Música

«Não posso diferenciar as lágrimas da música» (Nietzsche). Quem não compreende isso instantaneamente nunca viveu na intimidade da música. Toda verdadeira música procede do pranto, já que nasceu da nostalgia do paraíso. (Lacrimi şi Sfinţi)

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Só o paraíso ou o mar poderiam dispensar-me do recurso à música. (Lacrimi şi Sfinţi)

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Possuímos em nós mesmos toda a música: jaz nas camas profundas da recordação. Tudo o que é musical é uma questão de reminiscência. Na época que não tínhamos nome, devemos ter ouvido tudo. (Lacrimi şi Sfinţi)

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A melhor prova de que a música não é de essência humana é que nunca sugere a representação do inferno. Nem sequer as marchas fúnebres conseguem fazê-lo. O inferno é presente, atualidade; o que significa que conservamos apenas a memória do paraíso. Se houvéssemos conhecido o inferno em nosso passado imemorial, não estaríamos suspirando por causa do recordo do inferno perdido? (Lacrimi şi Sfinţi)

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Quando se esgota em nós um motivo musical, o vazio que se instaura no seu lugar é ilimitado. Nada mais apropriado para revelar-nos a divindade na fronteira da expansão sonora do que a multiplicação interior – mediante o recordo – de uma Fuga de Bach. Quando evocamos um motivo e a sua febre ascensional, acabamos precipitando-nos diretamente no divino. A música é a emanação final do universo, como Deus é a emanação última da músca. (Lacrimi şi Sfinţi)

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A meditação musical deveria ser o protótipo do pensamento em geral. Que filósofo alguma vez seguiu um motivo até seu esgotamento, até seu limite extremo? Só em música há pensamento exaustivo. Mesmo depois de ler os filósofos mais profundos, experimentamos a necessidade de voltar a começar. Só a música nos dá respostas definitivas. (Lacrimi şi Sfinţi)

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A música é tempo sonoro. (Amurgul Gîndurilor)

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Viver sob o signo da música significa, por acaso, algo mais do que morrer com graça? A música ou o incurável como gozo… (Amurgul Gîndurilor)

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Poderíamos ouvir a misteriosa melodia de cada coisa? Poderíamos escutar um sorriso? Veem verdadeiramente os olhos se não soa uma música longínqua e doce? Que sons se originam no olhar e morrem sob a sombra melodiosa do coração? Tudo cobra voz com timidez, e dir-se-ia que as coisas elevam seus acordes até o céu.
Como um enfermo astral, que sensações desconcertantemente sutis te aproximem do mistério musical do ser! Ouves tudo, inclusive o pranto etéreo de um mundo oculto? Pareceria que as flores tivessem arrancado suas raízes do coração… e que tivesses ficado a sós com seus suspiros…
Ouvez o crepúsculo de uma açucena? Ou a melodia desgarradora de um perfume desconhecido?
Se cheirássemos uma rosa até sentir a sua música, que outra marcha fúnebre nos abriria com maior delicadeza uma tumba no céu? E não perde o céu o seu próprio brilho, dissolvido numa melodia que baixa até nós? (Amurgul Gîndurilor)

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Será Deus algo distinto de um intento de satisfazer minha infinita necessidade de Música? (Amurgul Gîndurilor)

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Wagner parece ter exprimido toda a essência sonora da sombra.
Quem ama verdadeiramente a música não busca nela um refúgio, mas um duplo desastre. Por acaso o universo não se eleva à desintegração pela música? (Amurgul Gîndurilor)

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Todos levamos, em graus diferentes, uma nostalgia do caos, que se expressa no amor à música. Não é isso o universo no estado de pura virtualidade? A música é tudo, menos o mundo. (Amurgul Gîndurilor)

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Sem as agitadas paixões da música, que faríamos com o sentimento caligráfico dos filósofos?
E que faríamos com o tempo branco, vazio e separado da vida, com o tempo branco do fastio?
Só amamos a música no litoral da vida. Com Wagner assistimos, pois, a uma cerimônia de claro-escuro, a uma cosmogonia da alma, e com Mozart, aos estremecimentos do Paraíso sonhado com outros céus. (Amurgul Gîndurilor)

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Nem os mares, nem o céu, nem Deus, nem o mundo tomado conjuntamente são um universo. Apenas a irrealidade da música… (Amurgul Gîndurilor)

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A nostalgia da morte eleva todo o universo ao nível da música. (Amurgul Gîndurilor)

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No que diz respeito à musica, os franceses não criaram grande coisa porque gostaram muito da perfeição neste mundo. E, ademais, a inteligência é a ruina do infinito e, portanto, da música. (Amurgul Gîndurilor)

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Há tantas possibilidades de morrer na música interior, que nunca encontrarei meu fim… Só se é cadáver na ausência de sonoridades internas. Mas quando os sentidos gemem por elas, o império do coração supera o do ser e o universo passa a desempenhar a função de um acorde interior e Deus se torna a prolongação infinita de uma tonalidade.
Quando a metade de uma velha sonata pode reprimir, com dificuldade, um «Meus Deus, que não se acabe nunca!», as ondas de uma vertical loucura nos lançam até o estado divino. Exilar-me lá com toda a música.  (Amurgul Gîndurilor)

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Música e ceticismo – Busquei a Dúvida em todas as artes e só a encontrei camuflada, furtiva, dissipada nos entreatos da inspiração, surgida do relaxamento do impulso; mas renunciei a buscá-la – mesmo sob essa forma – em música; aí não poderia florescer: ignorando a ironia, a música não procede das ironias do intelecto, mas dos matizes ternos ou veementes da Ingenuidade – tolice do sublime, irreflexão do infinito… Como o chiste não possui equivalente sonoro, chamar um músico de inteligente é denegri-lo. Este atributo o diminui e não tem lugar nessa cosmogonia lânguida onde, como um deus cego, improvisa universos. Se fosse consciente de seu dom, de seu gênio, sucumbiria ao orgulho; mas é irresponsável; nascido no oráculo, não pode compreender-se a si mesmo. Cabe aos estéreis interpretá-lo: ele não é critico, como Deus não é teólogo.
Caso-limite de irrealidade e de absoluto, ficção infinitamente real, mentira mais verdadeira que o mundo, a música perde seus prestígios logo que, secos ou morosos, nos dissociamos da Criação e o próprio Bach nos parece um rumor insípido; é o ponto extremo de nossa não-participação nas coisas, de nossa frieza e de nossa decadência. Zombar em pleno sublime, triunfo sardônico do princípio subjetivo, que aparenta ao Diabo! Quem já não tem lágrimas para a música, quem vive apenas da lembrança das que derramou, está perdido: a clarividência estéril terá destruído o êxtase de onde surgiam mundos… (Breviário de decomposição)

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Fora da matéria, tudo é música: Deus mesmo não passa de uma alucinação sonora. (Silogismos da amargura)

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Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido o paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases. (Silogismos da amargura)

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Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer seu despotismo e, segundo seu capricho, ser deus ou farrapo. (Silogismos da amargura)

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A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade. (Silogismos da amargura)

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Não há música verdadeira que não nos faça apalpar o tempo. (Silogismos da amargura)

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O infinito atual, paradoxo para a filosofia, é a realidade, a essência mesma da música. (Silogismos da amargura)

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A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos, mas as lágrimas. (Silogismos da amargura)

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Fora da música, tudo, inclusive a solidão e o êxtase, é mentira. Ela é justamente ambos, mas melhorados. (Aveux et anathèmes)

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Só a música pode criar uma cumplicidade indestrutível entre dois seres. Uma paixão é perecível, degrada-se como tudo aquilo que participa da vida, enquanto que a música pertence a uma ordem superior à vida e, certamente, à morte. (Aveux et anathèmes)

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A música só existe enquanto dura a audição, como Deus enquanto dura o êxtase.
A arte suprema e o ser supremo possuem em comum o fato de dependerem totalmente de nós. (Aveux et anathèmes)

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Depois das Variações Goldberg – música « superessencial », para empregar a terminologia mística – fechamos os olhos abandono-nos ao eco que suscitaram em nós. Nada existe mais, salvo uma plenitude sem conteúdo que é a única maneira de roçar o Supremo. (Aveux et anathèmes)

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A dúvida se insinua por todas as partes, no entanto com uma grande exceção: não existe música cética. (Aveux et anathèmes)

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A paixão pela música é em si mesma uma confissão. Sabemos mais sobre um desconhecido entregue a ela do que sobre alguém insensível ao seu feitiço a que vemos todos os dias. (Aveux et anathèmes)

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2 comentários em “Música”

    1. Very well said. Just do not forget that (as his brother Aurel remarks in the Apocalipsa dupa Cioran documentary) he used to play the the violin or the acoustic guitar (now I can’t remember) and one day, all of a sudden, he just left it aside and started reading like a maniac.

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