Li todos os livros da tristeza humana. E não me convenceram Convenceu-me o sangue, não obstante, sussurrando às ideias o cansaço de seu próprio calor.

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A nostalgia é a forma mais doce da alienação mental, de nossa tendência a conceber outros mundos.

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Estar no tempo, com menos proveito do que Deus antes da criação — imaginar e alcançar o limite absoluto da inutilidade.

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Para aquele afetado pelo mal da vida, os remédios não são menos nocivos que os venenos, por serem igualmente expressões e instrumentos deste mundo. E ainda que fossem do outro, a sua consciência não pode encontrar repouso mediante nenhuma cura. É um mal inerente à vida — e só pode acabar quando ela acaba. É apenas descansando em nossas cinzas que podemos esquecê-lo. A tumba é a única farmácia da melancolia.

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O exercício da mente só pode ter uma única direção: conter o coração em sua tendência a comungar com todas as aparências circundantes, rechaçar o mundo que reivindica a insensatez do sangue, animando em sua fúria as veias deste universo decrépito.

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Não existe solução nenhuma para nada, eis a premissa da qual todos deveríamos partir na projeção de nossos atos e pensamentos. Na verdade, tudo o que fazemos e pensamos precede da negação desta premissa. A existência humana, insolúvel em si, apoia-se exclusivamente na idolatria da solução, ou seja, numa concepção moral do tempo. Toda vitória da vida é uma crise do rigor do espírito.

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A minha presença no mundo é um não estar em parte alguma. De cada coisa me separa algo. Cada sentimento se aproxima do que ele não é. As paisagens e os objetos perdem seus contornos ante a ideia de sua ausência; a visão se torna um fator de destruição daquilo que contempla; o olho desnuda no que é o que já não será; o ouvido percebe o espectro sonoro do silêncio. E o amor se envolve de morte numa nostalgia do infinito — que o nega. A realização da alma é sua anulação sucessiva.

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Um astrônomo constata a presença de vida em Marte, por acreditar ter identificado certos fenômenos de decomposição na superfície do planeta. A sua dedução é a mais profunda que já se fez sobre a vida, o mais simples e revelador dos raciocínios que dizem tudo. Pois todo vivente carrega o mesmo signo: a necessidade inelutável de deixar de viver.

CIORAN, Emil, Extravíos. Trad. de Christian Santacroce. Madrid: Hermida Editores, 2018.
Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

Um comentário sobre ldquo;Alguns aforismos de Razne: um dos últimos escritos de Cioran em romeno

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