Procriação

A negativa de procriar – Aquele que, havendo gasto seus apetites, aproxima-se de uma forma limite de desapego, já não quer perpetuar-se; detesta sobreviver em outro, ao qual de resto não teria mais nada a transmitir; a espécie o apavora; é um monstro e os monstros não engendram. O “amor” o cativa ainda: aberração entre seus pensamentos. Busca um pretexto para retornar à condição comum; mas o filho lhe parece inconcebível, como a família, a hereditariedade, as leis da natureza. Sem profissão nem progenitura, cumpre – última hipóstase – seu próprio acabamento. Mas por afastado que esteja da fecundidade, um monstro mais audacioso o supera: o santo, exemplar ao mesmo tempo fascinante e repulsivo, em relação ao qual sempre se está a meio caminho e em uma posição falsa; a sua, pelo menos, é clara: já não há jogo possível, nem diletantismo. […] A natureza jamais conheceu tamanha calamidade: do ponto de vista da perpetuação, marca um fim absoluto, um desenlace radical. Entristecer-se, como Léon Bloy, porque não somos santos é desejar o desaparecimento da humanidade… em nome da fé! Como parece positivo, ao contrário, o diabo, já que, obrigando-nos a fixar-nos em nossas imperfeições, trabalha – involuntariamente, e traindo sua essência – para conservar-nos! Destrua os pecados: a vida murcha bruscamente. As loucuras da procriação desaparecerão um dia, mais por cansaço do que por santidade. O homem se esgotará menos por haver buscado a perfeição do que por haver-se dissipado; parecerá então um santo vazio e estará tão distante da fecundidade da natureza como o está esse modelo de acabamento e de esterilidade. […]
O homem só engendra se permanece fiel ao destino geral. Se se aproxima da essência do demônio ou do anjo, torna-se estéril ou procria abortos. […] O ódio à “espécie” e a seu “gênio” os aparenta [os santos] aos assassinos, aos dementes, às divindades, e a todos os grandes estéreis. A partir de um certo grau de solidão, seria preciso deixar de amar e de cometer a fascinante desonra da cópula. Quem quer perpetuar-se a todo custo mal se distingue do cão: ainda é natureza; não compreenderá jamais que se possa sofrer o império dos instintos e rebelar-se contra eles, gozar das vantagens da espécie e desprezá-las; um fim de raça – com apetites. (Breviário de decomposição)

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Se os impotentes soubessem como a natureza foi maternal com eles, abençoariam o sono de suas glândulas e o louvariam nas esquinas das ruas. (Silogismos da amargura)

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Antigamente, quando o espaço se encontrava menos abarrotado, menos infestado de homens, umas seitas, indubitavelmente inspiradas por uma força benéfica, preconizavam e praticavam a castração; por um paradoxo infernal, elas desapareceram no momento preciso em que sua doutrina teria sido mais oportuna e mais salutar do que nunca. Maníacos da procriação, bípedes de rostos desvalorizados, perdemos todo atrativo uns para os outros, e somente sobre uma terra semideserta, povoada no máximo de alguns milhares de habitantes, nossas fisionomias poderiam reencontrar seu antigo prestígio. A multiplicação de nossos semelhantes beira a imundície; o dever de amá-los beira o absurdo. (História e Utopia)

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Não é tanto o apetite de viver que se trata de combater, mas o gosto pela «descendência». Os pais; os progenitores são provocadores ou loucos. Que o último dos abortos tenha a faculdade de dar a vida, de «trazer ao mundo»…, existe algo mais desmoralizador? Como pensar sem espanto ou repulsa nesse prodígio que que faz do primeiro que aparece um meio-demiurgo? O que deveria ser um dom tão excepcional como o gênio foi conferido indistintamente a todos: liberalidade de má lei que desqualifica para sempre a natureza.
A exortação criminal do Gênese, ”Crescei e multiplicai-vos”, não podia ter saído da boca do deus bom. “Sede escassos”, deveria ter sugerido se tivesse voz no capítulo. Tampouco poderia ter acrescentado as palavras funestas: “E enchei a terra”. Dever-se-ia, antes de mais nada, apagá-las para lavar a Bíblia da vergonha de tê-las acolhido.
A carne se estende cada vez mais como uma gangrena pela superfície do globo. Não sabe impor-se limites, continua causando estragos apesar de seus avessos, toma suas derrotas por conquistas, nunca aprende nada. Pertence acima de tudo ao reino do criador e é sem dúvida onde este projetou seus instintos malfeitores. Normalmente, deveria aterrar menos quem a contempla do que aqueles mesmos que a fazem durar e asseguram seus progressos. Não ocorre dessa maneira, pois não sabem de que aberração são cúmplices. As mulheres grávidas serão um dia lapidadas, o instinto materno proscrito, a esterilidade aclamada. Com razão, nas seitas em que a fecundidade era vista com receio, entre os Bogomilos e os Cátaros, se condenava o matrimônio, instituição abominável que todas as sociedades protegem desde sempre, para grande desespero dos que não cedem à vertigem comum. Procriar é amar a praga, é querer cultivá-la e aumenta-la. Tinham razão esses filósofos que assimilavam o Fogo ao princípio do universo e do desejo. Pois o fogo arde, devora, aniquila: ao mesmo tempo agente e destruidor dos seres, é sombrio e infernal por essência.
Este mundo não foi criado alegremente. No entanto, procria-se com prazer. Sim, sem dúvida, mas o prazer não é a alegria, é apenas seu simulacro: sua função consiste em dar um golpe, em fazer-nos esquecer que a criação leva, em seu mínimo detalhe, a marca dessa tristeza inicial da qual surgiu. Necessariamente enganador, é ele também que nos permite executar certo esforço que em teoria reprovamos. Sem o seu concurso, a continência, ganhando terreno, seduziria inclusive os ratos. Mas é na voluptuosidade que compreendemos até que ponto o prazer é ilusório. Por ela alcança seu ápice, seu máximo de intensidade, e é aí, no cúmulo do seu êxito, que nos abrimos subitamente à sua irrealidade, que afundamos em seu próprio nada. A voluptuosidade é o desastre do prazer.
Não se pode consentir que um deus, nem sequer um homem, proceda de uma ginástica coroada com um grunhido. É estranho que, após um período de tempo tão longo, a «evolução» não tenha conseguido agenciar-se outra fórmula. Para que se cansaria, por outro lado, quando a atualmente vigente funciona com pleno rendimento e convém a todo mundo? Entendamos-nos: a vida mesma não entra em questão, é misteriosa e extenuante à vontade; o que não é o exercício em questão, de uma inadmissível facilidade, visto suas consequências. Quando se sabe o que o destino reserva a cada um, ficamos pasmos diante da desproporção entre um momento de esquecimento e a soma prodigiosa de desgraças que dele resulta. Quanto mais se volta a este tema, mais convencido se fica de que os únicos que entenderam alguma coisa são os que optaram pela orgia ou pelo ascetismo, os libertinos ou os castrados.
Como procriar supõe um desvario sem nome, é certo que, se nos tornássemos sensatos, ou seja, indiferentes à sorte da espécie, conservaríamos apenas algumas amostras, como se conservam espécimes de animais em vias de desaparição. Interditemos o caminho à carne, tentemos paralisar seu espantoso crescimento. Assistimos a uma verdadeira epidemia de vida, a uma proliferação de rostos. Onde e como seguir ainda frente a frente com Deus?
Ninguém está continuamente sujeito à obsessão do horror; acontece que nos apartamos dele, que quase o esquecemos, sobretudo quando contemplamos alguma paisagem da qual nossos semelhantes estão ausentes. Quando aparecem, instala-se novamente no espírito. Se nos inclinamos a absolver o criador, a considerar este mundo como aceitável e inclusive satisfatório, ainda assim deveríamos fazer reservas sobre o homem, este ponto negro da criação. (Le mauvais demiurge)

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No concílio de 1211 contra os Bogomilos, foram anatematizados aqueles dentre eles que sustentavam que «a mulher concebe em seu ventre com a cooperação de Satã, que Satã ali permanece sem retirar-se até o nascimento da criança».
Não me atrevo a supor que o demônio possa interessar-se por nós ao ponto de nos fazer companhia durante meses; mas não poderia duvidar de que tenhamos sido concebidos sob sua mirada, e de que ele tenha efetivamente assistido os nossos queridos progenitores. (Le mauvais demiurge)

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Nada prova melhor o quanto a humanidade regrediu do que a impossibilidade de encontrar um único povo, uma única tribo, em que o nascimento ainda provoque luto e lamentação. (De l’inconvenient d’être né)

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Ter cometido todos os crimes exceto aquele de ser pai. (De l’inconvenient d’être né)

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Extraordinário e nulo: este dois adjetivos se aplicam a um determinado ato e, por conseguinte, a tudo que dele resulta, a vida em primeiro lugar. (De l’inconvenient d’être né)

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Nada prova melhor o quanto a humanidade regrediu do que a impossibilidade de encontrar um único povo, uma única tribo, em que o nascimento ainda provoque luto e lamentação. (De l’inconvenient d’être né)

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Ter cometido todos os crimes exceto aquele de ser pai. (De l’inconvenient d’être né)

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Extraordinário e nulo: estes dois adjetivos se aplicam a um determinado ato e, por conseguinte, a tudo que dele resulta, a vida em primeiro lugar. (De l’inconvenient d’être né)

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Os filhos voltam-se, devem voltar-se contra seus pais, e os pais não podem fazer nada pois estão submetidos a uma lei que rege as relações dos seres vivos em geral, a saber: que cada um engendra o seu próprio inimigo. (De l’inconvenient d’être né)

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Minha visão do futuro é tão precisa que, se eu tivesse filhos, os estrangularia no ato. (De l’inconvenient d’être né)

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Fulano sustenta que nos encontramos ao cabo de um «ciclo cósmico» e que tudo explodirá em breve. Não cabe a menor dúvida.
Ao mesmo tempo, é pai de família, e de uma família numerosa. Com certezas como as suas, que aberração o empurrou a fazer filho atrás de filho, em um mundo perdido? Se se prevê o fim, se se está seguro de que não tardará, se se o toma por garantido, pode-se muito bem esperá-lo sozinho. Não se procria em Patmos. (De l’inconvenient d’être né)

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Em geral, aceitamos sem muitas dificuldades que nosso tempo se acaba; o que nunca confessamos é que encontramos certo prazer em sobreviver a nós mesmos. E essa satisfação clandestina, repugnante, é sentida mais de um quarto da humanidade… Segundo alguns, negar o pecado original é prova de não ter tido filhos…
Não os tive, mas me basta lembrar das minhas próprias reações quando criança para não ter nenhuma dúvida sobre nossa primeira desonra. (De l’inconvenient d’être né)

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Os filhos que não quis ter, se soubessem a felicidade que me devem! (Aveux et anathèmes)

Tradução do francês: Rodrigo Menezes

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