O Sorriso

Podemos duvidar de qualquer coisa, podemos lançar um sorriso depreciativo para o mundo, mas isso não nos impede de comer, de ter um sono tranquilo ou de nos casar. No desespero, de cuja profundidade não podemos nos convencer a não ser vivenciando-o, tais gestos só são possíveis por meio de esforço e sofrimento. (Nos cumes do desespero)

§

Sou uma fera de sorriso grotesco, que se contrai em si própria até a ilusão e se dilata até o Infinito, que morre e cresce ao mesmo tempo, encantada entre Tudo e Nada, exaltada entre a esperança do Nada e o desespero do Tudo, criada entre perfumes e venenos, abrasada pelo amor e pelo ódio, aniquilada por luzes e sombras. (Nos cumes do desespero)

§

Onde aparece o paradoxo, morre o sistema e triunfa a vida. Por meio dele a razão salva sua honra frente ao irracional. O que a vida tem de turvo só pode ser expresso como maldição ou como hino. Quem não pode servir-se deles só tem uma escapatória ao alcance: o paradoxo, sorriso formal do irracional. (Amurgul Gândurilor)

§

Quando comprovamos que os homens não podem oferecer nada e continuamos tratando com eles, é como se, após haver liquidado todas as superstições, continuássemos acreditando em fantasmas. Deus, para obrigar os solitários à covardia, criou o sorriso, anêmico e aéreo nas virgens, concreto e imediato nas mulheres da vida, terno nos velhos e irresistível nos moribundos. Por outro lado, nada é mais prova de que os homens são mortais do que o sorriso, expressão do equívoco desgarrado do efêmero. Cada vez que sorrimos, não é como um último encontro, e não seria o sorriso o testamento aromatizado do individuo? La trêmula luz do rosto e dos lábios, a solene umidade dos olhos transformam a vida num porto, do qual os barcos zarpam a alto mar sem destino, transportando não homens, mas separações. E que é a vida senão o lugar das separações?
Sempre que me deixo comover por um sorriso, distancio-me com o peso do irreparável, já que nada desvela mais atrozmente a ruína que aguarda o homem  que esse símbolo aparente de felicidade, que faz um coração desabrigado sentir com a maior crueldade o tremor do passageiro da vida, como o estertor clássico do fim. E sempre que alguém sorri para mim, decifro em sua fronte luminosa a chamada desgarradora: “Aproxima-te, olha bem, que eu também sou mortal!”. Ou quando a negrura da minha noite vela os meus olhos, a voz do sorriso esvoaça junto a meus ouvidos ávidos do implacável: “Olha para mim, é pela última vez!”.
 …E por isso o sorriso te aparta da última solidão, e seja qual for o interesse que tenhas por teus companheiros de respiração e de decomposição, te voltas a eles para sorver-lhes o segredo, para abnegar-se nele e para que eles não saibam, não saibam quão pesado é o fardo de sua temporalidade, que mares transportam e a quantos naufrágios nos convidam nos convida o tormento inconsciente e incurável do seu sorriso, a que tentações de desaparição te submetem, abrindo-te tua alma enquanto levantas, tremendo de aflição, a lápide do sorriso. (Amurgul Gândurilor)

§

Em alguns sorrisos femininos há uma terna aprovação que te deixa doente. Estes se aninham e se aposentam no fundo das tribulações cotidianas, exercitando um controle subterrâneo. Nas mulheres ‑- como na música — é preciso evitar sua difusa receptividade, que se engrandece até o desvanecimento os pretextos da ternura. Quando falas do medo, do próprio medo, diante de uma loira espiritualizada pela palidez e que baixa os olhos  para suprir com o gesto a confidência, seu quebrado e amargo sorriso se incrusta em tua carne e prolonga por meio de ecos teu tormento imaterial.
Os sorrisos são uma carga voluptuosa para quem os distribui e para quem os recebe. Um coração tocado pela delicadeza dificilmente pode sobreviver a um sorriso de ternura. Do mesmo modo, há olhares após os quais não se é mais capaz de decidir nada. (Amurgul Gândurilor)

§

O mundo murchou na periferia do coração, e a mente jaz ao cair da tarde. O universo mostra despavorido seu sorriso, no qual distingo (símbolo da vida) um anjo canibal. (Amurgul Gândurilor)

§

Onde floresce melhor o suicídio senão no sorriso? (Amurgul Gândurilor)

§

A vantagem do nada frente à eternidade é que ele não pode ser contaminado pelo tempo. Por isso, se assemelha a um sorriso melancólico. (Amurgul Gândurilor)

§

Um sorriso inesgotável no espaço de uma lágrima… (Amurgul Gândurilor)

§

…A sede de um paraíso da indulgência construído sobre um sorriso de depravações celestiais… (Amurgul Gândurilor)

§

Um pensamento tem que ser tão estranho como a ruína de um sorriso. (Amurgul Gândurilor)

§

Sorrisos dolorosos que apagam o sol… (Amurgul Gândurilor)

§

Sorrir é incompatível com as leis da causalidade: tal é a inútil fascinação que emana do sorriso. Pelo valor teórico, ele é o símbolo do mundo. (Îndreptar pătimaş)

§

O espetáculo do homem — que vomitivo! O amor — um encontro de duas salivas… Todos os sentimentos extraem seu absoluto da miséria das glândulas. Não há nobreza senão na negação da existência, em um sorriso que domina paisagens aniquiladas. (Breviário de decomposição)

§

Esta estagnação dos órgãos, este embotamento das faculdades, este sorriso petrificado, não te recordam muitas vezes o tédio dos claustros, os corações desertos de Deus, a secura e a idiotia dos monges execrando-se no arrebatamento extático da masturbação? És apenas um monge sem hipóteses divinas e sem o orgulho do vício solitário. (Breviário de decomposição)

§

Não posso contemplar um sorriso sem ler nele: “Olhe-me pela última vez.” (Silogismos da amargura)

§

Que uma realidade se oculte atrás das aparências é, em todo caso, possível; que a linguagem possa reproduzi-la, seria ridículo esperar. Por que, então, adotar uma opinião em lugar de outra, recuar ante o banal ou o inconcebível, ante o dever de dizer ou escrever qualquer coisa? Um mínimo de sabedoria nos obrigaria a defender todas as teses ao mesmo tempo, em um ecletismo do sorriso e da destruição. (Silogismos da amargura)

§

Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso. (Silogismos da amargura)

§

Na direção de uma sabedoria vegetal: abjuraria todos os meus terrores pelo sorriso de uma árvore… (Silogismos da amargura)

§

Nossas tristezas prolongam o mistério que esboça o sorriso das múmias. (Silogismos da amargura)

§

Perdoo tudo a X por causa de seu sorriso demodê. (De l’inconvenient d’être né)

§

“Desapareceu o riso, depois desapareceu o sorriso.”
Esta anotação  aparentemente ingênua de um biógrafo de Alexander Blok define bem o esquema de toda decadência. (De l’inconvenient d’être né)

§

Não existe outro mundo. Não existe nem mesmo este mundo. Que existe, então? O sorriso interior que suscita em nós a evidente inexistência de um e de outro. (De l’inconvenient d’être né)

§

Sua indolência me deixa perplexo e admirado a uma só vez. Não se apressa por nada, não persegue nenhum fim preciso, nenhum tema lhe apaixona. Parece como se, ao nascer, tivesse tomado um calmente que continua fazendo-lhe efeito, permitindo-lhe conservar seu sorriso indestrutível. (Aveux et anathèmes)

§

Preciso fabricar-me um sorriso e armar-me com ele, colocar-me sob sua proteção, ter algo a interpor entre o mundo e eu, camuflar minhas feridas, fazer, enfim, o aprendizado da máscara. (Cahiers)

§

Este mundo não tem mais consistência que o episódio de um sorriso. (Cahiers)

§

Un sourire exterminateur. (Cahiers)

§

Même son sourire était violent. (Cahiers)

§

Son sourire interminable. (Cahiers)

§

Não se descreve um sorriso. (Cahiers)

§

Cocktail com uma jovem japonesa. Seria preciso aprender o sorriso nipônico. O resto é acessório. (Cahiers)