Quando eu tinha vinte anos, minha mãe evidentemente ficava desesperada de ter um filho que, às três horas da manhã, saía de casa para andar pela cidade. […] Eu era um tipo que prometia muito, e que não cumpriu nada. Digo isso porque,  você vai entender… Eu tinha então vinte anos, e um dia estávamos sós, eu e minha mãe, em casa. Eram – eu cito sempre a hora, pois em todos os momentos extraordinários da vida a hora é importante, não em si, mas para mim – eram duas horas da tarde, lembro-me, e eu me joguei sobre o sofá. E disse: “Não aguento mais!” E minha mãe, que era esposa de padre (atenção à época), me disse: “‘Se eu soubesse, teria abortado!’ Devo dizer que estas palavras, em vez de me deprimir, foram uma espécie de libertação. Fizeram-me bem… Porque compreendi que eu não passava de um acidente. Não devia tomar a vida muito a sério. Foram palavras liberadoras. Entretanto, a verdade é que foi numa época em que o aborto não era admitido nas famílias, era uma coisa escondida. E agora é algo normal. E apesar de tudo, minha mãe, que era esposa de padre, me disse isso…  E foi assim que eu compreendi que minha mãe era uma mulher inteligente…
CIORAN, Entretien avec Léo Gillet

Nada que um filho deste mundo espere menos, e no fundo mais deseje, ouvir de sua própria mãe. Cioran mente, ou no mínimo omite grande parte da verdade, ao declarar, na anamnese em questão, cuidadosamente romanceada, que tais palavras não foram deprimentes, mas antes liberadoras. Apliquemos a ele o mesmo filtro dualista, a mesma lógica da ambivalência e da contradição que ele mesmo pratica e aplica a todas as coisas, quando lhe convém, é claro.
“Se eu soubesse, teria [te] abortado”: palavras “liberadoras” porque esmagadoras, aniquiladoras. Palavras que o abalaram profundamente, e que o tornariam, mais do que qualquer filosofia de bar, madrugada adentro, aquele que ele se tornou. Palavras deprimentes dentre todas (vindas de uma mãe, não importa o ar de impessoalidade, neutralidade abstrata que nelas se queira perceber). Devemos ser eternamente gratos pela sinceridade mortal da mãe de Cioran, ou por sua desconcertante inteligência.
Saber que se poderia ou deveria ter sido abortado, que o aborto de si teria sido, no julgamento de quem não o cometeu, uma melhor ideia do que “carry on” (carrion) com tão incerto, custoso, problemático, inútil “projeto de vida”, estas palavras o libertaram, sim, mas com a condição de atingi-lo inaudita e profundamente, como um golpe vindo de não se sabe onde, para atingir nãos se sabe que parte de si.
“Só as grandes dores, as dores inesquecíveis, desligam do mundo; as outras, as medíocres, moralmente as piores, escravizam porque tocam a escória da alma”, lê-se em História e Utopia. E essas grandes, inesquecíveis dores, são as dores que se dissimulam, que se disfarçam como algo acidental, que não são, para quem as abriga, necessariamente, dolorosamente, inesquecíveis
Que, afinal, Cioran não tenha passado de um “acidente” da Natureza inconsequente, “algo” que poderia não ter vindo a ser, não ter-se tornado quem se tornou, que poderia ter sido “cancelado”, “descontinuado” (a miscarriage, outro termo inglês para “aborto”, só que espontâneo): uma revelação dolorosa, e que não abala a vanitas de um pobre-diabo sem ao mesmo tempo, paradoxalmente, atiçá-la ao infinito, ao ponto da santa temeridade, da teratologia sublime.

“Gostaria de ser livre, desvairadamente livre.
Livre como um nado-morto [non-né, “não-nascido”].”

Do inconveniente de ter nascido

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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