Lágrimas

Nada mais deveria interessar-me; até o problema da morte deveria parecer-me ridículo; o sofrimento? Estéril e limitado; o entusiasmo? Impuro; a vida? Racional; a dialética da vida? Lógica e não demoníaca; o desespero? Menor e parcial; a eternidade? Uma palavra vazia; a experiência do nada? Uma ilusão; a fatalidade? Um engano… Se pensarmos seriamente, para que serve tudo isso em realidade? Para que interrogar-se, para que tentar esclarecer ou aceitar sombras? Não valeria mais que eu enterrasse minhas lágrimas na areia à beira do mar, numa solidão absoluta? O problema é que nunca chorei, pois minhas lágrimas se transformaram em pensamentos tão amargos quanto elas. (Pe Culmile Disperări)

§

Afirmo aqui, para todos aqueles que me sucederão um dia, que não há nada neste planeta em que eu possa crer e que a única salvaçao possível é o esquecimento. Gostaria de poder esquecer tudo, esquecer a mim mesmo e ao mundo inteiro. As verdadeiras confissões são escritas com lágrimas unicamente. Mas minhas lágrimas bastariam para inundar este mundo, como o meu fogo interior para incendiá-lo. Não preciso de nenhum apoio, nenhuma exortação nem compaixão, pois, por mais baixo que tenha caído, sinto-me poderoso, duro, feroz… sou, com efeito, o único ser humano sem esperança. Esse é o cúmulo do heroísmo, seu paroxismo e seu paradoxo. A loucura suprema! (Pe Culmile Disperări)

§

Assim são os seres humanos: para que creiam em nós, devemos renunciar a tudo o que possuímos, logo a nós mesmos. Exigem nossa morte como garantia da autenticidade de nossa fé. Por que admiram as obras escritas com sangue? Porque lhes permite evitar o sofrimento, ou acreditar nele. Desejam encontrar sangue e lágrimas por detrás de nossas palavras. Na admiração da multidão há uma grande dose de sadismo. (Pe Culmile Disperări)

§

Sou feliz e infeliz de uma só vez, padeço simultaneamente exaltações e depressões, sou invadido pelo desespero e pela voluptuosidade no seio da harmonia mais desconcertante. Estou tão alegre e tão triste de uma só vez que em minhas lágrimas aparecem ao mesmo tempo reflexos do céu e do inferno. Pela alegria da minha tristeza, gostaria que esta Terra não voltasse a conhecer a morte. (Pe Culmile Disperări)

§

«Não posso diferenciar as lágrimas da música» (Nietzsche). Quem não compreende isso instantaneamente, nunca viveu na intimidade da música. Toda musica verdadeira procede do choro, já que nasceu da nostalgia do paraíso. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

O cristianismo inteiro não passa de uma crise de lágrimas, da que só nos resta um gosto amargo. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

As lágrimas são o critério da verdade no mundo dos sentimientos. As lágrimas e não os prantos. Existe uma disposição para as lágrimas que se expressa mediante uma avalanche interior. Há iniciados em matéroa de lágrimas que nunca choraram realmente. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

A perfeição sem falhas de um São Francisco de Assis faz dele um estranho para mim. Não encontro nele nenhum ponto fraco que me permita aproximar-me dele e compreendê-lo. Sua perfeição é dificilmente perdoável. Creio no entanto ter-lhe encontrado uma desculpa. Quando ao final de sua vida ficou quase cego, os médicos atribuíram seu mal a uma única causa: o excesso de lágrimas. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

A religião é um sorriso que plana sobre um sem-sentido geral, como um perfume final sobre uma onda de nada. Daí que, já sem argumentos, a religião se volte às lágrimas. Só restam elas para assegurar, ainda que escassamente, o equilíbrio do universo e a existência de Deus. Uma vez esgotadas as lágrimas, o desejo de Deus desaparecerá também. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

Penso em uma hermenêutica das lágrimas que tentaria descobrir sua origem, assim como todas suas interpretações possíveis. Para quê? Para compreender os cumes da história e dispensar-nos dos «acontecimentos», pois saberíamos em que momentos e em que medida o homem consegui elevar-se por cima de si mesmo. As lágrimas dão um caráter de eternidade ao devir; elas salvam-no. Que seria, por exemplo, da guerra sem elas? As lágrimas transfiguram o crime e justificam tudo. Analisá-las e compreendê-las é encontrar o segredo do devir universal. O sentido de semelhante estudo seria guiar-nos no espaço que une o êxtase à maldição. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

Haver amado sempre as lágrimas, a inocência e o niilismo. Os seres que sabem tudo e os seres que não sabem nada. Os fracassos e as crianças. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

Frequentemente me ponho a sonhar com esses ermitões da Tebaida que cavavam uma tumba para derramar nela suas lágrimas dia e noite. Quando perguntavam qual era a razão de sua aflição, respondiam que choravam por sua alma.
Na vagueza do deserto, a tumba é um oásis, um lugar concreto e um apoio. Cava-se a tumba para se ter um ponto fixo no espaço. E morre-se para não extraviar-se. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

O Paraíso geme no fundo da consciência, enquanto a memória chora. E é assim que se pensa no sentido metafísico das lágrimas e na vida como o desenvolvimento de uma saudade. (Lacrimi şi Sfinţi)

§

Oxalá pudesse tornar-me uma fonte de lágrimas nas mãos de Deus. Chorar nele e ele choraria em mim! (Amurgul Gândurilor)

§

A duplicidade essencial de toda tristeza: com uma mão gostaria de segurar um lírio e com a outra acariciar um carrasco. Terão a poesia e o crime a mesma fonte?
Na tristeza, tudo tem duas caras. Não podes estar nem no céu nem no inferno, nem na vida nem na morte, nem se pode ser feliz nem infeliz. Um pranto sem lágrimas, um equívoco sem fim. Por acaso a tristeza não te expulsa igualmente deste mundo como do outro?
Tua tristeza é desde sempre, não de agora. E esse «sempre» abarca todo o mundo que precedeu o seu nascimento. Não é a tristeza o recordo do tempo em que não existíamos? (Amurgul Gândurilor)

§

Quando já não estiver de acordo com o mundo, nem de pensamento, nem de coração, comece a correr e não pare, para que o ritmo dos passos te rodeie e esqueça que a naturaleza é feita de lágrimas. Do contrário, voltará a ser jardineiro do suicídio.
A loucura é um derrubamento do eu dentro do eu, uma exasperação da identidade. Quando se perde a razão, nada mais pode impedir-nos de ser ilimitados em nós mesmos. (Amurgul Gândurilor)

§

Alguém algum dia decifrará o drama de ter que traduzir dialeticamente as lágrimas em vez de deixá-las correr em verso?
E alguém alguma vez conhecerá os obstáculos que é preciso impor aos desejos para que surja o pensamento, e o quanto é preciso conter-se para que brote a razão? E que outono da juventude é o espírito! (Amurgul Gândurilor)

§

Oxalá pudesse depurar as lágrimas, oxalá pudesse prensar o pranto, para com suas fezes envenear minhas crenças sob um céu fugitivo!
Nada expressa tão penosamente as decepções de uma alma religiosa como o desejo nostálgico do veneno. Que flores venenosas, que cruéis dormideiras nos curarão da praga de pavorosa luz? E que tempestade de arrependimento nos descarregará de nossa alma nos limites do ser? (Amurgul Gândurilor)

§

O infinito deve ser a cor de cada instante. E como em vida só posso honrá-lo por meio das crises, eleva-me, Morte, ao seu ininterrupto prestígio e reveste-me da insônia do ilimitado! Terei suficientes lágrimas para chorar por tudo o que em mim não morreu? (Amurgul Gândurilor)

§

Todas as lágrimas não derramadas verteram-se no meu sangue. E eu não nasci para tantos mares nem para tantas amarguras. (Amurgul Gândurilor)

§

O único sentido da terra é absorver as lágrimas dos mortos. (Amurgul Gândurilor)

§

A primeira lágrima de Adão pôs a História em movimento. Aquela gota salgada, transparente e infinitamente concreta é o primeiro momento histórico; e o vazio deixado no coração de nosso sinistro antepassado, o primeiro ideal.
Pouco a pouco o homem, ao perder o dom de chorar, foi substituindo as lágrimas por ideias. A própria não é senão a imposibilidad de llorar. (Amurgul Gândurilor)

§

O desejo de desaparecer, porque as cosas desaparecem, envenenou tão atrozmente minha sede de ser que, em meio aos resplendores do tempo, o alento se apagava e o ocaso da natureza me envolvia com uma multidão de sombras. E como via o tempo em todas as coisas, esperava salvá-las todas do tempo.
A necessidade de converter os seres em eternos por meio da adoração, a prontidão em elevá-los, por excesso de coração, acima de sua destruição natural, me parecia a única tarefa apreciável. Não sei de nada que eu tenha amado sem odiá-lo ao mesmo tempo por nao poder subtraí-lo, mediante o baile de chamadas de minha alma, à lei de sua aniquilação. Quis que tudo fosse. E tudo era unicamente na fugacidade de minhas febres. O mundo se me escapava porque o mundo já no era. As lágrimas não derramadas não coalhavam no invisível pelas misérias daqui; morriam em mim, tristes, pela ineficácia do êxtase. Por que não se encadeiam no tempo “pedaços de paraíso”? Será que em mim não mora bastante eternidade? (ÃŽndreptar pătimaÅŸ)

§

Raia o sol para aquecer-nos? A noite nos cobre para que nos cubramos de sonho? O mar está aí para que o conquistemos? Desde que a utilidade apareceu no mundo, este já não é. Já não é por encantamento. Unicamente a adoração respeita as coisas en si mesmas e a vida não é tal sem as lágrimas de felicidade pelos sofrimentos que ela origina. Subi com com muito custo sobre seus prados mentirosos enquanto meu coração se despedaçaba aos acordes de um canto fúnebre. Como poderia tragar-me esta terra que reguei com minhas lágrimas quando a abraçava, e com meu sangue quando a desprezava? Terei que apodrecer em seu seio, no seio da terra cuja única coisa eterna é a tumba? Não haverá nenhum sismo capaz de trasladar os cemitérios a uma terra mais pura? (Îndreptar pătimaş)

§

À margen dos instantes – É a impossibilidade de chorar que conserva em nós o gosto pelas coisas e as faz existir ainda: impede que esgotemos seu sabor e nos afastemos delas. Quando, por tantas estradas e margens, nossos olhos se recusam a afogar-se em si próprios, preservam com sua secura o objeto que os maravilhava. Nossas lágrimas dissipam a natureza, como nossos transes a Deus. Mas, no fim, nos dissipam a nós mesmos. Pois só somos pela renúncia a dar livre curso a nossos desejos supremos: as coisas que entram na esfera de nossa admiração ou de nossa tristeza só permanecem nela porque não as sacrificamos ou abençoamos com nossos adeuses líquidos.
… Deste modo, depois de cada noite, encontrando-nos ante um novo dia, a irrealizável necessidade de preenchê-lo nos enche de pavor; e, exilados na Luz, como se o mundo acabasse de se mover, inventar seu Astro, fugimos das lágrimas, uma das quais bastaria para afastar-nos do tempo. (Breviário de Decomposição)

§

Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade, e imitar as crianças e as mulheres tomadas pelo furor… Na matéria de que somos moldados, em sua mais profunda impureza, encontra-se um princípio de amargura, que só as lágrimas suavizam. Se cada vez que os desgostos nos assaltam, tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, o um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos. Aliás, os gritos, as tempestades de pragas, a automaceração e as unhas cravadas na carne, com as consolações de um espetáculo de sangue, não figuram mais entre nossos procedimentos terapêuticos. Daí se segue que estamos todos enfermos e que necessitaríamos de um Saara cada um para berrar à vontade, ou as margens de um mar elegíaco e fogoso para mesclar a seus lamentos desenfreados nossos lamentos mais desenfreados ainda. (Breviário de Decomposição)

§

A sombra futura – Podemos imaginar um tempo em que teremos superado tudo, inclusive a música, inclusive a poesia, no qual, detratores de nossas tradições e de nossos ardores, alcançaremos tal retratação de nós mesmos que, cansados de um túmulo mais que sabido, passaremos os dias numa mortalha surrada. Quando um soneto, cujo rigor eleva o mundo verbal acima de um cosmo soberbamente imaginado, quando um soneto cesse de ser para nós uma tentação de lágrimas, e quando no meio de uma sonata nossos bocejos triunfem sobre nossa emoção, então já não nos quererão nem nos cemitérios, que só acolhem cadáveres recentes, impregnados ainda de um pouco de calor e de uma lembrança de vida. (Breviário de Decomposição)

§

A verdadeira grandeza dos santos consiste nesse poder – insuperável entre todos – de vencer o Medo do Ridículo. Nós não poderíamos chorar sem sentir vergonha; eles invocam “o dom das lágrimas”. Uma preocupação de honorabilidade em nossas “securas” imobiliza-nos como espectadores de nosso infinito amargo e comprimido, de nossas expansões que não acontecem. No entanto, a função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente, é preciso fechá-los; é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.
Para o que pressentiu os desastres inúteis do mundo, e a quem o saber só trouxe a confirmação de um desencanto inato, os escrúpulos que o impedem de chorar acentuam sua predisposição à tristeza. E se está de certo modo invejoso das façanhas dos santos, não é tanto por seu nojo das aparências ou seu apetite transcendente, mas antes por sua vitória sobre esse medo do ridículo, ao qual não pode subtrair-se e que o conserva aquém da inconveniência sobrenatural das lágrimas. (Breviário de Decomposição)

§

Uma visão de mundo articulada em conceitos não é mais legítima que outra surgida das lágrimas: argumentos e suspiros são modalidades igualmente convincentes e igualmente nulas. (Breviário de Decomposição)

§

Na época em que, por inexperiência, se toma gosto pela filosofia, decidi, como todo mundo, fazer uma tese. Que tema escolher? Queria um ao mesmo tempo batido e insólito. Quando pensei havê-lo encontrado, corri para comunica-lo a meu orientador:
— O que o senhor acha de uma Teoria Geral das Lágrimas?
— É possível — me disse —, mas vai ser difícil encontrar bibliografia.
—Se é por isso, não há problema. A História inteira me respaldará com sua autoridade — respondi-lhe com um tom de impertinência e de triunfo. Mas como, impaciente, me olhava com desdém, decidi imediatamente matar o discípulo que havia em mim. (Silogismos da Amargura)

§

A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos, mas as lágrimas. (Silogismos da Amargura)

§

Vontade de chorar no meio da rua! Tenho o demônio das lágrimas. (Cahiers)

§

Eu deveria escrever um Tratado das Lágrimas. Sempre senti uma imensa necessidade de chorar (no que me sinto próximo dos personagens de Tchekhov). Lamentar tudo olhando fixamente o céu durante horas…, é ao que emprego o meu tempo, ainda que esperem de mim trabalhos e que exortem de todos os lados à atividade. (Cahiers)

§

Quantas horas não passei a imaginar as lágrimas que jamais derramei, que jamais pude derramar!
Toda minha vida vivi com o sentimento de estar longe do meu verdadeiro lugar; se a palavra: exílio metafísico não tivesse nenhum sentido, minha existência lhe daria um. Não é possível ser menos desse mundo do que eu – eis porque tanto pensei sobre as lágrimas. Eu poderia ter escrito um livro inteiro sobre elas; na verdade, escrevi um em romeno. Sentir sua carne chorar, seu sangue transportando lágrimas, é do interior de semelhantes sensações que se compreende Plotino quando ele diz que a existência aqui embaixo é « a alma que perdeu suas asas ». (Cahiers)

Tradução: Rodrigo Menezes

Anúncios