IHU On-line – Revista do Instituto Humanitas Unisinos, n. 418, 13 maio 2013

Autor de uma obra endereçada aos “leitores possíveis” dispostos a estudá-la sem preconceito, Kiekegaard denunciou o caráter irrealista e abstrato da racionalidade hegeliana, destaca Helène Politis. Conexões entre o existencialismo e as ideias do dinamarquês são inadequadas

Leitora de Kierkegaard há mais de 50 anos, a filósofa francesa Helène Politis disse, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, que continua a perceber a mesma “ebulição intelectual” em suas obras. O dinamarquês “zomba incessantemente de seus contemporâneos que imaginam possuir a verdade de uma forma dogmática. A escrita kierkegadiana é uma arma formidável contra os falsos sábios e os sofistas e ela vai lhes pregar algumas armadilhas”. Esse pensador, acrescenta Politis, “é um sincero amigo dos filósofos, mas com a condição de que esses estejam realmente em busca da verdade”. E acrescenta: “Ele zomba da falsa e presunçosa ciência, da mesma forma como é um discurso sempre generoso e honesto em face de seu leitor, mas com a condição de que o leitor seja também generoso e honesto”. De acordo com Politis, “Hegel, como um filósofo sistemático, tem a inacreditável pretensão de tomar o ponto de vista de Deus e de falar como se a história humana estivesse realizada”. A pesquisadora deplora as aproximações entre Kiekegaard e o existencialismo, acentuando que a nomenclatura de “pai do existencialismo” é perigosa e obtém sua força de sua imprecisão. “A existência sartriana não possui nada em comum com a existência kierkegaardiana e isso é fácil de provar”.

Helène Politis é especialista no pensamento de Kierkegaard e, entre outros, escreveu Le vocabulaire de Kierkegaard (Paris: Ellipses, 2002), Kierkegaard (Paris: Ellipses, 2002) e Le concept de philosophie constamment rapporté à Kierkegaard (Paris: Kimé : 2009). Doutora em Letras, leciona na Universidade Paris I – Panthéon Sorbonne, na França.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as particularidades do discurso filosófico kierkegaardiano?

Helène Politis – Eu me sinto muito interessada pela expressão “discurso filosófico kierkegaardiano”, já que a minha tese de doutorado de 1993 se intitula O discurso filosófico segundo Kierkegaard e tem 1.735 páginas! Mas eu me limitarei aqui a algumas breves observações. O que precisamos primeiramente considerar é a diferença e talvez a contradição (desejada por Kierkegaard) entre a forma e o fundo, entre o estilo e o conteúdo. Kierkegaard zomba incessantemente de seus contemporâneos que imaginam possuir a verdade de uma forma dogmática. A escrita kierkegadiana é uma arma formidável contra os falsos sábios e os sofistas e ela vai lhes pregar algumas armadilhas. Por exemplo, Kierkgaard multiplica algumas anedotas aparentemente sem importância; ele emprega imagens ligadas à vida cotidiana e metáforas literárias; ele enreda o seu leitor em desvios complexos; ele faz, de forma muito frequente, apelo à pseudônimos em lugar de se exprimir diretamente. “As pessoas (que se dizem) sérias” condenam tais práticas; “verdadeiramente, dizem eles, este Kierkegaard é um gozador, ele despreza a cientificidade que nós honramos, ele ridiculariza tudo o que é digno de interesse”. Eis a forma como o vigilante de Copenhague, “que permanece acordado enquanto os outros dormem”, se diverte: dificultando a compreensão de sua obra e adormecendo as consciências dos burgueses do século XIX.

Apesar disso tudo, Kierkegaard é um sincero amigo dos filósofos, mas com a condição de que esses estejam realmente em busca da verdade. Mas, para verificar isso, é preciso ultrapassar um obstáculo suplementar. Em sua obra publicada, Kierkgaard se serve frequentemente de alusões vagas, de citações incompletas, de referências disparatadas para designar os filósofos. Ele passa uma impressão de leviandade, ao não se preocupar muito em comunicar as suas fontes ao leitor. Ao contrário, em seus artigos (papiers), ele ama citar os textos em sua língua original (grega, latina, alemã, etc.) e ele indica frequentemente as edições que utiliza, mencionando o título da obra, o local de publicação, a data, o capítulo e a página… De fato, nesse caso, Kierkgaard alia um grande respeito pelos textos com uma informação minuciosa. No entanto, ele não se resume em ser apenas um leitor que admira os filósofos, ele é também um pensador que inova, produzindo conceitos importantes. Em um documento, datado de 1854, o fragmento XI A 63, que merece ser mais bem conhecido, ele afirma que “somente o existir humano que se remete aos conceitos primitivos, em lhes tomando no original, em lhes revisando, em lhes modificando e produzindo novos, somente essa existência interessa o existente. (Tilværelsen). Toda a outra existência humana é apenas uma existência estereotipada, um ruído dentro do mundo da finitude e que desaparece sem deixar traços e que jamais interessou o existente. E isso vale tanto para a existência do pequeno-burguês quanto para um conflito europeu”… [+]

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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