Cadernos de psicanálise (Rio de Janeiro), vol. 34, no. 27, Rio de Janeiro, dez. 2012

Para o homem, a arte é o recurso que possibilita dar forma, tempo e lugar àquilo que, de outro modo, lhe seria inacessível. É a capacidade criativa que conecta o indivíduo a seu núcleo central, à fonte de onde se originou, um dia, o que mais tarde chamamos de EU. Sabemos que um Eu nunca é totalmente formado, nunca será totalmente organizado, nem nunca será totalmente revelado. A espantosa complexidade da experiência humana reside em suas sombras e profundidades, nos recantos e nos precipícios, no esconderijo, refúgio ou santuário de tantos outros Eus, mais ou menos delineados, que coexistem no psiquismo de uma pessoa.

Bachelard nos disse que “os seres escondidos e fugidios se esquecem de fugir quando o poeta os chama pelo verdadeiro nome”, e Winnicott nos lembra da alegria de se esconder e da tragédia de não ser procurado. Há dentro de nós, então, uma permanente ambivalência: parte anseia ser descoberta e outra teme que esta descoberta signifique invasão, submissão ou aniquilamento. Por isso, muitas vezes fingimos ser falsa a dor que de fato se sente. O poeta é aquele que se empresta ao mundo e ao outro para ser, ao mesmo tempo, aquele que busca a própria busca e o encontro do quê resultou daquela busca. Ele nos mostra a impossibilidade de sermos uma coisa só, única, total, estável e permanente. O poeta busca aquilo que nos escapa mas que, sem sua procura, viver seria uma experiência limitada e tragicamente pobre. O poeta tem olhos nos olhos, na pele, nos ouvidos e na barriga. Tem ouvidos que se fossem localizados materialmente, surgiriam em pontos espantosos da anatomia humana; graças a esta extraordinária peculiaridade, ele é aquele que é capaz de invocar o elusivo do psiquismo humano. A poesia busca materializar nossas relações essenciais com o mundo e sua origem é o indizível, o irrepresentável.

Dentre diversos poetas da língua portuguesa, considero Fernando Pessoa como o maior especialista em sombras e seres fugidios. Pessoa nos fala sobre o que não conseguimos nomear ou compreender e, no entanto, sem obrigar-se a obter respostas para estas questões, que sabe irrespondíveis.

Tal como Drummond, Fernando Pessoa era gauche na vida, mas diferente de nosso Drummond, parece nunca ter estabelecido laços com o mundo. Não vejo nele a consciência voltada para o social, a vinculação com o humano, a identificação com o próximo, percebidos em Drummond; e, muito menos, esperança no homem e na vida, como é possível encontrar em poemas como O Elefante e A Flor e a Náusea.

Em Pessoa, a marca é o estranhamento de ser, a inquietação que surge da certeza da impossibilidade de exprimir-se integralmente, da impossibilidade da poesia em aplacar-lhe os demônios. “Quem me dera que a poesia fosse mais que a escrever”, diz ele, dois anos antes de morrer.

Pessoa é único, personalíssimo. Escreve para expressar sua forma singular de formular as questões de vida e morte da existência humana; cheio de angústia, acompanhado de uma dolorosa consciência de si, da incompletude da experiência poética que falhará, inarredavelmente, em traduzir a incongruência complexa da dimensão humana. E é justamente por tudo isso, um poeta que conseguiu como poucos ser universal e atemporal.

Não: devagar. Devagar, porque não sei Onde quero ir. Há entre mim e os meus passos Uma divergência instintiva. Há entre quem sou e estou Uma diferença de verbo Que corresponde à realidade. Devagar… Sim, devagar… (Álvaro de Campos, In Poemas)

Na tentativa de alcançar o inalcançável cria seus heterônimos:

Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, exceto quando me for dado o Prêmio Nobel. E, contudo – penso-o com tristeza – pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida.

A marca é a insatisfação da alma humana, sua precariedade e limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a incapacidade em se construir como definitivo. Haverá sempre um além, que a palavra falhou em alcançar ao buscar traduzir a vivência em experiência e esta em narratividade. Diante do desejo do absoluto e da impossibilidade de realização, a alma adormece “num mar de sargaço” e tédio… [+]

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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