Melancolia

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Que faria eu sem a paisagem holandesa, sem Salomon e Jakob Ruysdael ou Aert van der Neer? Cada uma de suas telas desperta em nós sonhos associados a nuvens, a tons crepusculares e brisas marinhas, a vastidões movediças criadas para acompanhar o solitário. Quadros que são comentários sobre a melancolia.
As árvores, ilhadas ou apertadas umas contras as outras sob um céu demasiado grande; os animais que não pastam o  capim, mas o infinito; os homens que não vão a lugar nenhum, que esperam imóveis nos recolhimentos da sombra — todos participam de um mundo onde até a luz aumenta o mistério. O que Vermeer van Delft, o mestre da intimidade, dos silêncios confidenciais, nos revela em seus retratos e em seus interiores, o que nele torna palpável o silêncio sem o recurso a um chiaroscuro de grandes proporções, mediante pinceladas delicadas, Jakob Ruysdael, mais poeta que pintor, o projeta no espaço sem limites, num chiaroscuro monumental. Ouve-se o silêncio dos crepúsculos – é o encanto desolado da paisagem holandesa, ao que deve-se acrescentar certa vibração sem a qual faltaria à melancolia o toque poético. (Lacrimi È™i SfinÈ›i)

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A melancolia: halo vaporoso da Temporalidade. (Amurgul gândurilor)

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Quando não podes reunir teus pensamentos e submeter-te, derrotado, a seu açogue, o mundo ‑- e tu com ele ‑- se desvanece como o vapor, e dás a impressão de estar escutando a onda de um mar que retirou suas águas, a leitura das próprias memórias escritas em outra vida… Aonde corre tua mente, em que parte-alguma dissolve suas fronteiras? Fundem-se geleiras nas veias? E em que estação do sangue e do espírito te encontras?
Ainda és tu? As têmporas não te martelam de medo ao contrário? És outro, és outro
… Com os olhos perdidos no outro, na melancolia imaculada dos parques. (Amurgul gândurilor)

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A mulher que olha para algo oferece uma imagem de rara trivialidade. Os olhos melancólicos te convidam, pelo contrário, a uma destruição aérea, e tua sede do impalpável saciada pelo seu fúnebre e perfumado azul, impede que sigas sendo ti mesmo. Olhos que nada veem e diante dos quais desapareces, para não manchares o infinito con o objeto de tua presença. O  olhar puro da melancolia é o modo mais peregrino pelo qual a mulher nos faz crer que fora outrora nossa companheira no Paraíso. (Amurgul gândurilor)

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A melancolia é uma religiosidade que não precisa do Absoluto, um deslizamento para fora do mundo sem a atração do transcendente, uma inclinação às aparências do céu, porém, insensível ao símbolo que este representa. Sua possibilidade de prescindir de Deus (ainda que cumpra as condições iniciais para aproximar-se d’Ele) a transforma num prazer que satisfaz o seu próprio crescimento e as suas fraquezas repetidas. Porque a melancolia é um delírio estético, suficiente em si mesmo, estéril para a mitologia. Nela só encontrarás o acalanto de um sonho, pois não gera nenhuma imagem que não seja a sua etérea desintegração. (Amurgul gândurilor)

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A melancolia é uma virtude na mulher e um pecado no homem. Assim se explica porque este se valeu daquela para o conhecimento… (Amurgul gândurilor)

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A melancolia é o estado onírico do egoísmo. (Amurgul gândurilor)

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Um ser em vias de espiritualização completa já não é capaz de melancolia, porque não pode abandonar-se à mercê dos caprichos. Espirito significa resistência, enquanto que a melancolia, mais que qualquer outra coisa, pressupõe a não‑resistência à alma, ao elementar ardor dos sentidos, ao incontrolável dos afetos. Tudo o que em nós há de indômito e agitado, de irracional composto de sonho e de bestialidade, de deficiências orgânicas e aspirações ébrias, como de explosões musicais que ensombrecem a pureza dos anjos e nos fazem olhar desdenhosamente para uma açucena, constitui a zona primária da alma. Aí, a melancolia se sente em casa, na poesia dessas fraquezas.
Quanto mais crêes estar distante do mundo, mais a brisa da melancolia te mostra a ilusão de tua proximidade ao espírito. As forças vitais da alma te atraem para baixo, te obrigam a submergir-te na profundidade primária, a reconhecer tuas fontes, das quais te isola o vazio do espírito, sua impliacável serenidade.
A melancolia se distancia do mundo por obra da vida e não do espirito: a deserção dos tecidos do estado de imanência. Através do incessante apelo ao espírito, os homens lhe acrescentaram um matiz reflexivo que não encontramos nas mulheres, que, não resistindo nunca a sua alma, flutuam à mercê da maré da imediata melancolia. (Amurgul gândurilor)

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Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a cuspir e os lírios abririam um bordel. (Amurgul gândurilor)

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A melancolia: o tempo convertido em afetividade. (Amurgul gândurilor)

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Dualidade — Há uma vulgaridade que nos faz admitir qualquer coisa deste mundo, mas que não é poderosa para nos fazer admitir o mundo mesmo. Assim, podemos suportar os males da vida repudiando a Vida, deixar-nos arrastar pelas efusões do desejo rejeitando o Desejo. No assentimento à existência existe uma espécie de baixeza, à qual escapamos graças a nossos orgulhos e a nossos pesares, mas sobretudo graças à melancolia que nos preserva de um deslize para uma afirmação final, arrancada de nossa covardia. Há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo? E, no entanto, multiplicamos sem cessar esse consentimento, essa trivial repetição, esse juramento de fidelidade à vida, negado somente por tudo o que em  nós recusa a vulgaridade.
Podemos viver como os outros vivem e no entanto esconder um não maior que o mundo: é o infinito da melancolia…
(Só se pode amar os seres que não ultrapassam o mínimo de vulgaridade indispensável para viver. Contudo, seria difícil delimitar a quantidade desta vulgaridade, ainda mais por que nenhum ato poderia eximir-se dela. Todos os proscritos da vida provam que foram suficientemente sórdidos… Quem triunfa em um conflito com seu próximo surge de um muladar; e quem é vencido paga por uma pureza que não quis sujar. Em todo homem, nada é mais existente e verídico que sua própria vulgaridade, fonte de tudo o que é elementarmente vivo. Mas, por outro lado, quanto mais estabelecido se está na vida, mais desprezível se é. Quem não espalha à sua volta uma vaga irradiação fúnebre, e não deixa ao passar um rastro de melancolia vindo de mundos longínquos, esse pertence à subzoologia e, mais especificamente, à história humana.
A oposição entre a vulgaridade e a melancolia é tão irredutível que, comparada a ela, todas as outras parecem invenções do espírito, arbitrárias e ridículas; mesmo as mais categóricas antinomias embotam-se ante esta oposição em que se afrontam- seguindo uma dosagem predestinada – nossos bas-fonds e nosso fel pensativo.) (Breviário de decomposição)

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Sobre a melancolia — Quando não podes livrar-se de si mesmo, deleita-se devorando-se. Em vão se chamaria o Senhor das Sombras, o distribuidor de uma maldição precisa: se está doente sem doença e se é réprobo sem vícios. A melancolia é o estado sonhado do egoísmo: nenhum objeto fora de si mesmo, nenhum motivo mais de ódio ou de amor, a não ser essa mesma queda em um lodo lânguido, essa mesma agitação de condenado sem inferno, essas mesmas reiterações de um ardor de perecer… Enquanto que a tristeza contenta-se com uma moldura de fortuna, a melancolia necessita de uma orgia de espaço, de uma paisagem infinita para nela espalhar sua graça desagradável e vaporoso, seu mal sem contornos, que, por medo de curar-se, teme um limite à sua dissolução e às suas ondulações. Floresce — a flor mais estranha do amor-próprio — entre os venenos dos quais extrai sua seiva e o vigor de todos os seus desfalecimentos. Nutrindo-se do que a corrompe, esconde, seu seu nome melodioso, o Orgulho da Derrota e a Compaixão de si mesmo… (Breviário de decomposição)

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O tédio é uma angústia larvar; a melancolia, um ódio sonhador. (Silogismos da amargura)

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Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar. (Silogismos da amargura)

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Graças à melancolia — esse alpinismo dos preguiçosos — escalamos da nossa cama todos os cumes e sonhamos no alto de todos os precipícios. (Silogismos da amargura)

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Quem teme perder sua melancolia, quem tem medo de curar-se dela, com que alívio constata que seus temores são infundados, que ela é incurável… (Silogismos da amargura)

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A capacidade de desistir constitui o único critério do progresso espiritual: não é quando as coisas nos abandonam, mas quando nós as abandonamos que atingimos a nudez interior, esse extreme em que já não pertencemos mais nem ao mundo nem a nós mesmos, extremo no qual vitória significa demitir-se, renunciar com serenidade, sem remorsos e, sobretudo, sem melancolia; pois a melancolia, por discretas e etéreas que sejam suas aparências, implica ainda ressentimento: é um devaneio carregado de agrura, uma inveja disfarçada de languidz, um rancor vaporoso. Enquanto estamos submetidos a ela, não renunciados a nada, nos atolamos no “eu” sem contudo nos desligar dos outros, em quem pensamos mais justamente por não ter conseguido nos desprender de nós mesmos. (História e utopia)

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The Anatomy of Melancholy: o título mais belo que já se encontrou. Que importa que o livro se mostre logo mais ou menos indigesto. (Écartèlement)

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Brahms representa, segundo Nietzsche, die Melancholie des Unvermögens, a melancolia da impotência.
Semelhante juízo, escrito no mesmo ano de sua crise, ofusca para sempre o esplendor de seu afundamento. (Aveux et anathèmes)

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Existe, é evidente, uma melancolia sobre a qual às vezes atuam os fármacos; existe outra, subjacente a nossas explosões de alegria, que nos acompanha constantemente, sem deixar-nos sós um instante sequer. Dessa maléfica presença, nada nos permite livrar-nos: ela é o nosso «eu» frente a si mesmo para sempre. (Aveux et anathèmes)

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A melancolia se alimenta de si mesma, daí que não possa renovar-se. (Aveux et anathèmes)

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 A melancolia redime este universo, e no entanto é ela que nos separa dele. (Aveux et anathèmes)

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Para enganar a melancolia, é preciso movimentar-se sem trégua. Quando paramos, ela desperta, se é que alguma vez adormeceu realmente. (Aveux et anathèmes)

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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