Aforismos > Verdade

A  vantagem de pensar em Deus é que se pode dizer sobre Ele qualquer coisa. Quanto menos unimos umas ideias  a outras, mais possibilidades temos de nos aproximarmos da verdade. Deus se aproveita, em suma, das periferias da lógica. (Lacrimi și Sfinți)

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As lágrimas são o critério da verdade no mundo dos sentimentos. As lágrimas e não os prantos. Existe uma disposição para as lágrimas que se expressa por uma avalanche interior. Existem iniciados em matéria de lágrimas que nunca choraram realmente. (Lacrimi și Sfinți)

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Se a verdade não fosse tão entediante, a ciência teria eliminado Deus rapidamente. Mas, assim como os santos, Deus é uma ocasião para escapar da constrangedora trivialidade do verdadeiro.
O que me interessa na santidade talvez seja o del√≠rio de grandeza que ela esconde por detr√°s¬†de suas delicadezas, os apetites imensos disfar√ßados de humildade, a insatisfa√ß√£o que sua caridade oculta. Pois os santos souberam explorar suas debilidades com uma ci√™ncia propriamente sobrenatural. No entanto, sua megalomania √© indefin√≠vel, estranha, perturbadora. De onde vem, apesar de tudo, nossa compaix√£o inconfess√°vel por eles? Crer neles j√° √© apenas poss√≠vel. Admiramos suas ilus√Ķes, simplesmente. Da√≠¬†essa compaix√£o…¬†(Lacrimi¬†»ôi Sfin»õi)

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Por que quiseram acrescentar,¬†a todo custo,¬†algo ao Eclesiastes, que j√° cont√©m tudo? Melhor dizendo: O que n√£o est√° no Eclesiastes est√° riscado como erro. ¬ęEnt√£o meu cora√ß√£o se voltou ao desespero.¬Ľ √Ä verdade.¬†(Lacrimi¬†»ôi Sfin»õi)

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N√£o queremos mais suportar os pesos das ‚Äúverdades‚ÄĚ, continuar sendo suas¬†v√≠timas ou seus c√ļmplices. Sonho com um mundo em que se morreria por uma v√≠rgula. (Silogismos da amargura)

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‚Äú… s√≥ o verdadeiro √© digno de ser amado.‚ÄĚ Da√≠ prov√™m as lacunas da Fran√ßa, sua¬†repulsa ao Vago e ao turvo, sua antipoesia, sua antimetaf√≠sica.¬†Mais ainda que Descartes, foi Boileau quem influiu sobre todo um povo,¬†censurando seu g√™nio.¬†(Silogismos da amargura)

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Suficientemente ing√™nuo para colocar-me em busca da Verdade, interessei-me¬†no passado ‚ÄĒ inutilmente ‚ÄĒ por muitas disciplinas. Come√ßava a firmar-me no¬†ceticismo quando tive a id√©ia de consultar, como √ļltimo recurso, a Poesia: quem sabe,¬†disse a mim mesmo, talvez me seja √ļtil, talvez esconda sob sua arbitrariedade alguma¬†revela√ß√£o definitiva. Recurso ilus√≥rio: ela me fez perder at√© minhas incertezas…¬†(Silogismos da amargura)

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O fil√≥sofo ‚Äúgeneroso‚ÄĚ esquece, em detrimento de si mesmo, que de um sistema¬†s√≥ sobrevivem as verdades nocivas.¬†(Silogismos da amargura)

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As verdades do humanismo, a confian√ßa no homem e o resto, s√≥ possuem ainda¬†um vigor de fic√ß√Ķes, uma prosperidade de sombras. O Ocidente era essas verdades;¬†agora √© apenas essas fic√ß√Ķes, essas sombras. T√£o miser√°vel como elas, n√£o pode¬†vivific√°-las; as arrasta, as exp√Ķe, mas n√£o as imp√Ķe mais; deixaram de ser amea√ßadoras.¬†Da mesma forma, os que se agarram ao humanismo se servem de um voc√°bulo¬†extenuado, sem suporte afetivo, de um voc√°bulo espectral.¬†(Silogismos da amargura)

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Esp√≠rito positivo corrompido, o Destruidor acredita ingenuamente que vale a¬†pena demolir as verdades. √Č um t√©cnico √†s avessas, um pedante do vandalismo, um¬†evangelista extraviado.¬†(Silogismos da amargura)

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A s√°tira e o suspiro me parecem igualmente v√°lidos. Tanto em um panfleto¬†como em um Ars moriendi, tudo √© verdadeiro… Com o desembara√ßo da piedade adoto¬†todas as verdades e todas as palavras.
‚ÄúSer√°s objetivo!‚ÄĚ ‚ÄĒ maldi√ß√£o do niilista que acredita em tudo.¬†(Silogismos da amargura)

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Por que o ‚ÄúSer‚ÄĚ ou qualquer outra palavra com mai√ļscula? ‚ÄúDeus‚ÄĚ soava¬†melhor. Dev√≠amos t√™-lo conservado. Pois n√£o s√£o unicamente as raz√Ķes de eufonia que¬†deveriam comandar o jogo das verdades?¬†(Silogismos da amargura)

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A Verdade? Encontra-se em Shakespeare; um filósofo não poderia apropriar-se dela sem explodir com seu sistema. (Silogismos da amargura)

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A julgar por Tólstoi, só deveríamos desejar a morte, pois este desejo, já que se realiza infalivelmente, não é um engano como todos os outros.
Contudo, por acaso não é a essência do desejo tender a qualquer coisa, exceto à morte? Desejar é não querer morrer. Assim, pois, se nos pomos a desejar a morte, é porque o desejo se voltou contra sua própria função; é um desejo desviado, erguido contra os outros desejos, destinados todos a decepcionar, enquanto que ele mantém sempre suas promessas. Apostar nele é jogar seguro, é ganhar de todas as maneiras: não engana, não pode enganar. Mas o que esperamos de um desejo é, precisamente, que nos engane. Que se realize ou não, isso é secundário; o importante é que nos dissimule a verdade. Se nos a revela, falta com seu dever, se compromete y renega a si mesmo, e debe, portanto, ser riscado da lista dos desejos. (Le mauvais demiurge)

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O que permanece de um fil√≥sofo √© o seu temperamento, o que faz com que seja¬†esquecido, que se entregue a suas contradi√ß√Ķes, a seus caprichos, a rea√ß√Ķes incompat√≠veis com as linhas fundamentais do seu sistema. Se aspira √† verdade, que se emancipe de toda preocupa√ß√£o de coer√™ncia. S√≥ deve expressar aquilo que pensa e n√£o o que¬†decidiu¬†pensar. Quando mais vivo estiver, mais se deixar√° ir √† sua maneira e s√≥ sobreviver√° se n√£o se der conta daquilo em que¬†deveria¬†crer.¬†(Le¬†mauvais demiurge)

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Cada um acredita, de maneira inconsciente, que √© o √ļnico a perseguir a verdade, que os demais s√£o incapazes de busc√°-la e indignos de alcan√ß√°-la. Esta loucura est√° t√£o arraigada e √© t√£o √ļtil, que √© imposs√≠vel imaginar o que aconteceria com cada um de n√≥s se um dia ela desaparecesse. (De l’√¨nconvenient d’√™tre n√©)

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¬ęA verdade permanece oculta para aquele que est√° cheio de desejo e de √≥dio.¬Ľ (Buda)¬†… Ou seja, para todo ser vivo.¬†(De l’√¨nconvenient d’√™tre n√©)

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A verdade reside no drama individual. Se realmente sofro, sofro mais que um indiv√≠duo, ultrapasso a esfera do meu eu e me aproximo da ess√™ncia dos outros. A √ļnica maneira de alcan√ßarmos o universal √© ¬†nos ocupando unicamente daquilo que nos concerne.¬†(De l’√¨nconvenient d’√™tre n√©)

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O medo de ser enganado √© a vers√£o vulgar da busca da Verdade.¬†(De l’√¨nconvenient d’√™tre n√©)

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Nem sempre buscamos a Verdade; mas quando a buscamos com sede, com viol√™ncia, detestamos tudo o que √© express√£o, tudo o que tem a ver com palavras e com formas, todas as mentiras nobres, muito mais distantes da verdade que as mentiras vulgares.¬†(De l’√¨nconvenient d’√™tre n√©)

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Segundo uma¬†lenda¬†de¬†inspira√ß√£o¬†gn√≥stica, houve no c√©u uma luta entre os anjos, em que os partid√°rios de Miguel venceram aqueles do Dem√īnio. Os anjos indecisos que se limitaram a observar foram relegados √† Terra, para que nela cumprissem a elei√ß√£o sobre a qual n√£o se haviam decidido l√° em cima, elei√ß√£o t√£o mais penosa quanto n√£o tinham recorda√ß√£o nenhuma do combate, e menos ainda de sua atitude equ√≠voca. Assim, a causa da hist√≥ria seria uma hesita√ß√£o, e o homem, o resultado de um vacilo original, da incapacidade de tomar partido em que se encontrava antes do desterro. Lan√ßado ao mundo para aprender a escolher, ser√° condenado √† a√ß√£o, √† aventura, na qual s√≥ poder√° brilhar se sufocar em si mesmo o espectador. Se o c√©u permite, at√© certo ponto, a neutralidade, a hist√≥ria, por sua vez, aparece como o castigo de quem, antes de encarnar, n√£o encontrou nenhuma raz√£o para aderir a um lado em vez do outro. Compreende-se, pois, que os humanos tenham tanta pressa em abra√ßar uma causa, em aglutinar-se ao redor de uma verdade. Mas, ao redor de que tipo de verdade?
O budismo tardio, especialmente a escola Madyamika, destaca a oposição radical entre a verdade verdadeira, ou paramartha, atributo do libertado, e a verdade relativa, ou samvriti, verdade velada, mais precisamente uma verdade de erro, privilégio ou maldição do não-emancipado.
A verdade verdadeira, que assume todos os riscos, inclusive o da nega√ß√£o de toda verdade da da mideia mesma de verdade, √© prerrogativa do inativo, de quem se coloca deliberadamente fora do c√≠rculo dos atos e s√≥ se interessa pela apropria√ß√£o (brusca ou met√≥dica, d√° na mesma) da insubstancialidade; apropria√ß√£o que n√£o √© acompanhada de¬†nenhum sentimento de frustra√ß√£o, pois a abertura √† n√£o-realidade¬†sup√Ķe um misterioso enriquecimiento. Para ele a hist√≥ria ser√° um mau sonho ao qual ter√° de se resignar, j√° que a ningu√©m est√° dado escolher seus pr√≥prios pesadelos.¬†Para apreender a ess√™ncia do processo hist√≥rico, ou antes sua falta de ess√™ncia, √© preciso render-se √† evid√™ncia¬†de que todas as verdades que comporta s√£o verdades de erro, pois atribuem uma¬†natureza pr√≥pria ao que carece de uma, uma subst√Ęncia √†quilo que n√£o pode possu√≠-la. A teoria da dupla verdade permite discernir o lugar que¬†ocupa, na escala das irrealidades, a hist√≥ria: para√≠so de son√Ęmbulos, obnubila√ß√£o¬†em marcha. No fundo, n√£o carece por completo de ess√™ncia, j√° que √© a ess√™ncia do¬†engano, chave de tudo o que cega, de tudo o que ajuda a viver no tempo. (√Čcart√®lement)

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Imposs√≠vel aceder √† verdade atrav√©s de opini√Ķes, pois toda opini√£o √© apenas um ponto de vista louco sobre¬†a realidade.¬†(√Čcart√®lement)

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O c√©tico pode chegar a admitir que a verdade existe, mas deixa para os inocentes a ilus√£o de crer que algum dia poder√£o possu√≠-la. No que me diz respeito, pensa ele, me atenho √†s apar√™ncias, as constato e adiro a elas √† medida que, como ser vivo, n√£o posso agir de outra maneira. Ajo como os demais, executo seus mesmos atos, mas n√£o me confundo nem com minhas palavras, nem com meus gestos.¬†Submeto-me aos costumes e √†s leis, fa√ßo como se compartilhasse as convic√ß√Ķes, isto √©, as manias dos meus concidad√£os, sabendo que, em √ļltima inst√Ęncia,¬†sou t√£o pouco real quanto eles.
Que √©, ent√£o, o c√©tico? Um fantasma… conformista.¬†(√Čcart√®lement)

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“Que √© a verdade?” √© uma pergunta fundamental. Mas √≠nfima comparada com: “Como suportar a vida?” A qual por sua vez empalidece ao lado desta: “Como suportar-se a si mesmo?” — Eis a pergunta capital √† qual ningu√©m tem uma resposta.¬†(√Čcart√®lement)

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Enquanto n√£o se tiver sofrido, se vive na mentira. Mas quando se come√ßa a sofrer, irrompe-se na¬†verdade unicamente para sentir falta da mentira.¬†(√Čcart√®lement)

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A filosof√≠a hindu busca a libera√ß√£o; a grega, √† exce√ß√£o de Pirro, Epicuro e alguns inclassific√°veis, √© decepcionante: n√£o busca mais que a… verdade.¬†(Aveux et anath√®mes)

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Cada vez que leio um texto budista, ainda que seja apenas uma senten√ßa, sinto vontade de me voltar a essa sabedoria que tentei assimilar durante um longo per√≠odo de tempo e da qual, inexplicavelmente, em parte me desviei. Nela reside n√£o a verdade, mas algo melhor… e atrav√©s dela se acede a esse estado em que se encontra purificado de tudo, em primeiro lugar das ilus√Ķes. N√£o voltar a ter nenhuma sem arriscar-se por isso a um desmoronamento, afundar no desenganao evitando de uma vez por todas a amargura, emancipar-se cada dia mais da obnubila√ß√£o que arrastam essas hordas de seres vivos… (Aveux et anath√®mes)

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