que não teve o poder de elevar-nos mais alto. E, outrora apaixonados pelos cumes, depois decepcionados por eles, acabamos por venerar nossa queda, apressamo-nos a cumpri-la, instrumentos de uma execução estranha, fascinados pela ilusão de tocar os confins das trevas, as fronteiras de nosso destino noturno. Uma vez o medo do vazio transformado em volúpia, que sorte evoluir no lado oposto do sol! Infinito às avessas, deus que começa sob nossos calcanhares, êxtase ante as rachaduras do ser e sede de uma auréola negra, o Vazio é um sonho invertido no qual nos dissipamos.
Se a vertigem se converte em nossa lei, portamos um nimbo subterrâneo, uma coroa em nossa queda. Destronados deste mundo, arrebatamos seu cetro para honrar a noite com um fausto novo.
(E, no entanto, esta queda – certos instantes de petulância à parte – está longe de ser solene e lírica. Habitualmente afundamos em uma lama noturna, em uma obscuridade tão medíocre como a luz… A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria. Nada prova que sejamos mais que nada. Para sentir constantemente esta dilatação na qual rivalizamos com os deuses, em que nossas febres triunfam sobre nossos pavores, precisaríamos nos manter em uma temperatura tão elevada que acabaria conosco em poucos dias. Mas nossos relâmpagos são momentâneos; as quedas são nossa regra. A vida é o que se decompõe a todo momento; é uma perda monótona de luz, uma dissolução insípida na noite, sem cetros, sem auréolas, sem nimbos.)

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.
Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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