Gnose

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A história, espaço onde realizamos o contrário de nossas aspirações, onde as desfiguramos sem cessar, não é, evidentemente, de essência angélica. Ao considerá-la, só concebemos um desejo: promover a agrura à dignidade de uma gnose. (História e utopia)

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Sem a hipótese de um deus febril, obcecado, sujeito a convulsões, embriagado de epilepsia, não poderíamos explicar este universo que em tudo traz as marcas de uma baba original. E adivinhamos a essência desse deus quando nós mesmos experimentamos um tremor semelhante ao que ele deve ter sentido nos momentos em que lutava com o caos. Pensamos nele como tudo o que em nós é contrário à forma ou ao bom senso, com nossas confusões e nosso delírio; nos aproximamos dele através de súplicas que nos deslocam, pois ele fica próximo de nós toda vez que algo, em nós, se rompe e que, à nossa maneira, também enfrentamos o caos. Teologia sumária? Contemplando esta criação sabotada, como não incriminar seu autor? Como, sobretudo, julgá-lo hábil ou simplesmente destro? Qualquer outro deus teria dado provas de maior competência ou equilíbrio do que ele: para onde quer que se o lhe, só existe erro e confusão. É impossível absolvê-lo, mas também é impossível não compreendê-lo. E nós o compreendemos por tudo o que em nós é fragmentário, inacabado, malfeito. Sua empresa carrega os estigmas do provisório, e, no entanto, não foi tempo o que lhe faltou para realizá-la bem. Para nossa desgraça, ele foi inexplicavelmente apressado. Por uma ingratidão legítima, e para que sinta nosso mau humor, nos esforçamos – peritos em anti-Criação – para deteriorar seu edifício, para tornar ainda mais miserável uma obra já comprometida desde seu início. Sem dúvida seria mais sensato e mais elegante não tocar nela, deixá-la tal e qual, não vingar-nos nela das incapacidades de seu Criador; mas como ele nos transmitiu seus defeitos, não temos por que termos considerações com Ele. Se, em última instância, O preferimos aos homens, isso não O coloca a salvo de nossos maus humores. Talvez só tenhamos concebido Deus para justificar e regenerar nossas revoltas, para dar-lhes um objeto digno, para impedir que se extenuem e se aviltem, realçando-as pelo abuso revigorante do sacrilégio, réplica às seduções e aos argumentos do desânimo. Jamais nos desembaraçamos de Deus. Tratá-Lo de igual para igual, como inimigo, é uma impertinência que fortifica, que estimula, e são dignos de lástima aqueles a quem Ele não irrita mais. Que sorte, em compensação, poder – sem cerimônia – responsabilizá-Lo por todas as nossas misérias, humilhá-Lo e injuriá-Lo, não perdoá-Lo em momento algum, nem sequer em nossas orações! (História e Utopia)

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Antigamente, quando o espaço se encontrava menos abarrotado, menos infestado de homens, umas seitas, indubitavelmente inspiradas por uma força benéfica, preconizavam e praticavam a castração; por um paradoxo infernal, elas desapareceram no momento preciso em que sua doutrina teria sido mais oportuna e mais salutar do que nunca. Maníacos da procriação, bípedes de rostos desvalorizados, perdemos todo atrativo uns para os outros, e somente sobre uma terra semideserta, povoada no máximo de alguns milhares de habitantes, nossas fisionomias poderiam reencontrar seu antigo prestígio. A multiplicação de nossos semelhantes beira a imundície; o dever de amá-los beira o absurdo. (História e Utopia)

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…em competição com Deus, imitamos suas facetas duvidosas, sua faceta demiúrgica, essa parte dele que o levou a criar, a conceber uma obra que deveria empobrecê-lo, diminui-lo, precipitá-lo em uma queda, prefiguração da nossa. Iniciada a empreitada, nos deixou o cuidado de conclui-la, para retornar a si, a sua eterna apatia, da qual seria preferível que nunca tivesse saído. E, se o julgou de outra maneira, que esperar de nós? A impossibilidade de abster-nos, a obsessão do fazer denota, em todos os níveis, a presença de um princípio demoníaco. Quando somos levados ao exagero, à desmedida, ao gesto, seguimos mais ou menos conscientemente aquele que, precipitando-se no não-ser com o intuito de extrair dele o ser e no-lo dar como alimento, fez-se o instigador de nossas futuras usurpações. Deve existir Nele uma luz funesta que combina com nossas trevas. Reflexo no tempo dessa claridade maldita, a história manifesta e prolonga a dimensão não divina da divindade. (“L’arbre de vie”, in: La chute dans le temps)

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No concílio de 1211 contra os Bogomilos, foram anatematizados aqueles dentre eles que sustentavam que “a mulher concebe em seu ventre com a cooperação de Satã, que Satã ali permanece sem retirar-se até o nascimento da criança”.
Não me atrevo a supor que o demônio possa interessar-se por nós ao ponto de nos fazer companhia durante meses; mas não poderia duvidar de que tenhamos sido concebidos sob sua mirada, e de que ele tenha efetivamente assistido os nossos queridos progenitores. (Le mauvais demiurge)

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É difícil, é impossível crer que o deus bom, o “Pai”, tenha-se envolvido no escândalo da criação. Tudo faz pensar que não teve nela participação alguma, que essa é a obra de um deus sem escrúpulos, de um deus tarado. A bondade não cria: falta-lhe imaginação; mas é preciso possuí-la para fabricar um mundo, por mais avacalhado que seja. É, no limite, da mescla de bondade e maldade que pode surgir um ato ou uma obra. Ou um universo. Partindo do nosso, é em todo caso muito mais fácil remontar a um deus suspeitoso que a um deus honrável.
O deus bom, decididamente, não foi dotado para criar: possui tudo, menos a onipotência. Grande por suas deficiências (anemia e bondade andam juntas), é o protótipo da ineficácia: não pode ajudar ninguém… Só nos agarramos a ele quando nos despojamos de nossa dimensão histórica; enquanto nos reintegramos a ela, nos é estranho, nos é incompreensível: não tem nada do que nos fascina, não tem nada de monstro. E é então quanto nos voltamos ao criador, deus inferior e atarefado, instigador dos acontecimentos. Para compreender como pôde ter criado, é preciso imaginá-lo presa do mal, que é inovação, e do bem, que é inércia. Esta luta foi, sem dúvida, nefasta para o mal, pois deveu sofrer a contaminação do bem: o que explica por que a criação não pode ser inteiramente má. (Le Mauvais Demiurge)

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Uns predestinados a crer no deus supremo mas impotente, outros no demiurgo, outros, enfim, no demônio, não escolhemos nem nossas venerações nem nossas blasfêmias.
O demônio é o representante, o delegado do demiurgo cujos assuntos gerencia aqui embaixo. Apesar de seu prestígio e do terror associado a seu nome, ele não passa de um administrador, de um anjo degradado a uma tarefa baixa: a história.
Outro é o alcance do demiurgo: como enfrentaríamos nossas provações, se ele estivesse ausente? Se estivéssemos a sua altura ou apenas fôssemos um pouco dignos delas, poderíamos abster-nos de invocá-lo. Diante de nossas insuficiências patentes, nos aferramos a ele, inclusive lhe imploramos que exista: se se revelasse uma ficção, qual não seria nossa infelicidade e nossa vergonha! Sobre quem mais nos descarregaríamos de nossas lacunas, de nossas misérias, de nós mesmos? Erigido por decreto nosso em autor de nossas carências, ele nos serve de desculpa para tudo o que não pudemos ser. Quando, ademais, lhe endossamos a responsabilidade por este universo falido, saboreamos certa paz: nenhuma incerteza mais sobre nossas origens nem sobre nossas perspectivas, mas a plena segurança no insolúvel, fora do pesadelo da promessa. Seu mérito é, na verdade, inapreciável: dispensa-nos inclusive de nossos remorsos, já que ele tomou para si até mesmo a iniciativa de nossos fracassos. (Le Mauvais Demiurge)

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O deus mau é o deus mais útil que já existiu. Se não o tivéssemos à mão, aonde  encaminharíamos nossa bílis? Toda forma de ódio se volta, em última instância, contra ele. Como todos nós cremos que nossos méritos são irreconhecidos ou zombados, como admitir que uma iniquidade tão geral seja obra de um só homem? Deve remontar a mais acima e confundir-se com alguma maracutaia antiga, com o ato mesmo da criação. Sabemos, pois, a quem nos agarrar, quem vilipendiar: nada nos lisonjeia e nos sustenta tanto como poder localizar a fonte de nossa indignidade o mais longe possível de nós mesmos. (Le Mauvais Demiurge)

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Basilides, o gnóstico, é um dos raros espíritos a haver compreendido, no início de nossa era, o que agora é um lugar-comum, a saber, que a humanidade, se quiser salvar-se, deve voltar aos seus limites naturais pelo retorno à ignorância, verdadeiro sinal de
redenção.
Este lugar-comum, apressemos-nos a dizê-lo, permanece ainda na clandestinidade: cada um o murmura mas todos se abstêm de proclamá-lo. Quando vier a tornar-se um slogan, então terá sido dado um importante passo adiante. (Le Mauvais Demiurge)

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Trácios e Bogomilos: não posso esquecer que frequentei as mesmas paragens que eles, nem que uns choravam pelos recém-nascidos e que os outros, para absolver Deus, responsabilizavam Satanás pela infâmia da Criação. (De l’inconvenient d’être né)

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Em um livro gnóstico do século II de nossa era está dito: “A oração do homem triste nunca tem  força para subir até Deus.”
…Como só se reza nos momentos de abatimento, deduz-se que nenhuma oração nunca chegou a seu destino. (De l’inconvenient d’être né)

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No “Evangelho segundo os Egípcios”, Jesús proclama: “Os homens serão vítimas da morte enquanto forem engendrados pelas mulheres.” E precisa: “Vim para destruir as obras da mulher.”
Conhecendo as verdades extremas dos gnósticos, seria desejável ir ainda mais longe, dizer algo que nunca fora dito e que petrifique ou pulverize a história, algo que faça pensar em um neronismo cósmico, em uma demência na escala da matéria. (De l’inconvenient d’être né)

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Segundo uma lenda de inspiração gnóstica, houve no céu uma luta entre os anjos, em que os partidários de Miguel venceram aqueles do Demônio. Os anjos indecisos que se limitaram a observar foram relegados à Terra, para que nela cumprissem a eleição sobre a qual não se haviam decidido lá em cima, eleição tão mais penosa quanto não tinham recordação nenhuma do combate, e menos ainda de sua atitude equívoca. Assim, a causa da história seria uma hesitação, e o homem, o resultado de um vacilo original, da incapacidade de tomar partido em que se encontrava antes do desterro. Lançado ao mundo para aprender a escolher, será condenado à ação, à aventura, na qual só poderá brilhar se sufocar em si mesmo o espectador. Se o céu permite, até certo ponto, a neutralidade, a história, por sua vez, aparece como o castigo de quem, antes de encarnar, não encontrou nenhuma razão para aderir a um lado em vez do outro. Compreende-se, pois, que os humanos tenham tanta pressa em abraçar uma causa, em aglutinar-se ao redor de uma verdade. Mas, ao redor de que tipo de verdade? (Écartèlement)

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Segundo o autor gnóstico do Apocalipse de João, chamar de infinito o Altíssimo é pouco, pois Ele é “muito mais que isso”.
Gostaria de conhecer o nome do autor que viu com tanta perspicácia em que consiste a extravagante singularidade de Deus. (Écartèlement)

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Ainda sobre o Cristo. Segundo um relato gnóstico, ele ascendeu aos céus por ódio do fatum, para impedir, alterando a disposição das esferas, que se pudesse ler nos astros.
Em semelhante confusão, o que poderia ter acontecido  com minha pobre estrela? (Aveux et anathèmes)

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“Este mundo não foi criado segundo o desejo da Vida”, diz o Ginza, texto gnóstico de uma seita da Mesopotâmia.
A lembrar sempre que não se disponha de um argumento  melhor para neutralizar um desencanto. (Aveux et anathèmes)

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“Deus não criou nada que odeie mais do que este mundo, e tanto o odeia que, desde o dia de sua criação, nunca mais voltou a olhá-lo.”
Não sei quem foi o místico muçulmano que escreveu isso, ignorarei para sempre o nome desse amigo. (Aveux et anathèmes)

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No Evangelho de Tomé, Jesus, ao ser perguntado onde a salvação pode ser encontrada, responde: “Em qualquer lugar onde não haja mulheres”. Resposta gnóstica entre todas. (Cahiers de Talamanca)

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Creio, como o gnóstico Basilides, que a humanidade deve voltar a
seus limites naturais,  retornando a uma ignorância universal, autêntico sinal de redenção. (Cahiers de Talamanca)

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Necessito do demiurgo como hipótese de trabalho indispensável. Prescindir dele equivale a não entender nada do mundo visível. (CIORAN, Cahiers)

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Em um livro gnóstico, o Evangelho de Tomé, caí, ontem à noite, antes de me deitar,  sobre estas palavras: “Jesus diz: ‘Infeliz desta carne que depende da alma e infeliz desta alma que depende da carne!'”
Impressão extraordinária, de fazer perder o sono. (CIORAN, Cahiers)

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Nada pode me tirar do espírito que este mundo é o fruto de um deus tenebroso, de um demiurgo maldito. Laços secretos nos unem a esse deus, eu pertenço a sua descendência, prolongo sua sombra e inclusive estou inclinado a pensar que cabe a mim esgotar as consequências da maldição suspendida sobre ele e sobre sua obra. (CIORAN, Cahiers)

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