Revista Trans/Form/Ação, São Paulo, 26(1): 129-140, 2003

RESUMO: Tomamos como objeto de análise a obra precoce de Bergson, os Extraits de Lucrèce, procurando mostrar que ao privilegiar as implicações existenciais negativas do determinismo, prefigura e justifica o fato de dedicar grande parte de seu pensamento filosófico posterior à crítica ao determinismo e à defesa da liberdade.

PALAVRAS-CHAVE: Bergson; Lucrécio; determinismo; existencial.

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Em 1883, cinco anos antes do aparecimento da primeira grande obra filosófica de Bergson, o Essai sur les données immédiates de la conscience, publicou-se, pela primeira vez, o texto de sua autoria, intitulado Extraits de Lucrèce (Bergson, 1972), acrescido de comentários, notas e estudos. O que chama a atenção nessa obra é o fato de aí já estarem prefiguradas duas das grandes temáticas filosóficas que ocuparão posteriormente o pensamento de Bergson. Em primeiro lugar, os Extraits de Lucrèce fornecem o modelo do tratamento que deve ser dado pelo filósofo à História da Filosofia, ou seja, o modo pelo qual se deve abordar e o que se deve buscar em uma obra filosófica. Em segundo lugar, esse texto prenuncia uma temática que atravessa a obra de Bergson: a crítica ao determinismo.

Como veremos, diferentemente de suas obras posteriores, nas quais ataca as várias formas de determinismo, a partir de seus fundamentos, ressaltando sua falta de consistência, nesse texto precoce sobre Lucrécio, encontramos a motivação para esse persistente ataque: as implicações existenciais negativas do determinismo.

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Bergson começa seu estudo pelas dificuldades de se publicar uma obra com trechos escolhidos de Lucrécio, considerando que há um grande risco de induzir o leitor a uma idéia falsa a respeito de seu pensamento. Propõe então um modelo de abordagem filosófica a ser seguido: quando se estuda um autor, o “essencial é compreendê-lo bem” (Bergson, 1972, p.266), e para a boa compreensão de uma obra filosófica, faz-se necessária a identificação do “grande princípio filosófico” que a norteia. O objetivo de Bergson, portanto, não é criticar as idéias de Lucrécio, mas encontrar esse “grande princípio” na obra La nature, buscar o que está por trás das descrições, dos quadros que Lucrécio pinta a respeito da vida humana.

O ponto de partida de Bergson, aquilo que mais o impressiona na obra do poeta, é o sentimento que ela claramente expressa: a “melancolia profunda”. Há tristeza e desânimo na descrição dramática que Lucrécio faz da vida humana em geral, caracterizada como monótona, rotineira, inútil, insatisfeita, amarga, triste. Para Bergson, esse sentimento é tão dominante, tão amplamente sugerido e justificado, que mesmo as exceções e, de certa forma, a própria solução apontadas pelo poeta – o conformismo –, não conseguem disfarçá-lo… [PDF]

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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