“Tentarei de novo dizer o indizível, expressar com palavras pobres o que tenho de dar aos devotos infiéis do misticismo nominalista, do misticismo cético […] O mundo não existe duas vezes. Nao existe um Deus separado do mundo, nem um mundo separado de Deus. Esta convicção tem sido chamada de panteísmo. […I Por que não? São apenas palavras, afinal de contas. No mais alto êxtase místico, o Ego sente que se tornou Deus. Por que não? Acaso vou discutir por causa de palavras? Há uma década venho ensinando: o sentimento do Ego é uma ilusão. Seriam apenas sequências de palavras filosóficas? Jogos de linguagem? Não. Aquilo que eu vivencio não é mais mera linguagem. E posso vivenciar, por breves horas, que nada mais sei do princípio de individuação, que deixa de haver uma diferença entre o mundo e eu mesmo.”

O autor desse trecho, o prolífico escritor e filósofo Fritz Mauthner (1849-1923), é lembrado hoje sobretudo por uma crítica a ele dirigida no Tractatus-Philosophicus de Wittgenstein: “Toda filosofia a uma ‘critica da linguagem’ (mas não no sentido adotado por Mauthner).” Em certa medida em consequência desse comentário, Mauthner praticamente não teve influência na filosofia do século XX.

Como seu quase contemporâneo, Mauthner — nascido em uma cidadezinha da Boêmia e tendo crescido em Praga, falando tcheco, alemão e hebraico — era produto de uma sutil e brilhante cultura intelectual do fim do império Habsburgo, e boa parte da filosofia de Wittgenstein, com sua enorme influência, empregava ideias tomadas de empréstimo a ele. Ao comparar a crítica da linguagem a subir uma escada e depois jogá-la fora e escrever que a língua era como uma cidade antiga ou um jogo, Wittgenstein fazia eco a formulações que aparecem nas trinta primeiras páginas dos três volumes da Contribuição à crítica da linguagem (Stuttgart, 1901-3; segunda edição, 1923), de Mauthner.” Mas os escritos de Mauthner são revigorantemente diferentes do tipo de filosofia cultivado na obra de Wittgenstein. Sob muitos aspectos, Wittgenstein está no polo oposto ao antecessor esquecido de que tanto se valeu.

Negligenciadas pelos filósofos, as indagações de Mauthner no terreno da língua tiveram impacto mais frutífero na literatura. Samuel Beckett — o escritor que no século XX mais se dedicou a levar a língua a seus limites — leu a Crítica de Mauthner em algum momento do fim da década de 1930, fazendo copiosas anotações (algumas das quais leria para James Joyce) e ainda guardava os três volumes de Mauthner em sua estante, quarenta anos depois. Confirmando a influência da crítica de Mauthner em seus escritos, Beckett escrevia em uma carta em 1978: “Para mim, a coisa se resumia a:

Palavras pensadas
Palavras vazias
Pensamento vazio
Era esta minha leveza

Beckett desenvolveu essas ideias em uma entrada de um diário que manteve mais ou menos na época em que começou a ler Mauthner:

[…] sentimos com terrível resignação que a razão não é um dom super-humano concedido à humanidade, que não é uma deidade imutável e eterna, que a razão evoluiu na humanidade e evoluiu na direção do que é, mas também poderia ter evoluído de outra maneira [..] o que consideramos leis eternas e inalteravelmente fixas de nosso ser intelectual [são] apenas um jogo jogado pela coincidência que o mundo é; quando admitirmos que nossa razão (que, afinal de contas, é linguagem) só pode ser uma razão fortuita, vamos simplesmente sorrir ao contemplar a paixão argumentativa com que os antropólogos se têm detido em questões de costumes, crença e “fatos” psicológicos coletivos.

O impacto da obra de Mauthner talvez seja mais evidente no romance Watt, escrito quando Beckett participava da Resistência francesa, fugindo da Gestapo, e publicado em 1953. Nele, as dificuldades de comunicação e a impossibilidade do conhecimento são temas centrais. Mas as dúvidas de Mauthner a respeito da linguagem podem ser ouvidas no trabalho de Beckett. A última frase do livro de Mauthner é a seguinte: “A crítica pura não passa de um riso articulado.'” O combate de Beckett a vida inteira com a língua foi dar no riso — as caçoadas e risadas de seu drama e o humor lapidar de sua prosa tardia — e, no fim das contas, no “silêncio por trás de Tudo”.

Como os escritos de Mauthner, os de Beckett são tentativas de dizer o indizível. Escrevia ele em uma carta que faz eco a Mauthner: “No caminho para essa literatura da não palavra, tão desejável para mim, alguma forma de ironia nominalista pode ser uma etapa necessária.”

Calar-se significava aquietar o monólogo interno que é o dúbio privilégio da autoconsciência humana, tarefa que envolvia incontáveis experiências com a língua. Como os seres humanos não podem viver em silêncio, esse voluntário jogo de palavras é uma espécie de loucura, como reconhecia Beckett no último texto que escreveu, trabalho inacabado produzido meses antes de morrer em uma casa de repouso:

folly-
folly for to—
for two-
folly from this—
ali this…
what is the word—
what is the word

[loucura
loucura para
loucura para dois
loucura disto tudo isto…
que é a palavra
que é a palavra]

Se a obra de Beckett almejava o silêncio, não era porque supusesse que o silêncio traria paz. Escreveu Mauthner:

A necessidade de paz seduz a mente humana, mostrando-lhe a miragem de um lugar de repouso no deserto da sua luta pelo conhecimento; os eruditos acreditam em suas raízes linguísticas. Em todos os tempos e em qualquer lugar, a ciência de determinada época é a expressão do ansioso desejo de repouso do pobre espírito humano. Só a crítica — onde acaso ainda esteja viva, em cabeças ainda mais pobres — não tem descanso, pois não pode descansar. Ela deve despertar brutalmente a ciência, acabar com sua ilusão de um oásis e empurrá-la sempre mais à frente pelos caminhos quentes, mortais e possivelmente sem propósito do deserto.

O objetivo de Wittgenstein era um lugar de repouso como o descrito por Mauthner. Mesmo no Tractatus, que viria a renegar, Wittgenstein parecia encarar a filosofia como uma terapia que o livrasse da dúvida. Em seus trabalhos posteriores, ele entrou em incessante campanha contra o ceticismo, não desenvolvendo uma posição filosófica alternativa — o Wittgenstein mais tardio alegava não ter posições dessa natureza —, mas afirmando que o questionamento cético resultava de maneiras equivocadas de pensar sobre as palavras. A língua comum era uma forma de vida que não precisava — nem permitia — de nada além dela própria. Os seres humanos eram figu-ras em um mundo que eles próprios haviam criado. A paz — a paz de que Wittgenstein viria a desfrutar, segundo fantasiava, quando pudesse abrir mão da filosofia — significava aceitar que este mundo humano é tudo que jamais poderá haver.

A obra de Mauthner também tinha uma finalidade terapêutica, mas não a de encontrar a paz aquietando a dúvida. Nominalista radical como Hulme e Beckett, Mauthner queria afrouxar a ascendência das palavras sobre a mente. Em vez de lutar por calar o impulso de ir além das palavras, ele queria seguir o impulso aonde quer que o levasse. Seus escritos sobre o misticismo mostram aonde isto o conduziu. Ateu intransigente e autor de uma história do pensamento ateísta em quatro volumes, Mauthner observava que o “ateísmo” — como “Deus” — é apenas uma palavra. Seu ateísmo nada tem em comum com a descrença evangélica de sua época ou da nossa. Em sua forma pura, o ateísmo nada tem a ver com a descrença, assim como a religião nada tem a ver com a crença. De um ponto de vista rigoroso, o ateísmo é uma posição inteiramente negativa. Não se é ateu negando o que os teístas sustentam. É ateu aquele que não se interessa pelos conceitos e doutrinas do teísmo.

Esse tipo de ateísmo rigoroso tem algo em comum com a teologia negativa, que nega que Deus possa ser apreendido em ideias ou crenças. Mauthner admirava Mestre Eckhart, místico cristão do século XIV que morreu em circunstâncias obscuras depois de julgado pela Inquisição como autêntico ateísta, pois insistia em que nada podia ser dito a respeito de Deus — nem mesmo que existia.

Os teólogos negativos usam a língua como Mauthner achava que ela deveria ser usada: a fim de apontar para algo (não alguma coisa em sentido habitual) que não pode ser expresso na língua. Se apenas o que é real pode ser apreendido na língua, Deus é irreal. Mas não é apenas “Deus” que é irreal nesse sentido. Também o são termos genéricos como “matéria” e “humanidade” — abstrações que têm aparecido nos catecismos da descrença. Ateísmo não significa rejeitar “a crença em Deus”. Significa abrir mão da crença na língua como algo que não seja mera conveniência prática. O mundo não é uma criação da linguagem, mas algo que — como o Deus dos teólogos negativos — escapa à linguagem. O ateísmo é apenas uma etapa no caminho para um ceticismo de maior alcance.

Mauthner chamava essa visão — “só para dispor de um símbolo vocabular” — de misticismo ateu.si O que ele tentava articular não podia ser expresso na língua. O que não significava que nada houvesse a expressar. No Tractatus (7.7), Wittgenstein fazia a famosa declaração: “Do que não se pode falar, isso se deve calar.” Considerando-se a visão da língua posteriormente desenvolvida por ele, não havia para Wittgenstein nada que se devesse calar. Para Mauthner, por outro lado, o que não podia ser dito era mais importante que qualquer coisa que pudesse ser posta em palavras. Os místicos ateus não querem fundir-se com algo maior por eles imaginado, mas apagar seu eu inexistente. Nas palavras de John Ashbery:

A areia se agita
Na ampulheta. Mas há tempo
Para mudar, para destruir completamente
A imagem tão conhecida
Que espreita no vidro
Toda manhã, na borda do espelho.

GRAY, John, O silêncio dos animais. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2019.

 

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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