Cioran teve uma breve experiência como professor de filosofia, na segunda metade da década de 1930, na cidade de Brasov. Ele conta a anedota da ocasião em que, chegando à sala de aula, perguntou à classe: “Por que razão não devemos dizer fenômenos psicológicos, mas fenômenos psíquicos?” Um aluno respondeu: “Um fenômeno psíquico é instintivo, normal.” Ao que o professor contestou: “Não é verdade, todo o psíquico é anormal e não só o psíquico, mas também a lógica”. E acrescentou: “Até o princípio de identidade é uma doença!”

O secretário da cultura bolsonarista, Roberto Alvim (“O Convertido”), publicou um vídeo institucional no mínimo bizarro para anunciar sua política pública de fomento à “cultura”. Dixit:

“Quando a cultura adoece, o povo adoece junto. É por isso que queremos uma cultura dinâmica, mas ao mesmo tempo enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes. A pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus, amparam nossas ações na criação de políticas públicas. As virtudes da fé, da lealdade, do sacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte. […] A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional; será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada.

Desnecessário citar mais. Como muita gente logo notou, as semelhanças com Joseph Goebbels e a estética nazista não são mera coincidência. Para dissipar esta suspeita, Wagner com música de fundo (tirando o antissemitismo, nada contra Richard Wagner, cuja música aprecio). A “coincidência retórica”, segundo Alvim, foi uma infelicidade casual: o resultado de uma pesquisa no Google sobre “nacionalismo e arte”, aliada a um inocente desconhecimento da seguinte declaração de Goebbels, citada por Peter Longerich na biografia Goebbels: uma biografia (capítulo X), publicada no Brasil em 2014:

“A arte alemã na próxima década será heroica, férrea mas romântica, objetiva e sem sentimentalismos; será nacionalista, com grande profundidade de sentimento; será vinculante e unificadora, ou deixará de existir.” [German art in the next decade will be heroic, steely but romantic, factual without sentimentality; it will be nationalistic, with great depth of feeling; it will be binding and it will unite, or it will cease to exist.]

Fuja de quem fala em nome da “saúde”, da “pureza”, das “virtudes de um povo” (“fé, lealdade e sacrifício na luta contra o mal!”), entre outros flatus vocis: é o próprio Fanático e, o que é pior, um doente que se ignora. “Na prática, qualquer um pode rivalizar com o diabo; na teoria não ocorre o mesmo. Cometer horrores e conceber o horror são dois atos irredutíveis um ao outro: não há nada em comum entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato. Desconfiemos dos que aderem a uma filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em ídolo; não teriam chegado a isso se, debruçados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas.” (História e utopia) A doença é um dado antropológico apriorístico: o homem é um animal enfermo, e tão mais grave quanto se julga sadio.

Um dia um doente decidiu nunca mais apertar a mão de uma pessoa sadia. Mas logo descobriu que muitos dos que julgava com saúde não estavam no fundo incólumes. Por que então fazer inimigos baseado em suspeitas apressadas? Evidentemente, ele era mais razoável do que os outros, e tinha mais escrúpulos do que os de sua raça, corja frustrada, insaciável e profética, que deveria ser enclausurada porque quer destruir tudo para impor sua lei. Confiemos as coisas, de preferência, aos normais, os únicos dispostos a deixá-las tal e qual: indiferentes ao passado e ao futuro, limitam-se ao presente e se instalam nele sem nostalgias nem esperanças. Mas quando a saúde fraqueja, só se pensa no paraíso ou no inferno, em reformar em suma: deseja-se reparar o irreparável, melhorar ou demolir a sociedade que se tornou insuportável porque não se consegue mais suportar a si mesmo. (História e utopia)

Como levar a sério o ideal de uma cultura “pura”, “sadia”, de uma arte “salvadora”? Como julgá-lo — do ponto de vista da lucidez — razoável ou minimamente pertinente? O Apóstolo da Cultura bolsonarista sonha com uma arte “dinâmica” e “heroica”, “enraizada na nobreza dos nossos mitos fundantes”: só pode ser uma alusão a Macunaíma… Mas percebe-se mesmo a gravidade do caso quando ele fala da cultura como instrumento de combate na “luta contra o mal”: não o é mais do que o suicídio, incluindo-se o filosófico (abstrato), de onde o imperativo cioraniano de pensar contra si, único modo de pensar sem mentir-se. Alvim poderia dar o exemplo de heroismo, suprimindo-se em nome da “arte nacional”: seria um mártir. Mas ele desconhece completamente as virtudes negativas da lucidez: a arte, como o pensamento em geral, deve voltar-se contra um inimigo demasiado exterior, deve ser uma Cruzada do “bem” contra o “mal”. “A luta contra o mal…”, tais palavras só podem sair da boca de um ingênuo ou de um impostor. É o próprio mal — tara dogmática — fingindo lutar contra algo que não ele mesmo.

Tudo o que idealiza e propõe Roberto Alvim representa a morte da arte, o sequestro e a domesticação institucional da cultura, um insulto à criatividade e à imaginação, subversivas por natureza. Que ele seja a tipificação dessa multidão de “imbecis coletivos” que o fenômeno do bolsonarismo engendrou, dessa horda de fanáticos e milicianos, confirma-se por sua declaração, após a eclosão da polêmica, e a perspectiva de perder a mamata recém-obtida: “De tudo isso, a única coisa que entristeceu foi a crítica de Olavo.”

O que esperar de alguém que, meses atrás, anunciava nas redes sociais a criação de uma “máquina de guerra cultural”, conclamando profissionais (atores, diretores de teatro, dramaturgos, etc.) “com valores conservadores no campo da arte” a enviarem seus currículos para a formação de um banco de dados de artistas bolsonaristas? Segundo Bernardo Machado, que descreve a biografia de Alvim, de leitor de Kafka a êmulo de Goebbels, as propostas artísticas alinhadas com a estética e a ideologia do governo

“[…] provavelmente receberiam uma premiação ou ficariam no radar da pasta. Aquelas distantes do referencial defendido — que não referendassem necessariamente os valores ‘da família’, ‘da fé’, ‘de Deus’ e ‘da luta contra o mal’ — poderiam ser silenciadas — ou até perseguidas. No médio e longo prazo, caso esse prêmio siga as orientações dadas por Alvim, pode-se conduzir e orientar o país para uma estética que interessa a ideologia do governo atual. O prêmio não produziria um ‘panorama’ da arte brasileira, como defendem, mas um mapeamento e um aliciamento de pessoas.”

Infelizmente, o ceticismo não é uma faculdade amplamente distribuída entre os indivíduos; o pior não é que Alvim, particularmente, careça dele, mas toda uma população incauta, e ávida de ilusões para dar um significado a suas vidas e preencher o tédio dos instantes. Presa fácil de oportunistas e demagogos de plantão. A potência (dynamis) do fanatismo nunca será suprimida da natureza humana, sem que pereça com ela o próprio ser humano. Que a arte seja sempre vil, profana, hedionda e suja, tão degenerada e desnaturada quanto o animal enfermo. E lembrar sempre destas palavras contundentes e providenciais:

O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático. […] Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas as suas virtudes –, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse… Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: reconstituirá o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo – tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror –, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta… Só escapam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque – verdadeiros benfeitores da humanidade – destroem os preconceitos e analisam o delírio. (Breviário de decomposição)

 

Fotografia da capa: Joel-Peter Witkin

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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