Retumbam em ti as épocas geológicas? Se não, por que então falas do tempo? Foste o mar onde se derramaram os rios do tempo? Se não, por que se orgulhar da História? Reuniste todas as lágrimas que não secaram e as derramaste de novo para devolvê-las à terra e consolar os olhos e o coração? Ou não sabes o que são a dor, o alívio e o esquecimento? Quantas vezes livraste os homens da vergonha de uma morte decente? Em quantos fizeste morrer a morte para que tenham direito à imortalidade?
Conheces o desejo de pedir perdão até ao último verme? Ou não conheces a rebelião angélica contra o pecado?
Não foste nunca uma melodia que desce de algum lugar em direção à terra? Ou não sabes o que são a queda, o arrependimento e a perda? Sofreste um dia a dissipação das ilusões, curvado sob a maldição das essências? Ou não conheces a tentação das ilusões e o terror da petrificação?
existe o que passa – isso não te atingiu como uma verdade, e essa verdade não te empurrou contra o pensamento?
Tudo o que permanece e dura, permanece e dura sobre os escombros da vida – essa verdade não te revoltou contra as verdades? Não amaste com uma paixão ardente o efêmero por medo da eternidade? E não tentaste eternizar o instante para escapar tanto do tempo quanto da eternidade?
Quantas vezes lamentaste ter fugido da terra e quantas vezes a aflição não te reconciliou novamente com a terra? Não suspeitaste que, se a vida nos afasta da terra, através da morte nos tornamos seus filhos; que estamos ligados à terra por algo último?
Conheces o irremediável medo que abala as leis do corpo e do coração e faz dilatar o instante sobre o conteúdo do mundo? Se não, buscarás em vão o impulso dos tremores; estranhos te serão sempre os pilares e as ruínas do mundo, sem o medo a cada instante…
Estou cada vez mais convencido de que, na melancolia, pressentimos tudo e que na dilaceração sabemos tudo. Não existem outras dilacerações senão as do coração: e o coração não conhece o espaço… Por isso abarcamos tudo nas dilacerações…
Poderia se esboçar uma teoria completa das dilacerações. Mas que sentido tem explicar coisas dolorosas? A explicação é fecunda e útil apenas quando se trata de algo reversível e reparável. Explicamos quando temos algo que retificar. Mas, depois da dilaceração, não podemos retificar mais nada, porque não podemos mais ficar de pé diante do mundo e nem o mundo diante de nós. As dilacerações comprometem a geometria oculta do espírito. A menos que se prove que são apenas ficção. Que ordem invisível resiste à dilaceração? No princípio não houve formas; as leis não são eternas; em sua substância, o espírito não é uma ordem; o mundo poderia retornar ao caos a qualquer momento se quisesse; a criação não precede a destruição; no mundo não significa na lei; o homem busca com fúria a liberdade e foge dela sempre que a tem; ninguém aceita o mundo, mas todos vivem como se este fosse o valor supremo; se os mundos pudessem ser substituídos! A terra não girará mais com regularidade, mas se partirá como o coração; o sol é sempre perdedor, nos diz o calor da alma. (Revelações da dilaceração.)

*

Não é difícil suportar o pânico que nos provoca uma vibração ativa e um tremor explosivo porque, ao manifestar-se de modo febril, esgota assim sua intensidade. Degenera então em medo ou insegurança. Mas o pânico que nasce do estupor, entre uma obscura calma, de uma paralisia subterrânea, é insuportável. Nunca na vida sentimos mais fortemente a necessidade de gritar: socorro! Ou de soltar um grito ininteligível. Nessa calma, na qual te assemelhas ao mais satisfeito e mais equilibrado dos homens, a catástrofe te pareceria uma evidência; a queda, natural; e a morte, aceitável. O pânico converte em evidência tudo o que é sinistro, e tudo o que é divino se torna monstruoso, começando pelo sorriso. Nenhum homem que sinta pânico, esse pânico sem motivo, entenderá um ato “sem motivo”. É necessário fazer algo contra o pânico. E o que fizeres, ninguém poderá entender, porque só tem um sentido para o teu pânico. Por que as verdades estão tão sós? Quanto mais se grita “socorro!”, mais elas se escondem. Talvez até fujam. As verdades são demasiado medíocres ou não são feitas para este mundo?

Só a religião pode nos consolar do pânico, sem anulá-lo. O pânico é pânico do mundo. A religião, ao nos tirar temporariamente do mundo, nos liberta do “objeto” do pânico.
Não só pelo ódio, mas também pelo pânico sou filho desta terra! Mas o pânico um dia vai derrubar a terra; um pânico maior porá fogo nela ou, melhor dizendo, bastará o pânico de uma única alma para que arda por todos os lados. É preciso devolver a terra ao sol, pois as lágrimas há muito tempo refluíram para a alma…

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Não existe motivo algum para não estar triste. A tristeza está tão ligada à natureza, que ela precede o homem. Não sei se no princípio era a tristeza e se a tristeza provinha de Deus, mas o que sei é que deve ter aparecido nos primeiros dias da criação, antes das criaturas. O homem não podia mais evitar a tristeza e, por isso, ao longo dos tempos, não encontrou maneira alguma de não estar triste.

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Que música não nasce na tristeza e não nos leva a ela? Na tristeza musical não se produz a desilusão com este mundo próximo, mas o afastamento do divino. A música é de essência religiosa. Não em vão é a única resposta que pôde dar o homem às vozes celestes.

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O sorriso fundo e evanescente até o êxtase; olhares para tudo o que não mais será; flutuação consoladora e anônima, privada de substância e que não pertence a um mundo contaminado nem pelo tempo nem por sua ausência; sentinelas de ilusões divinas e guardiãs da calma do esquecimento; repletos de lembranças do futuro e perdidos na expectativa do passado: refrescando-te no coração do sol e aquecendo-te à sombra de Deus. Creio compreender os anjos…

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A sensação de ruptura interior, do rachar dos tecidos, sempre que somos obrigados a escolher entre tempo e eternidade… Dissolve-se o tempo em nós, ou é a eternidade que nos oprime? Às vezes o dualismo tempo-eternidade parece pura ficção. Tudo adquire então a cor de um tempo no qual nos arrastamos e que nos queima. A plenitude temporal confere à vida um ritmo de exasperação fecunda que cresce até sumir na eternidade. A vida alcança seu ponto culminante na febre do tempo. Os cumes da vida se elevam por cima da exasperação da temporalidade. A vida é in-eternidade, isto é, todo o tempo, mais a quantidade de eternidade que resulta da negação mesma da eternidade. O homem só pode viver com frações de eternidade.

CIORAN, Emil, O Livro das ilusões. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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