Remate de Males, Campinas-SP, n. 1, pp. 301-320, ja.jun./2019

Resumo: Este artigo propõe uma análise da relação problemática que a poesia de Baudelaire estabelece com a música. Pretendemos mostrar como o poeta dramatiza a desestruturação da linguagem poética tradicional pela adesão a uma retórica da desarmonia, da dissonância e do barulho, sem contudo se render à completa falência do poético. Nesse sentido, a presença do barulho no seio de uma poética nostálgica da harmonia se dá como elemento de tensão oximórica muito mais que como saída definitiva do universo da poesia, regida até o início do século XX pelo paradigma musical do lirismo.
Palavras-chave: Poesia; música; antilirismo.

Abstract: This article proposes an analysis of the problematic relationship that Baudelaire’s poetry establishes with music. We intend to show how the poet dramatizes the destructuring of traditional poetic language by adhering to a rhetoric of disharmony, dissonance and noise, without however surrendering to the complete failure of the poetic. In this sense, the presence of noise within a nostalgic poetics of harmony occurs as an element of oximoric tension rather than as a definitive exit from the universe of poetry, ruled until the beginning of the twentieth century by the musical paradigm of lyricism.
Keywords: Poetry; Music; Antilirism.

“La Poésie est quelque chose de situé
entre musique et littérature.”
(Mallarmé apud Maulpoix, 2013, p. 43)

A CRISE DO PARADIGMA MUSICAL

“Toda história literária do final do século XIX que não falar de música”, escreve Paul Valéry (1960, p. 1.271, tradução minha), no ensaio “Au Concert Lamoureux en 1893”, “será uma história vã; uma história pior que incompleta, – inexata; pior que inexata, ininteligível”. Com efeito, se a história do diálogo e mesmo da rivalidade entre a palavra e o canto, entre o poeta e o músico, não tem seu início de fato no século de Nerval, Baudelaire e Mallarmé, foi nele, contudo, que o questionamento do paradigma musical (MARX, 2002) que sempre caracterizou a poesia europeia desde a Antiguidade passou a ocupar um lugar central na produção e na reflexão literária dos poetas, a ponto de coincidir, em muitos momentos, com a própria “questão da literatura” (LACOUE-LABARTHE, 1981), em geral, e com o esforço de definição dos limites do discurso poético, em particular. Este artigo pretende examinar a incorporação dessa “questão” pela poesia de Baudelaire, considerando a evolução dos poemas em verso de Les fleurs du mal até a passagem para a poesia em prosa, reunida postumamente em Le spleen de Paris. Pretende-se mostrar que, desdobrando um tema já presente em Nerval, Baudelaire se apropria criticamente da tradicional associação entre a poesia e a música para dramatizar poeticamente a crise do paradigma lírico e inaugurar o percurso de autonomização da poesia que caracteriza a linha mestra da modernidade poética… [PDF]

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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