Kafka

Uma frase do Talmud que Kafka amava: “Nós, judeus, somos como as  olivas; damos o melhor de nós mesmos quando somos pisados.” (Cahiers)

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Kafka a Milena : “Sem você, não tenho ninguém, ninguém aqui, além do medo: chafurdado nele, que chafurda em mim, nós desceríamos as noites agarrados um ao outro.” (Cahiers)

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Leio as entrevistas de Gustav Ianouch com Kafka, cujas considerações me lembram aquelas de Elisabeth da Áustria ao estudante grego Christomanos. Trata-se, com efeito, do tom, não do conteúdo, dessas considerações(Cahiers)

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Reli algumas passagens de A metamorfose de Kafka. Não se pode ir mais longe na maldição pelo desgosto. (Cahiers)

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Meu interesse profundo pelos judeus e por tudo o que é judeu. Todos, casos. Simone Weil, Kafka. Figuras de outro mundo. Apenas eles têm mistérios. Os não-judeus são demasiado evidentes. (Cahiers)

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2 de janeiro de 1969
“Minha vida é a hesitação diante do nascimento.” (Kafka)
… É o que sempre senti. (Cahiers)

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Kafka: judeu e enfermo, logo, duplamente judeu ou duplamente enfermo. (Cahiers)

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Acabo de folhear a biografia de Kafka (juventude). As imagens de Praga e os costumes que aí são evocados me fazem lembrar de Hermannstadt.
Eu vivi do outro lado do Império Austro-Húngaro. (Cahiers)

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“A vida é um perpétuo  desvio que não nos permite nem mesmo tomar consciência do sentido de que ela se distancia.” (Kafka) (Cahiers)

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Destesto meus compatriotas, quase tanto quanto Simone Weil detestava seus correligionários. Evidentemente, não pelos mesmos motivos. Pois meus compatriotas, é preciso dizê-lo, não representam nada, não são nada. Não se pode acusá-los pelos valores que defendem, pois não defendem nenhum.
Eu dizia ontem a Sanda S. que eles conseguiram a façanha de tornar superficiais os judeus entre nós, de arrancar-lhes esse mistério que pertence a sua “raça”, de lhes privar de sua dimensão religiosa. Também, nenhum dos nossos judeus, não obstante seu nível intelectual muito acima daquele dos nativos, nada produziram de muito importante. Foram contaminados pela futilidade circundante. Um Kafka entre nós não teria sido possível. O meio-ambiente tê-lo-ia tornado fútil, “jornalista”, diletante, vulgarmente cético. Eis precisamente o traço dominante de nossa tribo: o ceticismo vulgar. Medíocres totalmente desenganados, nulidades, pobres tipos que de tudo se retratam. Isso já era visto, mas talvez não em tão grande escala. É o nada [néant] coletivo.
(Se eu ataco meu país com tanta virulência, é porque gostaria de me desprender dele, deixar de sofrer por sua causa; perdi um tempo enorme debruçando-me sobre suas misérias, e a que isso me serviu, senão para me mergulhar em tormentos sem saída e sem fim? O melhor é detestá-lo; uma vez aplacado o furor, o desprendimento virá por conta própria. Como eu gostaria de arrancar-me de minhas origens, e esquecê-las!) (Cahiers)

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Li algumas cartas perturbadoras de Kafka a Felice Bauer.
“O verdadeiro objeto de meu medo – não se pode nem dizer nem esperar nada de pior – é que não poderei jamais te possuir.” (1º de abril de 1913)
Semelhantes confissões, escritas por uma única pessoa, que profanação levá-las ao conhecimento de todos! No momento em que Kafka confiou a uma moça que mal conhecia, já que não a havia encontrado mais do que duas ou três vezes, um segredo tão penoso e tão espantoso, qual teria sido sua reação se houvesse previsto que cinquenta anos depois seu drama íntimo seria exposto nos jornais? (Cahiers)

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Que mania, nas atuais biografias, de falar sobre a vida sexual das pessoas! Li um livro sobre Pavese em que, no primeiro capítulo, insiste-se sobre os inconvenientes da ejaculação rápida, mal de que sofria Pavese. — No Le Monde, artigo de M. R. sobre a impotência de Kafka. A psicanálise poluiu tudo. Em todo caso, terá destruído o gênero que se denominava “biografia interior”. (Cahiers)

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“A eterna calamidade da fadiga.” (Kafka)
Minha fadiga remonta a milhares de anos. (Cahiers)

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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