Doença; enfermidade

O lirismo do sofrimento é uma canção do sangue, da carne e dos nervos. O verdadeiro sofrimento brota da doença. Por isso, quase todas as doenças têm virtudes líricas. Só quem vegeta numa insensibilidade escandalosa permanece impessoal diante da doença, que sempre produz um aprofundamento pessoal. (Nos cumes do desespero)

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Não é sintomático o fato de que se insurgem contra o espírito justamente aqueles que têm espírito demais, aqueles que conhecem a gravidade da doença que, afetando a vida, resulta no nascimento do espírito? (Nos cumes do desespero)

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Se as doenças têm uma missão filosófica neste mundo, ela não pode ser outra senão demonstrar quão ilusória é a sensação da eternidade da vida e quão frágil é a ilusão de uma indefinição e de um triunfo da vida. Pois, na doença, a morte está sempre presente na vida. Os estados genuinamente doentios nos conectam a realidades metafísicas que um homem normal e saudável é incapaz de entender. É evidente que entre as doenças há uma hierarquia conforme sua capacidade de revelação. Nem todas apresentam, com a mesma duração e intensidade, a experiência da imanência da morte na vida e nem todas citsilogse manifestam em formas idênticas de agonia. […] …nos estados normais e não reveladores, a morte é considerada vinda de fora e completamente externa à vida. A mesma sensação têm os jovens ao falar da morte. Mas quando a doença os golpeia em pleno elã, todas as ilusões e seduções da juventude desaparecem. Com certeza, neste mundo, as únicas experiências verdadeiramente autênticas são as que brotam da doença. […] Só as pessoas que realmente sofrem são capazes de conteúdos autênticos e de uma seriedade infinita. […] Toda doença é heroísmo; mas um heroísmo de resistência, não de conquista. O heroísmo na doença se manifesta por resistência nos bastiões perdidos da vida. (Nos cumes do desespero)

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Deus se instala nos vazios da alma. Avança em direção aos desertos interiores, pois, a exemplo da enfermidade, ele insinua-se nos pontos de menor resistência.
Uma criatura harmoniosa não pode crer Nele. São os doentes e os miseráveis que o “suscitam”, para o uso de atormentados e desesperados. (Lacrimi şi Sfinţi)

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O espírito, em seu ímpeto, procede de nossas funções comprometidas: levanta vôo à medida que o vazio se dilata em nossos órgãos. Só é saudável em nós aquilo pelo que não somos especificamente nós mesmos: são nossas aversões que nos individualizam; nossas tristezas que nos concedem um nome; nossas perdas que nos fazem possuidores de nosso eu. Só somos nós mesmos pela soma de nossos fracassos. (Breviário de decomposição)

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Acesso involuntário a nós mesmos, a doença nos obriga à “profundidade”, nos condena a ela. O doente? Um metafísico involuntário.  (Silogismos da amargura)

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Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de que vitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede? Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; “doente”, já não sou eu quem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou por eles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtualidades indiferentes; mas a nitidez de um mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ou não: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios. Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente.
A liberdade? Sofisma dos saudáveis. (Silogismos da amargura)

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Depois de haver peregrinado através das espécies, e lutado com maior ou menor êxito para nelas imprimir sua marca, a Doença, cansada de sua carreira, quis sem dúvida aspirar ao descanso, buscar alguém em quem afirmar sua supremacia em paz, alguém que não se mostrasse rebelde a seus caprichos e a seu despotismo, alguém com quem realmente pudesse contar. Hesitou, procurou à direita e à esquerda, fracassou muitas vezes. Finalmente encontrou o homem, se é que não foi ela que o criou. (História e utopia)

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No catálogo de fatores responsáveis pelo surgimento do homem, a enfermidade vem em primeiro lugar. (La chute dans le temps)

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Que é a injustiça comparada com a doença? É verdade que se pode achar injusto o fato de estar doente. E é justamente assim que reagimos, sem nos preocupar se estamos ou não com a razão.
A doença é: nada mais real que ela. Se a declaramos injusta, devemos ousar fazer o mesmo em relação ao ser enquanto tal, falar, inclusive, da injustiça de existir. (De l’inconvenient d’être né)

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O sofrimento abre nossos olhos, ajuda a ver o que não veríamos de outra forma. Portanto, só é útil ao conhecimento e, fora isso, não serve senão para envenenar a existência. O que, diga-se de passagem, favorece ainda mais o conhecimento. “Ele sofreu, logo, compreendeu.” É tudo o que podemos dizer de uma vítima da doença, da injustiça, ou de não importa que variedade de infortúnio. O sofrimento não melhora ninguém (salvo aqueles que já eram bons), é esquecido como são esquecidas todas as coisas, não entra no “patrimônio da humanidade”, não é conservado de maneira alguma, mas se perde como tudo se perde. Mais uma vez, não serve senão para abrir os olhos. (De l’inconvenient d’être né)

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A saúde é certamente um bem; mas àqueles que a possuem foi recusada a chance de se darem conta disso, pois uma saúde autoconsciente, se já não estiver comprometida, está prestes a tal. Como ninguém goza de sua ausência de enfermidades, pode-se falar sem exagero em uma justa punição dos saudáveis. (De l’inconvenient d’être né)

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“As doenças, umas de dia, outras à noite, à sua própria maneira, visitam os homens, impondo sofrimento aos mortais – em silêncio, pois o sábio Zeus lhes recusou a palavra.” (Hesíodo)
Felizmente, pois, mesmo mudas, elas já são atrozes. Tagarelas, que seriam? Pode-se sequer imaginar uma doença se anunciando? No lugar de sintomas, proclamações! Zeus, pelo menos uma vez, deu prova de delicadeza. (De l’inconvenient d’être né)

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Se conseguimos perseverar apesar de tudo, é porque nossas enfermidades são tão múltiplas e tão contraditórias que se anulam umas as outras. (De l’inconvenient d’être né)

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Sendo o homem um animal enfermo, qualquer de suas palavras ou gestos equivale a um sintoma. (Aveux et anathèmes)

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Ceder, no meio de nossos males, à tentação de acreditar que não nos servem para nada e que, sem eles, estaríamos infinitamente mais avançados, é esquecer o duplo aspecto da enfermidade: aniquilação (anéantissement) e revelação; ela nos arranca de nossas aparências e só as destrói para melhor abrir-nos à nossa realidade última, e, às vezes, ao invisível. Por outro lado, não se pode negar que todo enfermo é um trapaceiro à sua maneira. Se ele se ocupa tão minuciosamente com suas enfermidades, é para não pensar na morte; escamoteia-a curando-se. Só a encaram de frente aqueles que, verdadeiramente raros, compreenderam os “inconvenientes da saúde” e se recusam a adotar qualquer medida para conservá-la ou conquistá-la. Deixam-se morrer docemente, ao contrário dos outros, que se agitam e se apressam, e crêem escapar à morte por não terem tempo de sucumbir a ela. (Cahiers)

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Enfermidade real ou imaginária, para mim dá na mesma. Quero dizer que sempre sofro em alguma parte, que tenho uma consciência exasperada de minha incapacidade para sentir-me bem. Mais que meu corpo, é o meu ser que dói. (Cahiers)

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A doença é uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida; não apenas tudo o que vive, como também tudo o que é, está exposto a ela: a própria pedra está sujeita a ela. Apenas o vazio não está enfermo, mas, para ter acesso a ele, é preciso está-lo. Pois nenhuma pessoa sã poderia alcançá-lo. A saúde espera a enfermidade; apenas a enfermidade pode propiciar a negação saudável de si mesma. (Cahiers)

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A urina de vaca era o único remédio que os monges estavam autorizados a utilizar nas primeiras comunidades budistas. Se refletirmos a respeito, isso se mostra justo e normal. Se buscamos a paz, só podemos alcançá-la rejeitando tudo o que seja fator de confusão, isto é, tudo o que o homem acrescentou à simplicidade original. Multiplicar os remédios é tornar-se escravo deles. Não é esse o caminho da cura nem da salvação. Nada revela melhor nossa decadência que o espetáculo de uma farmácia: todos os remédios que se quiser para cada um de nossos males, mas nenhum para o nosso mal essencial, para aquele do qual nenhuma invenção humana pode nos curar. (Cahiers)

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Aquele que obteve sucesso em tudo é necessariamente superficial. O fracasso é a versão moderna do nada. Toda minha vida eu estive fascinado pelo fracasso. Um mínimo de desequilíbrio se impõe. O ser perfeitamente são, física e psiquicamente, carece de um saber essencial. Uma saúde perfeita é a-espiritual. (Entretien avec Sylvie Jaudeau)

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