Folha de S. Paulo (Caderno Mais!), 2 de julho de 1995

ESPECIAL PARA A FOLHA

Duas vezes por ano, há muitos anos, eu releio “A Tale of a Tub” (A História de uma Tina), de Swift, não porque a julgue a mais vigorosa de todas as obras em prosa da língua inglesa (o que ela é), mas porque me faz bem -embora meu desapreço não seja menor do que minha admiração por ela.
Um crítico literário de caráter especulativo e gnóstico, ainda imbuído, às bordas da velhice, de um entusiasmo digno do alto romantismo, precisa ler “A Tale of a Tub tantas vezes quanto suportar.
Swift é o autor das sátiras mais impiedosas, das ironias mais selvagens da história da literatura ocidental, e uma de suas vítimas prediletas é um crítico dado a especulações gnósticas e entusiasmos românticos.
“A Tale of a Tub tem um formato insólito, uma paródia das “anatomias seiscentistas”, à maneira de Sir Thomas Browne e da “Anatomia da Melancolia”, de Robert Burton. Escandalosamente, a seção mais importante do livro nem mesmo faz parte dele: é um apêndice, o “Discurso Acerca da Operação Mecânica do Espírito”.
Foi Descartes o inventor de um dualismo que jamais deixará de atormentar nossa cultura, um dualismo que o filósofo contemporâneo Gilbert Ryle chama de “o fantasma na máquina e que Swift”, mais sombriamente, já conhecia como “Operação Mecânica do Espírito”.
Na “Batalha dos Livros”, Descartes aparece como um dos líderes dos modernos, em seu confronto com os antigos. Ele expia a culpa do dualismo ao receber na cabeça uma flecha de Aristóteles, cujo alvo era Bacon. Isto ainda é um destino melhor do que o espancamento furioso do cartesianismo em “A Tale of a Tub”:

“Mas, se esta Planta encontrou um solo fértil nos campos do Império e do Conhecimento, fixou-se ainda mais profundamente e espalhou-se ainda mais longe em Campo Santo. Onde, embora atendendo pelo Nome geral de Entusiasmo, e talvez nascida do mesmo Original, ainda assim produziu Ramos de outra Natureza, muito diversa, mesmo se tomados, com frequência, uns pelos outros. Em sua Acepção universal, a Palavra pode ser definida como `uma elevação da Alma ou das Faculdades, acima da Matéria”.

Essa Descrição, de maneira geral, é adequada; mas só o que nos concerne, aqui, é sua aplicação à Religião; onde há três Modos de ejacular a Alma, ou transportá-la para além da Esfera Material.
“O primeiro é a Ação imediata de Deus, que se chama de Profecia ou Inspiração. O segundo é a Ação imediata do Demônio, conhecida como Possessão. O terceiro é o Produto de Causas naturais: o efeito de uma Imaginação forte, da Melancolia, da Ira violenta, do Temor, Pesar, Dor e demais afetos. Os três Modos já foram tratados abundantemente por outros Autores e podemos, portanto, deixá-los de lado dessa Indagação.

“Mas o quarto Método do Entusiasmo Religioso, ou lançamento da Alma, sendo um Efeito do Artifício e da Operação Mecânica, não foi trabalhado senão raramente, quando tanto, por qualquer outro Autor; porque, embora seja uma Arte de grande Antiguidade, restringiu-se também a poucas Pessoas, ressentindo-se, portanto, daqueles Avanços e Refinamentos dos quais mais tarde se beneficiou, agora que se manifesta como uma Epidemia, caindo aos cuidados de tantas Mãos”.

Todos os quatro “métodos reduzem o espírito, ou alma, a um vapor gasoso, único estado possível para uma entidade transcendental, no cosmos de Hobbes e Descartes. No texto de “A Tale of a Tub” propriamente dito, Swift mantém um equilíbrio mais do que precário, à medida que joga, obsessivamente, com a imagem do espírito mecanicamente operado.
Nessas condições, não sobra à pobre alma mais que uma única forma de movimento: a digressão. O que Freud chamava de instinto (Trieb), para Swift é meramente digressão. Digredir é desviar, uma espécie de caminhada onde jamais se avança em linha reta. Desviando o bastante, nas palavras como na vida, qualquer um de nós acaba enlouquecendo.
“A Tale of a Tub” não é outra coisa senão digressão, porque para Swift, amargamente, não existe outra coisa num universo cartesiano. Mas a digressão do espírito é uma operação contraditória e transforma o espírito num vapor gasoso.
Os principais objetos de ataque de Swift, todos grandes sacerdotes da digressão, são os “sábios Eolistas”, acólitos de Éolo, deus dos ventos, entre os quais está incluído “todo e qualquer Pretendente à Inspiração”. Estimulado por eles, o Contador da “História” atinge uma intensidade digna do seu tema e uma ironia que já é, em si, uma espécie de histeria:

“… alguns Autores sustentam que os Eolistas existem no Mundo desde a Antiguidade. Pois a Exposição de seus Mistérios assemelha-se àquela de outros Oráculos antigos, cuja Inspiração se devia a certos Eflúvios subterrâneos de Vento, recebidos com alguma Dor pelo Sacerdote e exercendo a mesma Influência sobre o Povo. É verdade, além disso, que tais Eflúvios ficavam frequentemente sob a responsabilidade e controle de Oficiantes Femininas, cujos Órgãos eram vistos como melhor adequados à Admissão desses Sopros Oraculares, na medida em que passavam por Receptáculos de maior Capacidade e provocavam também um Prurido em seu Caminho, de ordem tal que, com uma Administração adequada, poderiam ser refinados, de um Êxtase Carnal ou Espiritual. Fortalecendo esta Conjectura profunda, insistem os Autores que este Costume das Oficiantes Femininas é mantido até hoje em certos Colégios sofisticados de Eolistas Modernos, dispostos a receber sua Inspiração através do mesmo Receptáculo acima mencionado, como seus Ancestrais, as Sibilas”.

A força desta passagem é perigosamente proporcional ao horror de Swift em se ver transformado naquilo mesmo que tanto se esforça para rejeitar. O Contador da “História teme a ascensão dos vapores, do abdômen à cabeça, teme a histeria, capaz de emasculá-lo. Swift não pode ser, ou não quer ser o Contador da “História”, mas o Contador talvez seja, em parte, uma defesa fracassada de Swift contra a loucura da digressão e a digressão como loucura. As compulsões do narrador se transformam numa espécie aterradora de contra-sublime, ou contra-entusiasmo, uma digressão voltada contra a digressão, um vapor contra os vapores:

“As Regiões mais altas do Homem são como as intermediárias do Ar; com Materiais formados por Causas inteiramente diversas, produzem, afinal, a mesma Substância e Efeito. Nevoeiros sobem da Terra; Vapor, das Estrumeiras; Exalações, do Mar, e Fumaça, do Fogo -mas todas as Nuvens têm uma só Composição, e as mesmas Consequências; e os Fumos que saem da Latrina reúnem-se num Vapor tão belo e útil quanto o Incenso no Altar… e, assim como a Face da Natureza nunca produz chuva, sem antes mostrar-se carregada e cheia de perturbações, também a Inteligência Humana, que tem seu assento no Cérebro, precisa sofrer as perturbações, precisa estar coberta de Vapores, que ascendem até ela das mais baixas Faculdades, antes de regar a Invenção e rendê-la produtiva”.

Será este o acento da sátira? A passagem, ela mesma, parece cheia de preocupação, e carregada, não tanto pelos vapores que vêm de baixo, quanto por uma angústia, não inteiramente reprimida, provocada pela idéia de que afinal qualquer um, incluindo o Contador da “História” e Swift, está vulnerável à Operação Mecânica do Espírito.
O rei Henrique 4º da França, justamente lembrado como “o Grande”, é o assunto do parágrafo seguinte, que descreve as preparações para a batalha, em prol do “Esquema da Monarquia Universal”, defendido pelo rei até que o assassinato liberasse o espírito, ou vapor, de seu corpo real:

“Não estará o Leitor curioso ao extremo, para saber a Origem deste Vapor, capaz de concentrar por tanto tempo a Atenção das Nações? Que Roda secreta, que Mola escondida não pôs em Movimento uma Máquina tão espantosa? Foi descoberto, posteriormente, que o Movimento da Máquina inteira fora dirigido por uma Fêmea ausente, cujo olhar erigiria uma Protuberância, mas que foi removida, antes da Emissão, até um País Inimigo. E o que poderia um Príncipe infeliz fazer em tão delicadas Circunstâncias?”

O que poderia, realmente? Até aqui o texto é bem-humorado e leve, para os padrões de Swift, mas a análise que se segue é mais escura, seja de um ponto de vista retórico, seja pelo conteúdo moral:

“Tendo esgotado, sem sucesso, todos os Propósitos pacíficos, a parte coligida de Sêmen, elevada e inflamada, transformou-se num pó que, convertido em Cólera, desviou-se pelo Duto espinal, ascendendo ao Cérebro. Exatamente o mesmo Princípio que leva um Fanfarrão a quebrar a Janela de uma Puta, se abandonado por ela, naturalmente estimula um Grande Príncipe a reunir Exércitos poderosos e não sonhar com nada além de Cercos, Batalhas e Vitórias”.

Redutora ou não, essa passagem continua exuberante; mas a expressão “elevada e inflamada” está bem no centro dela e representa mais um ataque de Swift ao entusiasmo, mais uma ironia clássica contra o sublime romântico. O Autor ou Contador da “História” abre mão da digressão para transformar-se em Swift, no que tem de mais calmo e mortífero, uma transformação que é também uma digressão. Mas não se pode censurar Swift por querer estar dos dois lados ao mesmo tempo, já que a sua não é uma batalha apenas pela correção dos nossos enganos, mas pela nossa sanidade; e ele luta bravamente por nós, contra nós, como luta por ele, contra ele mesmo.

Tradução de ARTHUR NESTROVSKI

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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