O verdadeiro mundo é a música. A música é o Inaudito. Quando a ouvimos, pertencemos ao Ser. Assim Nietzsche a vivenciava. Era tudo para ele. Não deveria cessar nunca. Mas ela cessa, e por isso temos o problema de como continuar vivendo quando a música acaba. A 18 de dezembro de 1871 Nietzsche viaja de Basileia a Mannheim, para lá escutar música de Wagner dirigida pelo compositor. Voltando a Basileia ele escreve a sey amigo Erwin Rohde a 21 de dezembro: Tudo o que (…) não se pode compreender com relações musicais, produz em mim (…) realmente nojo e repugnância. E quando voltei do concerto em Mannheim, senti realmente o horror tresnoitado, singularmente intensificado diante da realidade cotidiana: porque ela nem me parecia mais real, mas espectral.

O retorno para a atmosfera vital distante da música é um problema sobre o qual Nietzsche refletiu incessantemente. Existe uma vida após a música, mas nós a suportaremos? Sem música a vida seria um engano, escreve ele certa vez.

A música nos oferece momentos de verdadeiro sentimento, e pode-se dizer que toda a filosofia de Nietzsche é uma tentativa de manter-se vivo ainda que a música tenha acabado. Nietzsche quer musicar do melhor modo possível com linguagem, pensamento e conceitos. Mas, naturalmente, fica uma insuficiência. Ela deveria ter cantado, essa “alma nova” — em vez de falar!, escreve Nietzsche no prefácio autocrítico feito mais tarde ao “Nascimento da Tragédia”, de 1872. E resta também uma tristeza. Nos fragmentos póstumos, da primavera de 1888, encontramos a seguinte anotação: O fato é “que estou tão triste”; o problema “eu não sei o que isso significa”…. a lenda de velhos tempos. Ele está nas pegadas de Heine, e pensa na Lorelei. Nietzsche ouviu a canção das sereias e agora sente o desconforto e uma cultura na qual as sereias emudeceram, e a Lorelei não passa de uma assombração, uma lenda dos velhos tempos. A filosofia de Nietzsche nasce da tristeza pós-sirênica, e gostaria de salvar pelo menos o espírito da música encontrando-a na palavra, um eco da despedida e uma harmonia com o possível retorno da música, para que não se quebre o arco da vida.

SAFRANSKI, Rüdiger, Nietzsche: biografia de uma tragédia. Trad. de Lya Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br

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