Quando penso quão pouco aprendi dos grandes filósofos! Nunca me fizeram falta nem Kant, nem Descartes nem Aristóteles; seu pensamento vale somente para nossos momentos de solidão, para nossas dúvidas consentidas. Mas me detive em Jó, com uma piedade filial.

CIORAN, O Livro das ilusões

“A covardia humana não pode suportar o que nos dizem a loucura e a morte”, e os homens viram as costas para os horrores da existência, contentando-se com as “consolações” preparadas pela filosofia do espírito. “Mas Jó”, prossegue Kierkegaard, “demonstrou a amplitude da sua concepção do mundo mediante a inquebrantável firmeza com que se opôs aos artifícios da ética” (isto é, da filosofia do espírito: os amigos de Jó lhe diziam o que posteriormente proclamaria Hegel em sua “filosofia do espírito”). E, finalmente: “Jó foi abençoado. Tudo lhe foi restituído em dobro. E isto é o que se chama a repetição… Quando se produz a repetição? É difícil explicá-lo por palavras humanas. Quando ela se produziu para Jó? Quando todas as certezas e todas as probabilidades humanamente pensáveis demonstraram sua própria impossibilidade.” E Kierkegaard anota em seu Diário: “Só o horror que chegou ao desespero desenvolve no homem suas mais altas forças.”
Para Kierkegaard e para sua filosofia — que, por oposição à filosofia especulativa,ele denominou filosofia existencial, isto é, a que proporciona ao homem não “compreensão”, mas vida (“o justo viverá por sua fé”) –, os gritos de Jó não são apenas gritos, ou seja clamores absurdos, inúteis, cansativos. Uma nova dimensão do pensamento se revela para Kierkegaard nesses gritos; eles carregam uma força astiva que, como as trombetas de Jericó, trarão abaixo as muralhas da fortaleza. É o tema fundamental da filosofia existencial. Certamente, Kierkegaard sabe tão bem quanto todos que, do ponto de vista da filosofia especulativa, a filosofia existencial é o maior dos absurdos. Mas isto não o detém; pelo contrário, o arrebata. É no “objetivismo” da filosofia especulativa que ele vê o vício essencial.

CHESTOV, Kierkegaard et la philosophie existentielle

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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