Espanha

Quem não pressentiu o que significa a rarefação do ar num convento e a evacuação do tempo numa cela, tentará em vão compreender a chamada da solidão, o gosto do desespero. Penso especialmente nos conventos espanhóis, nos quais tantos reis e santos alojaram sua melancolia e sua loucura. O mérito da Espanha consistiu não apenas em haver cultivado o excessivo e o insensato, mas também em haver demonstrado que a vertigem é o clima normal do homem. Há algo mais natural que a presença dos místicos nesse povo que suprimiu a distância entre o céu e a terra? (Lacrimi și Sfinți)

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Rússia e Espanha: duas nações grávidas de Deus. Outros países se conformam com conhecê-lo, sem levá-lo em seu seio.
Um povo tem a missão de revelar ao menos um dos atributos de Deus, de fazer-nos descobrir uma de suas faces. O que só pode ser feito se o futuro realiza uma parte das qualidades secretas da Divindade.
Alguns milênios de história produziram uma séria crise do poder e da autoridade de Deus. Os povos se superaram para fazer-lhe conhecer, sem suspeitar do mal que lhe causavam. Se todos os países se parecessem com a Espanha ou a Rússia, há tempos o teriam esgotado. O ateísmo russo e espanhol é inspirado pelo Altíssimo. Mediante o ateísmo, Ele se defende contra a fé que o consome. Deus acolhe de braços abertos os ateus, seus filhos… (Lacrimi și Sfinți)

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Alguém se aproximou Dele mais que el Greco mediante as linhas e as cores? Deus alguma vez foi assediado por figuras humanas com uma insistência tão agressiva? Longe de ser o produto de uma deficiência ótica, o óvalo em el Greco é a forma que o rosto humano adota quando dilata-se até as alturas. Para nós, a Espanha é uma chama, para Deus, um incêndio. O fogo aproximou os desertos da terra e do firmamento. A Rússia com a Sibéria inteira arde ao mesmo tempo que a Espanha e o céu mesmo. (Lacrimi și Sfinți)

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O russo ou o espanhol mais cético se apaixona por Deus mais que qualquer metafísico alemão. Todo o claro-escuro da pintura holandesa não iguala em intensidade dramática a sombra ardente de um Greco ou de um Zurbarán.
Entre a Espanha e a Holanda existe a distância incomensurável que separa o desespero da melancolia. O próprio Rembrandt nos convida a repousar sob a sombra e todo o seu claro-escuro não passa de espera pela velhice; dificilmente se encontraria artista mais reflexivo e mais sossegado que ele.
Rembrandt é o único pintor holandês que compreendeu Deus. (Seria esta a razão de ter pintado relativamente poucas paisagens?) Mas, longe de ser uma presença que deforma as coisas até desfigurá-las (como em el Greco), o Deus de Rembrandt emana do mistério das sombras.
Existe na arte outro critério que não a aproximação ao céu? Pois o ardor e a tensão exigidos só podem ser determinados em relação com uma paixão absoluta. No entanto, esse critério nos deixa desconsolados, uma vez que a Rússia e a Espanha nos mostram que nunca estamos suficientemente próximos de Deus para ter o direito de sermos ateus…
O tempo é um consolo. Mas a consciência vence o tempo. E fica difícil encontrar uma terapêutica eficaz contra a consciência. Tudo o que nega o tempo é enfermidade. E o que de mais saudável e puro há na vida não passa de uma apoteose do efêmero. A eternidade é uma eterna podridão e Deus um cadáver sobre o qual o homem placidamente tira uma soneca. (Lacrimi și Sfinți)

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Cada povo traduz no devir e à sua maneira os atributos divinos; o ardor da Espanha permanece, no entanto, único: se tivesse sido repartido pelo resto do mundo, Deus estaria esgotado, desprovido e vazio d’Ele mesmo. E é para não desaparecer que faz prosperar em seus países – por autodefesa – o ateísmo. Temendo os ardores que inspirou, reage contra seus filhos, contra seu frenesi que o diminui; seu amor abala o Seu poder e a Sua autoridade; só a descrença o deixa intacto; não são as dúvidas que o deterioram, mas a fé. Há séculos a Igreja banaliza seus prestígios e, tornando-o acessível, prepara-lhe, graças à teologia, uma morte sem enigmas, uma agonia comentada, esclarecida: se está oprimido, sob as orações, como não o estaria sob as explicações? Teme a Espanha como teme a Rússia: em ambos os lugares multiplica os ateus. Seus ataques, ao menos, lhe permitem guardar ainda a ilusão da onipotência: sempre é um atributo de salvação! Mas, os crentes! Dostoievski, el Greco: há inimigos mais febris? Como não preferiria Baudelaire a São João da Cruz? Teme os que o veem e aqueles através dos quais Ele vê.
Toda santidade é mais ou menos espanhola: se Deus fosse ciclope, a Espanha lhe serviria de Olho. (Breviário de Decomposição)

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Durante três séculos, a Espanha guardou zelosamente o segredo da Ineficácia; hoje em dia, todo o Ocidente possui esse segredo; ele não o roubou, descobriu-o por seus próprios meios, por introspecção. (Silogismos da Amargura)

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Um após o outro, adorei e execrei numerosos povos; jamais me ocorreu renegar o espanhol que gostaria de ter sido… (Silogismos da Amargura)

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O catolicismo só criou a Espanha para melhor sufocá-la. É um país aonde se viaja para admirar a Igreja, e para adivinhar o prazer que pode existir em assassinar um pároco. (Silogismos da Amargura)

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O interesse dos homens civilizados pelos povos ditos atrasados é muito suspeito. Incapaz de suportar-se mais a si mesmo, o homem civilizado descarrega sobre esses povos o excedente de males que o afligem, incita-os a compartilhar suas misérias, conjura-os para que afrontem um destino que ele já não pode encarar sozinho. Forçado a considerar a sorte que tiveram de não “evoluir”, experimenta diante deles os ressentimentos de um audacioso desconcertado e desequilibrado. Com que direito permanecem a parte, fora do processo de degradação ao qual encontra-se submetido há tanto tempo sem poder se libertar? A civilização, sua obra, sua loucura, parece-lhe um castigo que pretende infligir àqueles que permanecem fora dela. “Venham compartilhar minhas calamidades; solidarizem-se com meu inferno”, eis o sentido de sua solicitude, o fundo de sua indiscrição e de seu zelo. Superado por suas taras e, mais ainda, por suas “luzes”, só descansa quando consegue impô-las aos que estão felizmente isentos delas. O homem civilizado já procedia assim inclusive na época em que nem era tão “ilustrado” e nem estava tão cansado, mas entregue à avareza e a sua sede de aventuras e de infâmias. Os espanhóis, por exemplo, no ápice de sua carreira, devem ter se sentido tão oprimidos pelas exigências de sua fé e os rigores da Igreja, que se vingaram disso mediante a Conquista. (La Chute dans le Temps)

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Em contínua rebeldia contra mina ascendência, toda minha vida desejei ser outro: espanhol, russo, canibal, qualquer coisa menos o que sou.
É uma aberração pretender-se diferente do que se é, adotar em teoria todas as condições exceto a própria. (De l’Inconvenient d’Être Né)

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Um poeta espanhol me envia um cartão de felicitações na qual aparece um rato, símbolo, me diz ele, de tudo o que podemos esperar do ano. De todos os anos, poderia ter acrescentado. (Écartèlement)

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Centenas de turistas, escandinavos em sua maioria, esperam na fronteira espanhola diante da alfândega. A uma mulher corpulenta, visivelmente ibérica, entregam um telegrama; por ele fica sabendo da morte de sua mãe e começa a gritar.
Que sorte poder descarregar-se de uma pena com tanta rapidez, em vez de dissimulá-la e armazená-la como teria feito qualquer um daqueles nórdicos descoloridos que olhavam aturdidos e que, vítimas de sua discrição e de sua compostura, cairão um dia no divã do psicanalista. (Écartèlement)

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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