A emergência da modernidade em nossa Europa ocidental foi acompanhada de um inacreditável medo do diabo. A Renascença herdava seguramente conceitos e imagens demoníacos que haviam e definido e multiplicado no decorrer da Idade Média. Mas conferiu-lhes uma coerência, um relevo e uma difusão jamais atingidos anteriormente.
Satã pouco aparecia na arte cristã primitiva, e os afrescos das catacumbas tinham-no ignorado. Uma de suas mais antigas figurações, nas paredes da igreja de Baouït no Egito (século VI), o representa sob os traços de um anjo, decaído, sem dúvida, e com unhas recurvas, mas sem feiúra e com um sorriso um pouco irônico. Irresistível sedutor nas páginas iluminadas da Bíblia de são Gregório de Nazianzeno (Biblioteca Nacional, entre os séculos VI e IX), herói abatido nas decorações de certas igrejas orientais da mesma época, Lúcifer, outrora criatura preferida de Deus, ainda não é um monstro repulsivo.
Em compensação, os séculos XI e XII veem produzir-se, ao menos no Ocidente, a primeira grande “explosão diabólica” (J. Le Goff) ilustrando para nós o Satã de olhos vermelhos, de cabelo e asas de fogo do Apocalypse, de Saint-Sever, o diabo devorador de homens de Saint-Pierre-de-Chauvigny, os demônios imensos de Autun, as criaturas infernais que, em Vézelay, Moissac ou Saint Benoît-sur-Loire, tentam, possuem ou torturam os humanos. Assimilado pelo código feudal a um vassalo desleal, Satã faz então sua grande entrada em nossa civilização. Anteriormente abstrato e teológico, ei-lo que se concretiza e reveste nas paredes e nos capitéis das igrejas toda espécie de formas humanas e animais Estabeleceu-se uma relação entre as esculturas de Vézelay e o Elucidarium, espécie de catecismo redigido no começo do século XII por um alemão pouco conhecido, por muito tempo chamado de Honorius d’Autun. Ora, elementos demonológicos disseminados nos escritos cristãos desde os primeiros tempos da Igreja e, por outro lado, é a primeira a reunir de maneira coerente as penas do inferno. Ao mesmo tempo sedutor e perseguidor, o Satã dos séculos XI e XII certamente assusta. No entanto, ele e seus acólitos são por vezes tão ridículos ou divertidos quanto terríveis; por isso, tornam-se progressivamente familiares. A hora do grande medo do diabo ainda não chegou. No século XIII, os nobres “Juízos Finais” das catedrais góticas colocam em seu justo lugar o inferno, seus suplícios e demônios. O essencial dos grandes tímpanos esculpidos é então reservado ao Cristo em majestade, à corte paradisíaca e à alegria serena dos eleitos. “Na arte toda teológica do século XIII”, escrevia R. Mâle, “[não se encontra] nenhuma representação detalhada do inferno”, embora Santo Tomás de Aquino declare que não se deve entender de modo apenas simbólico o que se contas dos suplícios além-túmulo.

DELUMEAU, Jean, História do medo no Ocidente. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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