Aforismos > Mal

 

As fontes do mal — Como combater a infelicidade? Só se combatermos a nós mesmos, ao percebermos que ela não provém de fora, mas do nosso próprio interior. Se percebêssemos a cada momento que tudo é em função de uma imagem refletida em nossa consciência, de amplificações internas e da acuidade da nossa sensibilidade, chegaríamos então à lucidez em que as realidades se situam em seus contornos justos. Não se trata de atingirmos a felicidade, mas um grau menor de infelicidade. O homem que se encontra mais próximo da felicidade do que da infelicidade precisa do concurso permanente dessa lucidez, que corrige os exageros ou as antecipações da sensibilidade, pois ele não se analisou até o ponto e que o espírito pudesse se cristalizar autônomo, independente da vida. No caso dos infelizes, uma correção posterior é sempre necessária para não se ensombrecer — não na desesperança, mas na imbecilidade.
É um sinal de grande resistência permanecer na desesperança, assim como é um sinal de profunda fraqueza chegar à imbecilidade devido a prolongadas infelicidades. Deve-se ter uma verdadeira educação, e um esforço interior persistente para atingir um grau mais reduzido de infelicidade. Toda educação e todo esforço para atingir a felicidade são de início estéreis. Não importa o que façamos, não podemos nos tornar felizes após termos enveredado pelo caminho da infelicidade. Pode-se passar da felicidade para a infelicidade; o caminho contrário é impossível. Isso significa que a felicidade pode reservar surpresas mais dolorosas que a infelicidade. Na felicidade, sentimos que este mundo deve ser assim como é; na infelicidade, que ele deve ser de qualquer outro jeito, mas não como é. Embora percebamos a origem subjetiva da infelicidade, fatalmente convertemos o deito pessoal em defeito de constituição metafísica.
A infelicidade jamais poderá se tornar suficientemente generosa a ponto de reconhecer de maneira absoluta suas próprias trevas para enxergar as eventuais luzes do mundo. Ao tomarmos a miséria subjetiva pela miséria objetiva do mundo, acreditamos aliviarmo-nos de um fardo, dispensando assim as repreensões que deveríamos fazer a nós mesmos. Na verdade, essa universalização acentua nossa infelicidade e, ao apresentá-la como fatalidade cósmica, impede qualquer possibilidade de diminui-la ou de torná-la mais suportável.
A disciplina da infelicidade reduz as inquietudes e as surpresas dolorosas, atenua o suplício e controla o sofrimento. Há um mascaramento aristocrático do drama íntimo, uma discrição da agonia nessa disciplina da infelicidade, que aparentemente aplica consciência aos momentos supremos, para que a tragédia seja ainda maior nas profundezas. (Nos cumes do desespero)

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Existe uma região de alternativas últimas que termina nas tentações simultâneas da santidade e do crime. Por que a humanidade produziu infinitamente mais criminosos do que santos? Se o homem buscasse tão insistentemente a felicidade como dizem, por que escolher então o caminho do desmoronamento e da queda com uma paixão tão violenta? O homem estima mais a felicidade e o bem, mas é mais atraído pelo mal e pela infelicidade. Três quartos da humanidade teriam podido chegar a ser santos se tivessem querido. Mas é impossível saber quem revelou aos homens que só existe vida no inferno… (O Livro das Ilusões)

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O mal absoluto: Um ser sedento de arruinar a natureza durante a primavera arrancaria pela raiz todas as árvores, devoraria seus brotos, envenenaria os mananciais para que morressem os seres vivos, taparia as fontes para ouvir a voz rouca dos pássaros e cobriria as flores para vê-las secar, curvando-se tristemente para o solo. Golpearia o ventre das mulheres grávidas para matar os começos de vida, o fruto, tudo o que é fruto, e congelaria o sorriso das virgens em uma careta. Para os amantes atiraria, em pleno orgasmo, um cadáver e poria óculos escuros nas crianças de peito antes que abrissem os olhos. Com uma chapa negra, que desejaria do tamanho do mundo, saltaria na direção do sol para deter seus raios, para rir em uma noite eterna sem estrelas, com um sol de luto, vestido de negro para sempre. E essa criatura passa ironicamente ao lado da humanidade, que espera em sua agonia o retorno dos raios solares, e sorri friamente ante as preces que ela eleva na direção do astro velado.
O mal é o ódio contra tudo o que é fruto. (O Livro das Ilusões)

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O mal nos revela a substância demoníaca do tempo; o bem, o potencial de eternidade do devir. O mal é abandono, o bem, cálculo inspirado. Ninguém saberia diferencia racionalmente um do outro, mas nós sentimos todo o calor doloroso do mal e o frio extático do bem.
O seu dialismo se transpõe no mundo dos valores sob um outro, mais profundo: inocência ou conhecimento. (Le Crépuscule des Pensées)

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O mal, abandonando a indiferença original, tomou como pseudônimo o Tempo. (Le Crépuscule des Pensées)

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Quando um ser não encontra o seu assento na existência, encontra-se na presença do Mal. Deste deriva todo fracasso — e o mal sendo imanente ao devir, todos os seres devem enfrentá-lo.
À medida que Deus não está assentado em si mesmo, no que ele derroga a sua condição, ele participa do mal. De resto, não é ele o Grande Fracassado?

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Anulação pela libertação — Uma doutrina da salvação só tem sentido se partirmos da equação existência-sofrimento. Não é nem uma constatação súbita, nem uma série de raciocínio o que nos conduz a esta equação, mas a elaboração inconsciente de todos os nossos instantes, a contribuição de todas as nossas experiências, ínfimas ou capitais. Quando carregamos em nós germes de decepções e como que uma sede de vê-los eclodir, o desejo de que o mundo anule a cada passo nossas esperanças multiplica as confirmações voluptuosas do mal. Os argumentos vêm em seguida; a doutrina se
constrói: só permanece ainda o perigo da “sabedoria”. Mas, se não queremos libertar-nos do sofrimento nem vencer as contradições e os conflitos, se preferimos as nuanças do inacabado e as dialéticas afetivas à unidade de um sublime beco sem saída? A salvação acaba com tudo; e acaba conosco. Quem, uma vez salvo, ousa considerar-se ainda vivo? Só se vive realmente pela recusa a libertar-se do sofrimento e por uma espécie de tentação religiosa de irreligiosidade. A salvação só preocupa os assassinos e os santos, os que mataram ou superaram a criatura; os outros chafurdam – bêbados perdidos – na imperfeição… (Breviário de decomposição)

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História universal: história do Mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações. Se você não contribuiu para uma catástrofe, desaparecerá sem deixar vestígio. Interessamos aos outros pela desgraça que semeamos à nossa volta. “Nunca fiz ninguém sofrer!” – exclamação para sempre estranha a uma criatura de carne e osso. Quando nos entusiasmamos por um personagem do presente ou do passado, fazemos inconscientemente a pergunta: “Para quantos seres foi causa de infortúnio?” Quem sabe se cada um de nós não aspira ao privilégio de matar todos os nossos semelhantes? Mas este privilégio é concedido a um pequeno grupo de pessoas e nunca por inteiro: só esta restrição explica por que a Terra ainda está povoada. Assassinos indiretos, constituímos uma massa inerte, uma multidão de objetos frente aos verdadeiros sujeitos do Tempo, frente aos grandes criminosos que tiveram êxito. (Breviário de decomposição)

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É fácil fazer o mal: todo mundo o consegue; assumi-lo explicitamente, reconhecer
sua inexorável realidade é, por outro lado, uma proeza insólita. Na prática, qualquer um pode rivalizar com o diabo; na teoria não ocorre o mesmo. Cometer horrores e conceber o horror são dois atos irredutíveis um ao outro: não há nada em comum entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato. Desconfiemos dos que aderem a uma filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em ídolo; não teriam chegado a isso se, debruçados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas; mas aqueles poucos que tiveram a indiscrição ou a infelicidade de mergulhar até as profundidades de seu ser, conhecem bem o que é o homem: não poderão mais amá-lo, pois não amam mais a si próprios, embora continuem – e esse é seu castigo – mais apegados a seu eu do que antes… (História e utopia)

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Estamos afogados no mal. Não é que todos os nossos atos sejam maus, mas quando cometemos alguns bons, sofremos por haver contrariado nossos movimentos espontâneos: a prática da virtude se reduz a um exercício de penitência, à aprendizagem da mortificação. Satã, anjo decaído transformado em demiurgo, encarregado da Criação, insurge-se contra Deus e revela-se, neste mundo, mais à vontade e até mais poderoso do que Ele; longe de ser um usurpador, é nosso mestre, soberano legítimo que sobrepujaria o Altíssimo se o universo estivesse reduzido ao homem. Tenhamos, pois, a coragem de reconhecer de quem dependemos. (História e utopia)

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Como o mal preside tudo o que é corruptível, ou seja, tudo o que é vivo, é uma tentativa ridícula querer demonstrar que ele encerra menos ser que o bem, ou mesmo que não possui nenhum. Quem o assimila ao nada imagina salvar assim o pobre deus bom. Só se pode salvá-lo se se tem a coragem de dissociar a sua causa da do demiurgo. Por ter se recusado a isso, o cristianismo deveria, ao longo de toda a sua carreira, esforçar-se para impor a inevidência de um criador misericordioso: empresa desesperada que esgotou o cristianismo e comprometeu o deus que ele queria preservar. (Le mauvais démiurge)

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O Zohar ensina-nos que todos os que praticam o mal na terra nem por sombras eram melhores no céu, de onde estavam impacientes por sair, e que, ao precipitarem-se na entrada do abismo, “anteciparam o tempo em que deveriam descer a este mundo”.
Percebe-se facilmente o que há de profundo nesta visão da pré-existência das almas e a utilidade que ela pode ter quando se trata de explicar a firmeza e o triunfo dos “malvados”, a sua solidez e competência. Tendo há muito preparado o seu golpe, não é de espantar que partilhem entre eles a terra: conquistaram-na antes de viverem nela…, desde sempre na verdade. (Do inconveniente de ter nascido)

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O problema do mal só perturba realmente alguns delicados, alguns céticos, revoltados pela maneira como o crente se conforma com ele ou o escamoteia. É para esses então que, em primeiro lugar, se dirigem as teodiceias, tentativas de humanizas Deus, acrobacias desesperadas que fracassam e se comprometem no seu próprio terreno, desmentidas a cada instante pela experiência. Embora procurem convencê-los de que a Providência é justa, não o conseguem. Eles a declaram suspeita, a incriminam e lhe pedem explicações em nome de uma evidência, a do mal, evidência que um Maistre tentará negar. “Tudo é mal”, ensinava. O mal, no entanto, apressa-se em acrescentar, restringe-se a uma força “puramente negativa” que não tem nada “em comum com a existência”, a um “cisma do ser”, a um acidente. Outros, ao contrário, pensarão que tão constitutivo do ser quanto o bem, e igualmente verdadeiro, ele é natureza, ingrediente essencial da existência e de modo algum fenômeno acessório, e que os problemas que suscita se tornam insolúveis se nos recusamos a inseri-lo, a situá-lo na composição da substância divina. Assim, como a doença não é uma ausência de saúde mas uma realidade tão positiva e tão durável quanto a saúde, da mesma forma o mal equivale ao bem, ultrapassa-o até em indestrutibilidade e plenitude. Um princípio bom e um princípio mau coexistem e se misturam em Deus, como coexistem e se misturam no mundo. A ideia da culpabilidade de Deus não é uma ideia gratuita, mas necessária e perfeitamente compatível com a de sua onipotência: só ela confere alguma inteligibilidade ao desenvolvimento histórico, a tudo o que ele contém de monstruoso, de insensato e de insignificante. Atribuir ao autor do devir a pureza e a bondade é desistir de compreender a maior parte dos acontecimentos  e principalmente o mais importante: a Criação. (Exercícios de admiração)