História

A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. (Breviário de Decomposição)

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O princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometéica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas suas virtudes -, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse. Nela, as certezas  abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: reconstituirá o paraíso. (Breviário de Decomposição) 

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A história dedica-se unicamente a mudar o rosto de uma quantidade de interrogações e de soluções. (Breviário de Decomposição)

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A história das idéias é a história do rancor dos solitários. (Silogismos da Amargura)

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“Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”. Sendo nosso mal a
história, o eclipse da história, devemos insistir nas palavras de Valéry, agravar seu
alcance: sabemos agora que a civilização é mortal, que galopamos em direção a
horizontes de apoplexia, a milagres do pior, à idade de ouro do pânico. (Silogismos da Amargura)

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Se a História tivesse uma finalidade, como seria lamentável o destino daqueles
que, como nós, nada fizeram na vida. Mas no meio do absurdo geral, nos erguemos
triunfantes, nulidades ineficazes, canalhas orgulhosos de haver tido razão. (Silogismos da Amargura)

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Feliz no amor, Adão teria nos poupado a História. (Silogismos da Amargura)

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A trepidação da história é da alçada da psiquiatria, assim como de resto todos os
motivos da ação: mover-se é trair a razão, expor-se à camisa-de-força.  (Silogismos da Amargura)

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A hora do crime não soa para todos os povos ao mesmo tempo. Assim se explica
a permanência a história. (Silogismos da Amargura)

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Dizer: prefiro tal regime a tal outro, é flutuar no indefinido; seria mais exato
afirmar: prefiro tal polícia a tal outra. Pois a história na realidade, se reduz a uma
classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do
gendarme que os homens criaram através dos tempos? (Silogismos da Amargura)

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Admiro esses povos de astrônomos: caldeus, assírios, pré-colombianos, que, por
causa de seu gosto pelo céu, fracassaram na história. (Silogismos da Amargura)

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Os tiranos, uma vez saciada a sua ferocidade, tornam-se inofensivos; tudo voltaria ao normal se os escravos, ciumentos, não pretendessem também saciar a sua. A aspiração do cordeiro a converter-se em lobo suscita a maioria dos acontecimentos. Quem não tem presas, sonha com elas; deseja devorar por sua vez e o consegue pela brutalidade do número.
A história, esse dinamismo das vítimas. (Silogismos da Amargura)

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Para passar das cavernas aos salões, precisamos de um tempo considerável; necessitaremos outro tanto para percorrer o caminho inverso ou queimaremos as etapas? Pergunta inútil para os que não pressentem a pré-história… (Silogismos da Amargura)

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Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que
atribuem um “sentido” à história. (Silogismos da Amargura)

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Uma espiada no itinerário da civilização me dá uma presunção de Cassandra. (Silogismos da Amargura)

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A história é indefensável. É preciso reagir em relação a ela com a inflexível abulia do cínico; ou então, pensar como todo mundo, caminhar com a turba dos rebeldes, dos assassinos e dos crentes. (Silogismos da Amargura)

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O final da história? O fim do homem? É sério pensar nisso? São acontecimentos longínquos que a Ansiedade — ávida de desastres iminentes — deseja a todo custo precipitar. (Silogismos da Amargura)

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