Heresia

Quando a solidão se acentua a ponto de constituir não tanto nosso dado como nossa única fé, cessamos de ser solidários com o todo: heréticos da existência, somos excluídos da comunidade dos viventes, cuja única virtude é esperar, ofegantes, algo que não seja a morte. Mas, libertos da fascinação desta espera, expulsos do ecumenismo da ilusão, somos a seita mais herética, pois nossa própria alma nasceu na heresia. (Breviário de Decomposição)

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Contemplem as polêmicas de cada século; não parecem motivadas nem necessárias. No entanto, foram a vida desse século. Calvinismo, quietismo, Port-Royal, a enciclopédia, Revolução, positivismo, etc…, que sequência de absurdos… que precisaram existir, que desgaste inútil, e contudo fatal! Desde os concílios ecumênicos até as controvérsias políticas contemporâneas, as ortodoxias e as heresias assaltaram a curiosidade do homem com seu irresistível sem-sentido. Sob disfarces diversos, sempre haverá anti e pró, seja a propósito do Céu ou do Bordel. Milhares de homens sofreram por sutilezas relativas à Virgem e a seu Filho. Outros mil atormentaram-se por dogmas menos gratuitos, mas igualmente improváveis. Todas as verdades constituem seitas que acabam por ter um destino tipo Port-Royal, sendo perseguidas e destruídas; depois, suas ruínas chegam a ser veneradas, e aureoladas pela iniquidade sofrida, transformam-se em lugares de peregrinação… (Breviário de Decomposição)

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A possibilidade de renovar-se através da heresia confere ao crente uma nítida superioridade sobre o ateu. (Silogismos da Amargura)

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Para recuperar a sua autoridade sobre os indivíduos, o catolicismo necessita de um papa enfurecido, corroído por contradições, distribuidor de histeria, dominado por uma raiva de herege, um bárbaro a quem não perturbariam dois mil anos de teologia.
Em Roma e no resto da cristandade já se esgotaram completamente as reservas de demência? Desde o final do século XVI, a igreja, humanizada, só produz cismas de segunda categoria, santos vulgares, excomunhões irrisórias. E se um louco não conseguisse salva-la, ao menos poderia precipita-la em outro abismo. (Silogismos da Amargura)

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A liberdade é o bem supremo só para aqueles a quem anima a vontade de ser heréticos. (Silogismos da Amargura)

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Só é contemporâneo o profissional da heresia, o expulso por vocação, ao mesmo tempo vomitado e pânico das ortodoxias. Outrora se era definido pelos valores que se subscrevia; hoje, pelos que se repudia. Sem os faustos da negação, o homem é um pobre e lamentável «criador» incapaz de cumprir seu destino de capitalista da pirueta, de aficionado da falência. A sabedoria? Nenhuma época esteve mais livre dela, ou seja, nunca o homem foi mais ele mesmo: um ser rebelde à sabedoria. Traidor da zoologia, animal descarrilado, se insurge contra a Natureza como o herege contra a tradição. Este é, pois, homem em segundo grau. Toda inovação é coisa sua. Sua paixão: encontrar-se na origem, no ponto de partida de qualquer coisa. Inclusive se é humilde, aspira a fazer os outros sentirem os efeitos de sua humildade e crê que um sistema religioso, filosófico ou político vale a pena ser quebrado ou renovado: situar-se no centro de uma ruptura é sua máxima aspiração. Odiando o equilíbrio e o embotamento das instituições, as empurra para precipitar seu fim. (La tentation d’éxister)

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Já na Idade Média, certos espíritos, cansados de reiterar os mesmos temas, as mesmas expressões, deviam, para renovar sua piedade e emancipá-la da terminologia oficial, recorrer ao paradoxo, à fórmula sedutora, ora brutal, ora matizada. Assim, por exemplo, o mestre Eckhart. Por rigoroso e preocupado com a coerência que fosse, era demasiado escritor para não parecer suspeito à Teologia: seu estilo, mais que suas ideias, lhe valeu a honra de ser acusado de heresia. Quando se examina, em seus tratados e sermões, as proposições incriminadas, ficamos surpresos com a preocupação com o bem-dizer que eles revelam; revelam o lado genial da sua fé. Como todo herético, pecou pela forma. Inimiga da linguagem, a ortodoxia, religiosa ou política, postula a expressão prevista. Se quase todos os místicos tiveram problemas com a Igreja, é porque tinham demasiado talento; a Igreja não exige nenhum, só reclama a obediência, a submissão ao seu estilo. Em nome de um verbo esclerosado, erige suas fogueiras. Para escapar a elas, o herético só tinha como recurso mudar de fórmulas, expressar suas opiniões em outros termos, em termos consagrados. A Inquisição não teria talvez jamais existido se o catolicismo tivesse tido mais indulgência e compreensão pela vida da linguagem, pelos seus desvios, sua variedade e invenção. Quando se barra o paradoxo, só se evita o martírio pelo silêncio ou a banalidade.
Outras razões concorrem para fazer do místico um herege. Se lhe repugna que uma autoridade externa regulamente suas relações com Deus, também não admite uma ingerência vinda mais do alto: tolera apenas a Jesus. Nada acomodatício, deve, não obstante, prestar-se a certos compromissos, murmurar as orações recomendadas, prescritas, na falta de poder improvisar sempre novas. Perdoemos-lhe esta debilidade. Talvez só ceda a ela para demonstrar que é capaz de rebaixar-se ao nível do vulgar e empregar sua linguagem, talvez para provar-nos que não ignora a tentação da humildade. Mas sabemos que não cai nela frequentemente, que gosta de inovar rezando, que inventa de joelhos e que esta é a sua maneira de romper com o deus comum.
Reanima e reabilita a fé, a ameaça e a solapa como um inimigo íntimo, providencial. Sem ele, murcharia. Agora se adivinha a razão pela qual o cristianismo está morrendo e a Igreja, privada de apologistas e detratores, já não tem a quem exaltar nem a perseguir. Escassa de hereges, renunciaria docemente a exigir obediência se, em contrapartida, vislumbrasse entre os seus um exaltado que, dignando-se a atacá-la, levasse-a a sério, e lhe desse alguma esperança, algum motivo de alarme. Abrigar tantos ídolos e não avistar no horizonte nenhum iconoclasta! Os crentes já não rivalizam entre si, e tampouco, por outro lado, os incrédulos: ninguém quer chegar primeiro na carreira pela salvação ou pela condenação…
Acontecimento considerável: os dois maiores poetas modernos, Shakespeare e Hölderlin, abandonaram o cristianismo. Se tivessem sofrido sua sedução, teriam criado uma mitologia própria e a Igreja teria tido a felicidade de contar com dois hereges a mais em suas fileiras. Sem ousar meter-se com a Cruz, e tampouco alçá-la a sua altura, um foi mais além dos deuses e o outro ressuscitou os da Grécia. O primeiro se elevou por cima da oração, o segundo invocava um céu que sabia impotente, que preferia defunto: um é precursor de nossa indiferença, o outro, de nossas nostalgias. (La tentation d’éxister)

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Se o “progresso” é um mal tão grande, como é possível que não façamos nada para desembaraçar-nos dele? Desejamo-lo realmente? Em nossa perversidade, é o máximo que perseguimos e desejamos: busca nefasta, contrária em todo ponto a nossa felicidade. Não avançamos nem nos “aperfeiçoamos” impunemente. Sabemos que o movimento é uma heresia, e por isso mesmo nos atrai e nos lançamos a ele, irremediavelmente depravados, preferindo-o à ortodoxia da quietude. (La chute dans le temps)

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Se uma heresia cristã, não importa qual, tivesse triunfado, não se teria perdido em matizes. Mais temerária que a Igreja, teria sido também mais intolerante, pois mais convencida. Não há dúvida: vitoriosos, os Cátaros teriam superado os Inquisidores. (Le mauvais démiurge)

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Leio algunas páginas sobre Joviciano, São Basílio e outros. O conflito entre a ortodoxia e a heresia nos primeiros séculos não parece muito mais insensato que aquele ao que nos acostumaram os ideólogos modernos. As modalidades da controversia, as paixões em jogo, as loucuras e os ridículos são quase idénticos. Nos dois casos, tudo gira ao redor do irreal e do improvável que formam as bases dos dogmas tanto religiosos quanto políticos. A história só seria tolerável a uns e outros. Certo está que, então, cessaria para o bem maior de todos, tanto dos que a padecem como dos que a fazem. (De l’inconvenient d’être né)

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