“Sobre la realidad del cuerpo” (M. Liliana Herrera)

Religare 10 (1), 1-3, Mar莽o de 2013

Dossi锚 Cioran e a religi茫o [+]

M. Liliana Herrera A. (Universidad Tecnol贸gica de Pereira, Colombia)

Alma se tiene a veces.
Nadie la posee sin pausa y para siempre.
Wislawa Szymborska

Una reflexi贸n contempor谩nea sobre el cuerpo y la enfermedad realmente sugestiva por su aspereza, es la que ha elaborado Cioran. Y no es que haya algo totalmente original en ella. Lo que llama la atenci贸n es la exacerbaci贸n con la que trata el tema, el rencor de enfermo que exhibe, la acritud de su sinceridad no carente, sin embargo, de lirismo. Pero tambi茅n, y para ser justos, no se trata 煤nicamente de la admiraci贸n que causa un estilo literario como el suyo. Sus imprecaciones parecer铆an ser la versi贸n literaria de una idea que cada vez est谩 m谩s cerca de ser probada a plenitud: la de que la consciencia tambi茅n es fruto de la evoluci贸n y no un fen贸meno extravital. Esta teor铆a, (chocante, s铆, para muchos) otorga una ocasi贸n para pensar en un acontecimiento maravilloso aunque absurdo porque es, a todas luces, cruel, como es el de la persistencia, dir铆ase viciosa, abrumadora de la vida y, en particular, la configuraci贸n que por azar, por una soluci贸n simplemente ad hoc 鈥 como afirma uno de los investigadores sobre el tema – a la que se vio impelido el cerebro mam铆fero para ganarse as铆 la supervivencia y la de la especie que se hizo humana… [+]

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“Triste com m茅todo”, por Constantin Zaharia

modedemploiTristeza, desespero, t茅dio, amargura, ou ainda o聽dor, esp茅cie de saudade romena… O escritor experimentou todos os graus da melancolia, indissoci谩vel do pensamento.

Por Constantin Zaharia

Artigo publicado no dossi锚 “Cioran: d茅sespoir, mode d’emploi”, da Magazine Litt茅raire, maio de 2011

Derivado do latim dolus, o dor romeno pode ser traduzido em franc锚s por 鈥渘ostalgia鈥. A palavra, no entanto, 茅 carregada de sentidos dif铆ceis de transpor a outro idioma. Em romeno, a express茫o mi-e dor de… significa a falta provocada geralmente pela aus锚ncia de um ser querido e pelo desejo de rev锚-lo. Pode exprimir o amor ou a amizade. Ademais, o uso 茅 pouco frequente em outros contextos, sobretudo no meio citadino, pois o dor participa de uma est茅tica e de uma experi锚ncia criadora que s茫o aquelas da cultura popular, essencialmente rural. Durante s茅culos, a sensibilidade campesina se manifestou por meio da poesia e da can莽茫o, notadamente a doina, pr贸xima de uma tonalidade eleg铆aca, na qual o dor encontra definitivamente o seu lugar.

Desenraizamento metaf铆sico

O dor, portanto, 茅 mais amb铆guo que a nostalgia: remete tanto ao passado quanto ao futuro; o lamento do imposs铆vel retorno in illo tempore n茫o 茅 obrigat贸rio. 脡 um desejo mesclado ao sofrimento, uma aspira莽茫o que n茫o conhece realiza莽茫o, pois aquele que a experimenta se situa numa indetermina莽茫o da qual n茫o conhece as possibilidades de realiza莽茫o. Ele s贸 pode pressenti-la, mas n茫o exige sua manifesta莽茫o. O objeto do dor 茅 fundamentalmente indefin铆vel. Viver aquilo que se deseja tornar-se como um doce sofrimento 茅 mais importante que ver seus desejos realizados, pois a qualidade desse langor 茅 superior ao que se pode obter pela obten莽茫o dos seus desejos.

Cioran raramente empregada a palavra romena dor, exceto para se entregar a uma esp茅cie de exerc铆cio daquilo que ele chama 鈥渁 apreens茫o da ess锚ncia dos povos por sua maneira de participar do vago.鈥 Sua an谩lise cont茅m uma cr铆tica impl铆cita ao espa莽o romeno. Ele considera a palavra como a express茫o do desenraizamento metaf铆sico: 鈥淥 dor 茅, justamente, sentir-se eternamente distante de casa.鈥 脡 um abandono em nome de uma indetermina莽茫o que adquire dimens玫es mais gerais ainda, pois se chega a n茫o ser j谩 de nenhum lugar. 鈥淒ir-se-ia que a alma n茫o se sente mais consubstancial com o mundo. Ent茫o ela sonha com tudo o que perdeu. 脡 a nega莽茫o da coragem tr谩gica, do abandono no combate.鈥 De todas as utopias do cora莽茫o, a mais estranha 茅 a do dor, que evoca 鈥渦m universo natal, onde se repousa de si mesmo, um universo-travesseiro c贸smico de todas as nossas fadigas.鈥 (脡xercises n茅gatifs, p. 119) Considerada a ess锚ncia melanc贸lica do dor, 茅 estranho que Cioran n茫o lhe fa莽a refer锚ncia de maneira mais expl铆cita quando afirma: 鈥淪ou um lamento ambulante, e a nostalgia devora meu sangue e se devora ela mesma鈥 (Cahiers, p. 72), tanto mais 茅 por ele perseguido. Acontece de ele inclusive nomear, nessas situa莽玫es, seu pa铆s e sua inf芒ncia.

鈥淒espertar para o atroz鈥

O horizonte afetivo do pensamento de Cioran 茅 a melancolia. Uma multid茫o de ideias pr贸ximas, que s茫o todas sinon铆micas, irrompem de seus escritos para designar os sofrimentos inauditos, que nenhum rem茅dio 茅 capaz de aliviar. Ele suporta um a um os tormentos do t茅dio e da melancolia (cafard), da ac铆dia e da pregui莽a, do 贸dio e do rancor, do desespero e da ang煤stia, do remorso e da tristeza, e uma lista de equivalentes inventados para nome谩-la est谩 longe de se esgotar. 脡 uma experi锚ncia de uma riqueza fecunda, que come莽a na adolesc锚ncia, uma vez que ele se torna insone. 脡 a perda do sono que implica o 鈥渄espertar para o atroz鈥 (Cahiers, p. 677) e a revela莽茫o de verdades insustent谩veis que conduzem ao desespero e legitimam a dist芒ncia em rela莽茫o aos homens, da civiliza莽茫o, de Deus.

Antes de ser um estado de esp铆rito ou um temperamento, a melancolia 茅 um humor (m茅laina chol茅 significa, em grego antigo, 鈥渂铆lis negra鈥), um produto fisiol贸gico que desempenhava um papel determinante na medicina hipocr谩tica, fundada em um sistema de quatro humores (sangu铆neo, bilioso, melanc贸lico, fleum谩tico). Como o humor se evade do dom铆nio m茅dico?

As virtudes da b铆lis negra

O Problema XXX, 1, atribu铆do a Arist贸teles,[1] estabelece uma liga莽茫o estreita entre o temperamento negro, respons谩vel por tantos danos, segundo Hip贸crates, e o homem excepcional, seja ele artista, fil贸sofo, pol铆tico ou her贸i. A proposi莽茫o de Arist贸teles n茫o 茅 m茅dica; ele n茫o se det茅m sobre os detalhes nosol贸gicos. Para ele, 茅 o car谩ter cambiante da b铆lis negra que vai explicar a emin锚ncia do melanc贸lico; 茅 preciso ainda que este o seja por complei莽茫o natural, e n茫o por um excesso sobrevindo acidentalmente. Esta rela莽茫o entre a melancolia e o homem de g锚nio, estabelecida pelos peripat茅ticos, ser谩 retomada nas Cartas do pseudo-Hip贸crates,[2] e transmitida pela tradi莽茫o em diferentes formas. Entretanto, 茅 somente a partir do Renascimento que a melancolia 茅 necessariamente associada ao criador. Da Melencolia de D眉rer aos langores rom芒nticos, numerosos foram os deslocamentos que modificaram seu sentido, sem transform谩-lo fundamentalmente. Mais receptivo 脿s contribui莽玫es que 脿s metamorfoses espetaculares, e sobretudo fiel 脿 sua transversalidade, a ideia de melancolia permaneceu associada ao medo e 脿 tristeza, como o quer o aforismo VI, 23, de Hip贸crates, e conjuntamente ao entusiasmo, ou seja, 脿 viol锚ncia sob suas formas mais variadas, como o sugere o Problema de Arist贸teles: veem锚ncia, ressentimento, 贸dio ou furor.

Quando Cioran evoca 鈥渁 amargura das entranhas鈥 (Cahiers, p. 214), ou a 鈥渓贸gica do fel鈥 (Oeuvres, p. 767), ou ainda quando menciona o inesgot谩vel gosto de vinagre no seu sangue (Oeuvres, p. 1244), ele se situa na tradi莽茫o do humorismo. Fiel ao mal secreto que o devora, ele 茅 o primeiro a saber que s贸 triunfar谩 provisoriamente sobre ele, e que a b铆lis negra, n茫o importa o que ele fa莽a, estar谩 sempre l谩 para acompanh谩-lo no desespero, na tristeza ou no cafard alojado em seu sangue. 鈥淒e onde pode derivar essa tristeza desumana? Vejo sua causa num duplo desastre: metaf铆sico e psicol贸gico.鈥 (Cahiers, 357), explica ele se refugiando a cama e cobrindo sua cabe莽a para esquecer os assaltos do 鈥cafard c贸smico鈥. O 鈥渄esastre fisiol贸gico鈥 n茫o passa de um eufemismo pelo qual Cioran afirma a natureza em parte humorosa de sua tristeza desumana.

O que Kant ou Hegel n茫o podem saber

A melancolia se torna o segundo plano em que se elabora um saber que a filosofia n茫o est谩 脿 altura de apreender nem de transmitir o alcance. Cioran reage diversas vezes 脿 tradi莽茫o filos贸fica, para denunciar sua vaidade e se posicionar na contracorrente, como ele gosta de fazer em todas as circunst芒ncias. Ele considera o pensamento de Kant ou de Hegel, entre outros, com a ironia de quem sabe mais sobre a vida do que qualquer outro fil贸sofo. Ele lhes op玫e o pavor do troglodita diante do 鈥渄esfile de calamidades que se desenrolam sob seus olhos.鈥 (Oeuvres, p. 1258), e denuncia sobretudo a equanimidade que eleva ao conhecimento o prest铆gio de ter sofrido para ter chegado l谩. Aquele que desde sua juventude se prop玫e a 鈥渆star triste com m茅todo鈥 (Oeuvres, p. 219) continuar谩 sofrendo sua autoridade sem se apartar para tantas fontes de reflex茫o, o que n茫o o impedir谩 de proclamar que 茅 鈥渦m Mongol devastado pela melancolia鈥 (Cahiers, p. 34), quanto mais sofre 鈥渁cessos de melancolia de que o Diabo mesmo ficaria com inveja鈥 (Cahiers, p. 219).

脡 o caso de se espantar que a nuance afetiva de tudo o que Cioran escreveu seja aquela da tristeza? Que ele n茫o tenha nunca formulado uma s贸 frase para exprimir a alegria ou a felicidade? A literatura dos moralistas, pela qual Cioran 茅 aficionado ao ponto de consider谩-la seu modelo, exprime com frequ锚ncia a decep莽茫o, tonalidade bastante pr贸xima do taedium vitae que o autor dos Silogismos da Amargura praticava ativamente. 脌 exce莽茫o de que Cioran lhe atribui um papel heur铆stico in茅dito: 鈥淎bomino toda ideia indiferente: n茫o estou triste sempre, logo, n茫o penso sempre鈥 (C., p. 666). Ele escreve para designar-se precisamente como 鈥渁ntifil贸sofo鈥 e para dizer tamb茅m que n茫o existe pensamento fora da tristeza, que tudo o que concebe o esp铆rito est谩 impregnado dela, que a pr贸pria escrita n茫o existiria na aus锚ncia de tudo o que a melancolia o faz suportar.

Tradu莽茫o do franc锚s: Rodrigo I. R. S谩 Menezes

“Para que ler?”, por Nicolas Cavaill猫s (Dossi锚 Cioran/Magazine Litt茅raire)

Cioran na Magazine Litt茅raireGrande leitor, Cioran parecia assim desmentir seu pessimismo: se ele ainda buscava, devia muito bem permanecer uma sombra de esperan莽a. Mas ele n茫o estava 脿 procura de argumentos salvadores, e sim de irm茫os de fatalismo.

Por Nicolas Cavaill猫s

Texto publicado no dossi锚 “Cioran: d茅sespoir, mode d’emploi”, Magazine Litt茅raire no. 508, Maio de 2011

A absurdidade de uma vida passada a vasculhar bibliotecas em busca de novas express玫es para antigas verdades sem d煤vida ultrapassa aquela de sua proclama莽茫o lancinante, por vezes explosiva e nuan莽ada, sempre mais decepcionada, distante e cinzelada. Filho do pessimismo germ芒nico聽fim de s茅culo, de Schopenhauer e sua sucess茫o (Cioran segue os cursos de Nicolai Hartmann em Berlim, entre 1933 e 1935), disc铆pulo entusiasta dos profetas da decad锚ncia que Nietzsche queria derrotar, o escritor em seguida tomaria cuidado, na Fran莽a, de colocar entre aspas essa palavra que se lan莽ava outrora como um insulto: 鈥減essimista鈥 equivalia a 鈥渃analha鈥. N茫o obstante ele conheceu todas as hip贸stases que os raros aristarcos do pessimismo inventariaram: pessimismo especulativo ou espont芒neo (James Sully, 1877), cultural, metaf铆sico ou existencial (J. F. Dienstag, 2006), ou ainda pessimismo hexa茅drico (Georges Palante, 1914), de cujo detalhe poupamos o leitor para melhor nos inspirar nele na frase seguinte. Assim, ao pessimismo nevrop谩tico e niilista da juventude de Cioran, resultante tanto de um drama existencial pessoal quanto de uma reflex茫o antropol贸gica sobre a hist贸ria e seu 鈥渟entido tr谩gico鈥, se seguir谩聽 um pessimismo da maturidade, n茫o menos fatalista (脿 romena), fruto de uma misantropia desabrochada (aquela de um Chamfort, de um Swift), confortada por suas vis玫es obscuras sobre a hist贸ria (por Val茅ry, por Maquiavel), e avivado por uma aten莽茫o especial em rela莽茫o 脿s sabedorias orientais, inclusive em rela莽茫o 脿 ci锚ncia e suas 煤ltimas li莽玫es: 鈥淭endo aberto uma antologia de textos religiosos, ca铆 logo de cara nessas palavras do Buda: 鈥楴enhum objeto merece ser desejado.鈥 鈥 Fechei o livro imediatamente, pois, depois disso, o que ler ainda?鈥; 鈥淥 dia que li que em quinhentos mil anos a Inglaterra ser谩 completamente recoberta de 谩gua, me joguei na cama em sinal de abdica莽茫o e de luto.鈥 Que dem么nio Cioran, leitor insaci谩vel, satisfazia com essa resist锚ncia inveterada ao ceticismo, ao qual, por outro lado, ele se atinha? 鈥淥 pessimismo 鈥 essa crueldade dos vencidos que n茫o saberiam perdoar a vida por haver enganado sua espera.鈥

Tamb茅m as horas solit谩rias e melanc贸licas dedicadas a atravessar as obras dos outros poderiam acarretar a escrita, homenagem t谩cita 脿 leitura e prolongamento cat谩rtico de sua sede de desilus茫o. Tudo 茅 duvidoso, tudo 茅 insuport谩vel, mas de tal maneira que dever铆amos ser agradecidos 脿queles que puderam exprimir sua complexidade, por mais que sejam, sempre, est茅reis,聽essa complexidade revelada e suas diversas express玫es. N茫o existe um cen谩culo dos pessimistas, mas por vezes correspond锚ncias, instantes de reconhecimento, de sinais compartilhados aos quais se enviam certos esp铆ritos sem saber a quem, do seu obscuro isolamento. O pensador, o poeta, qualquer que seja seu nome, permanece 脿 margem, extenuado, perdido, sozinho, exclu铆do de uma sociedade nociva aos caminhos que levam ao essencial.

Curiosidade nascida da intranquilidade

Flan锚ur curioso sobre a maneira com que cada pessoa suporta o seu quinh茫o, Cioran frequentou bastante os tribunais e os asilos de loucos (Em Sibiu, em Bucareste, em Berlim, em Sainte-Anne), ou seja, os teatros mais cru茅is da vida moderna; desde seus primeiros anos em Paris, anos de extrema solid茫o, errando pelos bulevares do Quartier Latin, lhe ocorria de interrogar os passantes, de prefer锚ncia os desajustados e os mendigos, simplesmente para conhece-los, para escut谩-los falar, para saber como eles (n茫o) davam um jeito de (sobre)viver. 脡 uma curiosidade similar, nascida da intranquilidade, que o levaria a esgotar as bibliotecas, por algumas dessas correspond锚ncias raras, fugidias, reticentes, a partir das quais c茅rebros mais necessitados ou menos confusos seriam tentados a reconstituir uma tradi莽茫o daqueles que n茫o possuem uma. Em seu 煤ltimo livro, Aveux et Anath猫mes (鈥淐onfiss玫es e An谩temas鈥), como nos precedentes, Cioran registra diversos desses encontros com irm茫os desconhecidos, de que apenas um dizer seria suficiente para uni-los a ele. Ele exuma: 鈥溾橠eus n茫o criou nada que odeie tanto quanto odeia este mundo, e tanto o odeia que, desde o dia em que o criou, nunca olhou para ele.鈥 N茫o sei que foi o m铆stico mu莽ulmano que escreveu isso, ignorarei para sempre o nome desse amigo.鈥 Que ele cite aqui uma carta do asceta al-Hassan al-Basr卯 ao califa Omar II, datada do s茅culo VIII, 茅 importante e n茫o 茅. Mais ainda: 鈥淪egundo um chin锚s, uma 煤nica hora de felicidade 茅 o que um centen谩rio poderia confessar ap贸s ter refletido bem sobre as vicissitudes de sua exist锚ncia. […] J谩 que todo mundo exagera, por que os s谩bios seriam exce莽茫o?鈥 Yang Tchou, o chin锚s em quest茫o, viveu durante o 煤ltimo mil锚nio a.C., devendo a Lao-Ts茅 por ter sido privado, at茅 os dias de hoje, de um supremo esquecimento que, n茫o obstante, n茫o o teria incomodado. Similarmente, o grego Hegesias considerava a vida e a morte 鈥渋gualmente desej谩veis鈥; similarmente, Hegesias encontra em Cioran um novo eco: 鈥溾橝 vida s贸 parece um bem ao insensato鈥, costumava dizer, h谩 vinte e tr锚s s茅culos, Hegesias, fil贸sofo cirenaico, do qual praticamente resta apenas este coment谩rio… Se h谩 uma obra que eu amaria reinventar, 茅 a sua鈥 (De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅). Hegesias, o 鈥淧isithanatos鈥 (aquele que aconselha a morte) s贸 nos 茅 conhecido por dez linhas de Di贸genes La茅rcio (e pela onda de suic铆dios que sua filosofia teria produzido, ao ponto de ser proibida por Ptolomeu II); alguns fragmentos bastam, 脿queles que n茫o buscam nem aur茅ola nem transcend锚ncia, mais apenas 鈥渁lguma coisa que se possa murmurar 脿 orelha de um 茅brio ou de um moribundo鈥. Como queria Chestov, a ess锚ncia dos livros como dos olhares que se cruzam se d谩 num instante por toda a eternidade eventual, e n茫o se explica nem se argumenta. De seus la莽os com outro homem honesto, Leopardi, cuja infeliz lucidez no que concerne 脿 mediocridade humana o fez ser qualificado de pessimista, Cioran escreve: 鈥淪茫o menos os autores que mais lemos os que mais importam para n贸s, quanto aqueles sobre os quais n茫o cessamos de pensar, que t锚m estado presentes em nossos momentos essenciais e que, para o seu mart铆rio, nos t锚m ajudado a suportar o nosso.鈥

Escapat贸rias da erudi莽茫o

Assim, apesar da pose ociosa que ele assumia com frequ锚ncia, e apesar da lassid茫o que o corro铆a sempre, n茫o 茅 sem zelo que Cioran se entregou 脿 leitura. A ilimita莽茫o dessa curiosidade m贸rbida e subjetiva, dessa busca obsessiva pelos cantos mais sombrios 鈥 os mais justos 鈥 de todos os tempos e de todos os lugares, n茫o deixou de lhe valer a cr铆tica de superficialidade e diletantismo, por exemplo sob a pluma possessiva e maldizente de [Ren茅] 脡tiemble em seu pref谩cio aos Philosophes tao茂stes da Pl茅iade (1980). Cioran tinha se adiantado, escrevendo em 1952: 鈥淎profundar uma id茅ia 茅 atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e at茅 a vida…鈥 Refrat谩rio 脿s escapat贸rias [faux-fuyants] ronronantes daqueles que preferem a hist贸ria dos problemas aos problemas mesmos, ou ainda o estudo dos sutras 脿 pratica do zazen, Cioran os reencaminha 脿 ligeireza que mascara sua erudi莽茫o: 鈥淎penas os esp铆ritos superficiais abordam as ideias com delicadeza.鈥 N茫o se trata, ao ler, nem de se divertir nem de fomentar cultura, mas de recolher algum novo elemento suscet铆vel de nos confortar em nosso esfor莽o de lucidez e de ceticismo, duplo esfor莽o de hostilidade ao mundo tal qual se o vive e ao eu tal qual se o suporta 鈥 tantas ilus玫es, tantos disfarces do pior. Mesmo que dificilmente se acreditaria nisso, 茅 preciso retornar a铆, n茫o ser um 鈥減essimista sem entusiasmos鈥, e cultivar a percep莽茫o da vacuidade geral sem elevar essa percep莽茫o sobre seu objeto: 鈥淥 homem debru莽ado sobre sua inutilidade j谩 n茫o pertence ao desejo de ter uma vida […] j谩 n茫o se embara莽a com um si mesmo ideal鈥 (Brevi谩rio de Decomposi莽茫o). 脡 脿 medida que nos ajudam que os livros, mesmo os dos fil贸sofos, sust锚m sua inanidade.

Traduzido do franc锚s por Rodrigo Menezes

01/01/2014

A ins么nia da raz茫o (Caderno Mais! – 12/02/1995)

Cioran: o pensador da amargura (Mais! - 12/02/1995)
Cioran: o pensador da amargura (caderno Mais! – 12/02/1995)

“Ser desconhecido 茅 uma vol煤pia” (entrevista publicada no extinto suplemento cultural Mais!, da Folha de S茫o Paulo, 12/02/1995) —聽Fonte original

Foi assim que consegui resolver o meu problema e tudo isso foi necess谩rio para viver sem exercer uma profiss茫o. Mas tudo isso acabou, os mo莽os, hoje, n茫o t锚m mais essa possibilidade. Tem mo莽os que v锚m me visitar e que me dizem que gostariam de viver como eu. Mas 茅 tarde demais. Tudo isso desapareceu, est谩 acabado agora.
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Pergunta – Mas o sr. continuou a trabalhar, a escrever ainda assim, o sr. publica bastante na Nouvelle Revue Fran莽aise.

Cioran – 脡 verdade. N茫o se pode viver totalmente no para铆so 鈥 quer dizer, na parasitagem. Eu compreendi que era preciso escrever e isso certamente correspondia a uma necessidade. Assim, publiquei meu primeiro livro em franc锚s, Pr茅cis de D茅composition (Brevi谩rio de Decomposi莽茫o).

Depois disso, tinha algumas vagas inten莽玫es e j谩 me perguntava na 茅poca por que multiplicar livros. Por qu锚? De todo modo, das pessoas s贸 restam algumas frases, n茫o 茅? Mas 茅 preciso dizer ainda que os dias s茫o longos demais, e depois havia certamente tamb茅m uma forma de vitalidade em jogo, uma necessidade de manifesta莽茫o. Fui totalmente desconhecido por 30 anos, meus livros n茫o tinham a menor sa铆da. Eu aceitei muito bem essa condi莽茫o e ela correspondia tamb茅m 脿 minha vis茫o das coisas, at茅 o momento em que vieram os livros de bolso. Acho que essa 茅 a 煤nica maneira de tocar de verdade os leitores que se interessam por voc锚.

E depois 茅 o mecanismo de toda carreira liter谩ria; mas os 煤nicos anos importantes s茫o os de anonimato. Ser desconhecido 茅 uma vol煤pia; tem lados amargos 脿s vezes, mas 茅 um estado extraordin谩rio. Durante anos, fui apresentado nos sal玫es 鈥攑orque teve um tempo em que gostava de beber u铆sque e, como n茫o podia comprar, ia 脿s recep莽玫es鈥 como o amigo de Ionesco e de Beckett. Aceitava muito bem essa condi莽茫o. Por que n茫o? Por que ser conhecido?

cadernomais01Pergunta – Por que resolveu de repente escrever em franc锚s?

Cioran – Eu tinha tomado a decis茫o de n茫o voltar mais para a Rom锚nia. Para mim, estava acabado, tudo isso, na verdade, me parecia fazer parte do passado, no sentido absoluto do termo. Eu estava num lugar perto de Dieppe, no litoral, em 1936, e tentava traduzir Mallarm茅 para o romeno. E, de repente, disse para mim mesmo: N茫o tenho o menor dom para isso, e foi subitamente que tomei a decis茫o de escrever em franc锚s.

At茅 ent茫o, curiosamente, eu tinha negligenciado o franc锚s, enquanto que estudava bastante o ingl锚s, cheguei at茅 a seguir o curso para a agr茅gation na Sorbonne. A decis茫o de escrever em franc锚s 鈥攄ecis茫o tomada num minuto鈥 revelou-se muito mais dif铆cil de realizar do que eu pensava. Foi realmente um supl铆cio. Escrevi quatro vezes meu primeiro livro, o que me deu at茅 enj么o de escrever. Depois de escrever o Brevi谩rio de Decomposi莽茫o, me dizia portanto que n茫o valia a pena continuar a me atormentar. Publiquei os Silogismos da Amargura por cansa莽o. N茫o vale a pena fazer frases etc.

Depois, o processo continuou, apesar de tudo, e 茅 preciso dizer tamb茅m que Jean Paulhan me pedia o tempo todo para colaborar na Nouvelle Revue Fran莽aise. Eu prometia, para depois me arrepender, depois queria cumprir minha promessa e foi assim que entrei numa esp茅cie de engrenagem. Aceitava perfeitamente ficar na periferia.

Era totalmente desconhecido, mas isso n茫o tem nada de desagrad谩vel, no fim das contas. S茫o esses os anos de vida de um escritor, o escritor sem leitor 鈥攓ue conhece algumas pessoas e mais nada; isso tem lados desagrad谩veis no plano pr谩tico, mas 茅 a 茅poca da verdadeira escritura, porque voc锚 tem a impress茫o de escrever para voc锚 mesmo.

Pergunta – Houve tamb茅m uma motiva莽茫o pol铆tica que o levou a se desligar do romeno, da Rom锚nia?

Cioran – O que 茅 que eu vou fazer com o meu romeno em Paris? Eu tinha rompido com a Rom锚nia: ela n茫o existia mais para mim. Eu tinha prometido, na Rom锚nia, que faria uma tese 鈥攃oisa que nunca fiz. De todo modo, a Rom锚nia para mim s贸 representava o passado. Ent茫o para que escrever em romeno? E para quem?

E depois, o que eu escrevia nunca teria sido aceito pelo regime. Hoje eles aceitam os meus escritos e publicam o tempo todo meus artigos nas revistas.

Pergunta – 脡 verdade que o sr. foi aberta e fanaticamente antidemocrata no fim dos anos 40?

Cioran – Sabe, a democracia na Rom锚nia n茫o era uma verdadeira democracia. Eu era antidemocrata porque a democracia n茫o sabia se defender. Ataquei a democracia por causa da sua debilidade. Era um regime que n茫o tinha instinto de conserva莽茫o. E eu ataquei algu茅m por quem tinha a maior estima, Juliu Maniu, o chefe dos democratas romanos. Escrevi um artigo em que dizia que Maniu, que 茅 o maior democrata do mundo, devia ter sido chefe de partido na Su茅cia, no pa铆s dos n贸rdicos. Mas n茫o num pa铆s como a Rom锚nia.
A democracia tem que se defender com todos os m茅todos e dar provas de vitalidade. Mas Maniu s贸 lutava com conceitos puros e esses conceitos n茫o t锚m nenhuma chance nos Balc茫s. A democracia foi realmente deficiente na Rom锚nia, n茫o esteve 脿 altura da situa莽茫o hist贸rica. N茫o se pode seguir gente assim, 茅 a utopia encarnada nos Balc茫s, n茫o 茅 poss铆vel. Houve democracia na Rom锚nia, o partido liberal de Maniu, mas nas situa莽玫es dif铆ceis esse tipo de partido n茫o aguenta, eles foram completamente ultrapassados pela hist贸ria.

Pergunta – E a democracia ocidental?

Cioran – H谩 um certo automatismo no Ocidente, seja como for, porque a democracia nasceu aqui, ela pode sobreviver a si mesma. Mas pode desmoronar, nunca se sabe. O drama do liberalismo e da democracia 茅 que nos momentos graves eles est茫o perdidos! J谩 se viu isso. A carreira de Hitler 茅 o resultado da fraqueza democr谩tica. A sua hist贸ria 茅 muito simples.

Pergunta – Qual 茅 a ponte no seu pensamento entre o indiv铆duo e a hist贸ria?

Cioran – Ela se fixa muito mal, pelo mal-estar. N茫o h谩 ponte e o mal-estar se torna a solu莽茫o. Temos que ser l煤cidos como indiv铆duos sabendo, ao mesmo tempo, que o excesso de lucidez torna a vida insuport谩vel. A vida s贸 茅 suport谩vel se n茫o formos 脿s 煤ltimas consequ锚ncias.

Pergunta – Isso 茅 o pensamento indiano que penetrou, para dizer assim, a sua obra? 脡 o sr., de que o sr. fala sempre? Isso marca uma ren煤ncia com rela莽茫o 脿 lucidez e 脿 nostalgia de uma filosofia adormecida?

Cioran – Eu estou al茅m disso tamb茅m, mas o budismo desempenhou, realmente, h谩 uns dez anos, um papel muito importante para mim. Eu sempre fui um pouco budista, se 茅 poss铆vel ser um pouco. Para lhe dizer a verdade: se tivesse escolha, se pudesse optar por uma religi茫o entre todas, seria budista. Deixando de lado alguns pontos, o budismo me parece aceit谩vel e at茅 confort谩vel.

Pergunta – Mas 茅 poss铆vel escolher lucidamente uma religi茫o?

Cioran – 脡 por afinidade secreta, apesar de tudo, que essa escolha 茅 feita; h谩 pontos muito precisos como a vis茫o do sofrimento, que eu aceito; mas a transmigra莽茫o ou outros aspectos do budismo, como aceit谩-los?

脡 preciso pertencer a uma tradi莽茫o para poder subscrever esse tipo de coisa, 茅 preciso partilhar de um certo tipo de pensamento, de concep莽茫o do mundo. Como acreditar na metempsicose, nas etapas da vida, por exemplo? Os dogmas n茫o s茫o aceit谩veis, mas o esp铆rito 茅, perfeitamente. Tudo o que o budismo constata sobre o sofrimento, sobre a morte etc., 茅 aceit谩vel, o lado negativo. E foi esse lado que levou Buda a deixar o mundo.
E depois disso, 茅 a religi茫o que demanda menos f茅. O cristianismo e o juda铆smo exigem coisas muito precisas e se voc锚 se recusa a acreditar nelas est谩 perdido, acabou; o budismo n茫o, aceita compromissos. As raz玫es que levaram Buda a deixar o mundo, podemos aceit谩-las sem dificuldade, com a condi莽茫o de ter a coragem de ir 脿s 煤ltimas consequ锚ncias. O budismo n茫o lhe pede nenhum voto, nenhum reconhecimento, e 茅 por isso que ele est谩 a ponto de ultrapassar o cristianismo.

Pergunta – O sr. ainda passeia muito?

Cioran – Sim, claro.

Pergunta – E vai sempre aos cemit茅rios?

Cioran – N茫o s贸 aos cemit茅rios. Eu tenho, 茅 verdade, um fraco por cemit茅rios; mas hoje em dia os cemit茅rios n茫o s茫o mais bonitos, est茫o sobrecarregados. Quando vejo amigos, mas tamb茅m desconhecidos passarem por momentos de abatimento, de desespero, s贸 tenho um conselho a dar: Passe 20 minutos num cemit茅rio, vai ver que a sua tristeza n茫o vai desaparecer, mas vai ser quase superada.

Outro dia, encontrei uma mo莽a que eu conhe莽o, desesperada por causa de um problema amoroso, e lhe disse: Voc锚 n茫o est谩 muito longe de Montparnasse, v谩 l谩, passe por ali meia hora, vai ver que a sua tristeza lhe parecer toler谩vel.

脡 muito melhor do que ir no m茅dico. Um passeio no cemit茅rio 茅 uma li莽茫o de sabedoria quase autom谩tica. Eu mesmo sempre pratiquei esse tipo de m茅todo; n茫o parece muito s茅rio, mas 茅 relativamente eficaz. O que 茅 que voc锚 vai dizer a algu茅m que est谩 num desespero profundo? Nada ou mais ou menos nada. A 煤nica maneira de suportar realmente esse tipo de vazio 茅 ter consci锚ncia do nada. Sem isso, a vida n茫o 茅 suport谩vel.
Se voc锚 tem consci锚ncia do nada, tudo o que lhe acontece 茅 de propor莽茫o normal e n茫o assume as propor莽玫es dementes que caracterizam o exagero do desespero.

Pergunta – 脡 uma esp茅cie de solu莽茫o cat谩rtica que o sr. est谩 recomendando?

Cioran – Certamente. Precisamos ver o que somos. Eu conheci, por exemplo, muitos jovens escritores que queriam se suicidar por n茫o ter sucesso, o que eu compreendo, a rigor. Mas 茅 muito dif铆cil acalmar algu茅m que chegou nesse ponto. O que 茅 terr铆vel na vida 茅 o fracasso, e isso acontece com todo mundo…

Pergunta – Mas se tira alguma coisa do fracasso? Quando se sobrevive…

Cioran – – 脡 uma li莽茫o extraordin谩ria; mas tem muita gente que n茫o a suporta, e isso em todos os n铆veis, empregados e gente importante. No fim das contas, a experi锚ncia da vida 茅 o fracasso.

S茫o principalmente os ambiciosos, os que fazem um plano de vida que ficam tocados, os que pensam no futuro. 脡 por isso que eu mando as pessoas para o cemit茅rio. 脡 a 煤nica maneira de minimizar uma situa莽茫o tr谩gica.

Pergunta – O sr. disse que agora n茫o escreve mais. Acha que isso vai durar?

Cioran – Eu n茫o sei de nada, mas 茅 muito poss铆vel que n茫o escreva mais. Tenho horror de ver todos esses livros que saem… esses autores que publicam pelo menos um livro por ano… 茅 doentio. Eu acho que n茫o se deve escrever mais, que 茅 preciso saber renunciar.
Hoje isso j谩 n茫o me diverte mais, num certo sentido. 脡 preciso um m铆nimo de entusiasmo, 茅 preciso que haja uma expectativa. E depois eu me digo que j谩 chega de imprecar contra o mundo e contra Deus, n茫o vale a pena…

Pergunta – Mas, em pensamento, o sr. continua a imprecar?

Cioran – For莽osamente. H谩 uma esp茅cie de resigna莽茫o que 茅 o fruto da idade e o cansa莽o 茅 agora um estado muito real que 茅 preciso levar em conta. Podemos sempre escrever e dizer tudo, mas se esse ato n茫o corresponde mais a uma necessidade interior, n茫o passa de literatura.

E isso 茅 o que eu n茫o quero, talvez porque sempre acreditei 鈥斆 o meu lado ing锚nuo鈥 no que escrevia. Isso n茫o 茅 bom, vai mesmo contra a minha vis茫o das coisas, mas tanto pior! 脡 evidente que, se temos consci锚ncia do nada, 茅 absurdo escrever um livro, 茅 at茅 rid铆culo. Por que escrever e para quem? Mas h谩 necessidades interiores que escapam a essa vis茫o, elas s茫o de outra natureza, mais 铆ntimas e mais misteriosas, irracionais; levada ao extremo, a consci锚ncia do nada n茫o 茅 compat铆vel com coisa nenhuma, com gesto algum; a id茅ia de fidelidade, de autenticidade etc, tudo desaparece.

Mas, ainda assim, existe essa vitalidade misteriosa que o leva a fazer alguma coisa. E talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos coisas 脿s quais aderimos sem acreditar 鈥斆, 茅 mais ou menos isso…

Tradu莽茫o de LEDA TEN脫RIO DA MOTA

Sobre Val茅ry: carta de Cioran a M. Barrett

Paul Val茅ryAo final de 1967, a funda莽茫o americana Bollingen, tendo decidido publicar uma edi莽茫o inglesa das obras de Val茅ry, encarrega Jackson Matthews, tradutor de Monsieur Teste, de estabelecer sua vers茫o definitiva. Este 煤ltimo pede ent茫o a Cioran um pref谩cio ao volume dedicado a Poe e a outros coment谩rios liter谩rios. Esse pref谩cio, que, remodelado, tornar-se-ia 鈥淰al茅ry diante de seus 铆dolos鈥 (em Exerc铆cios de admira莽茫o), ser谩 recusado por Jackson Matthews, pois, aparentemente, muito embora o motivo da recusa n茫o tenha sido dado, era muito cr铆tico. 聽Bastante encolerizado, Cioran redige ent茫o uma carta destinada a M. Barrett, o diretor da funda莽茫o, para explicar suas raz玫es. Reproduzimos aqui esse texto in茅dito. (Patrice Bollon)*

.:.

E. M. Cioran

Rue de l鈥橭d茅on, Paris, 6e

Paris, 20 de mar莽o de 1968

Caro senhor Barrett,

Creio ser o meu dever o lhe dar algumas explica莽玫es a prop贸sito do meu pref谩cio. Jackson me havia dito, em Paris, que queria alguma coisa pessoal que suscitasse rea莽玫es, lhe respondi que era assim que eu o imaginava e que meu pref谩cio seria tudo menos neutro. Ele n茫o o 茅, e chega a ser inclusive bastante duro em alguns momentos, maldoso, eu o reconhe莽o, e eis por qu锚: eu pratiquei Val茅ry bastante outrora, e com uma admira莽茫o fervente; essa admira莽茫o foi pouco a pouco diminuindo durante esses dois 煤ltimos meses em que eu o reli. Eu n茫o lhe esconderei que encontrei nele bastante pretens茫o, bastante saber duvidoso, incompet锚ncia e pose: um frasista com g锚nio e nada mais, assim me pareceu. Eu pensava que n茫o era necess谩rio diz锚-lo a voc锚 e que, por amizade a Jackson, eu deveria poup谩-lo – numa palavra, mentir. E ent茫o, deixei-me levar e, por fim, a verdade triunfou sobre a amizade. Devo acrescentar tamb茅m que, normalmente, eu teria escrito um texto bem menos severo; mas o infort煤nio quis que eu relesse Val茅ry ap贸s ter sofrido por algum tempo uma feliz intoxica莽茫o pela filosofia hindu.

Seria igualmente deselegante da minha parte enumerar os motivos que levaram Jackson a recusar meu pref谩cio. Em todo caso, teria sido o seu dever exigir que eu adocicasse algumas partes, que eu fizesse algumas retifica莽玫es; eu teria consentido, mas por nada neste mundo eu teria mudado o fundo. Ou ent茫o teria havido outra solu莽茫o: solicitar um contra-pref谩cio, de modo a suscitar uma discuss茫o e despertar o interesse…

Mas n茫o pretendo me perder em recrimina莽玫es. 脡 perfeitamente natural que eu seja sacrificado j谩 que eu ousei denunciar um falso deus.

Creia, Monsieur Barrett, em meus muito fieis afetos,

CIORAN

* Carta publicada na revista francesa Magazine Litt茅raire n潞 327 (dossi锚 “Cioran – aristocrate du doute”), em dezembro de 1994. Tradu莽茫o do franc锚s: Rodrigo Menezes (03/08/2013)

O princ铆pio de estilo (Patrice Bollon)

Dossi锚 "Cioran, aristocrata da d煤vida" (Magazine Litt茅raire, 12/1994)
Dossi锚 “Cioran, aristocrata da d煤vida” (Magazine Litt茅raire, 12/1994)

Cinismo? Ceticismo? Estoicismo? H谩 uma 鈥渇ilosofia de Cioran鈥? N茫o de maneira sistem谩tica, mas um princ铆pio de autenticidade e de estilo. Da eleg芒ncia como 茅tica…

Por Patrice Bollon*

Artigo publicado na Magazine Litt茅raire (dossi锚 鈥淐ioran, aristocrate du doute鈥) n潞 327, dezembro de 1994

鈥淣ada mais irritante que essas obras nas quais se coordena as ideias densas de um esp铆rito que visa a tudo, menos ao sistema.聽 Para que serve dar uma apar锚ncia de coer锚ncia 脿s de Nietzsche, sob o pretexto de que elas giram ao redor de um motivo central? Nietzsche 茅 uma soma de atitudes, e 茅 rebaix谩-lo buscar nele uma vontade de ordem, uma preocupa莽茫o pela unidade. Cativo de seus humores, ele registrou suas varia莽玫es.聽 Em sua filosofia, medita莽茫o sobre聽 seus caprichos, os eruditos querem聽 discernir as constantes que ela recusa.鈥 Nada f谩cil, ap贸s esta passagem de La tentation d鈥檈xister, evocar como toda a inoc锚ncia uma 鈥渇ilosofia de Cioran鈥. Tanto mais quanto impressiona logo de entrada a impossibilidade quase que radical de vincul谩-lo inteiramente a uma das tr锚s ou quatro grandes tradi莽玫es filos贸ficas derivadas do mundo grego, 脿s quais se resume facilmente o seu pensamento 鈥 todo o resto, sejam os sistemas, n茫o sendo a seus olhos, v茫o exerc铆cio de defini莽茫o, 鈥減equenos universos inveross铆meis鈥.[1]

Um c茅tico singular, com efeito, um 鈥渁ristocrata da d煤vida鈥 mesmo que, a crer nele, n茫o cesse de sentir a falta da for莽a da ilus茫o, ou ent茫o que deplore o colapso desses 鈥減reconceitos鈥 obscuros que fundam as grandes civiliza莽玫es 鈥 inclusive enxergando nesse fato a explica莽茫o de sua 鈥渄ecad锚ncia鈥 鈥, ele que pensa que 鈥渢udo o que conta foi feito fora da d煤vida!鈥[2] Libert谩rio paradoxal, tamb茅m, que faz o elogio dos tiranos 鈥 鈥淯m mundo sem tiranos seria t茫o enfadonho quanto um zool贸gico sem hienas鈥, escreve ele em Hist贸ria e Utopia 鈥, concebe a liberdade como um 鈥渧铆rus鈥 altamente destrutivo, e, ainda assim, chega a fazer louvores a Torquemada e a Nero! Um estoico n茫o menos surpreendente, enfim, admirador de Marco Aur茅lio, que n茫o pode 鈥 e menos ainda quer 鈥 refrear seus instintos, confessando em De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅: 鈥淣茫o mais lerei os s谩bios. Eles me fizeram muito mal. Eu deveria ter me entregado aos meus instintos, deixar florescer a minha loucura. Fiz todo o contr谩rio, pus a m谩scara da raz茫o, e a m谩scara terminou por substituir o rosto e por usurpar o resto鈥!

De fato, 茅 quase o Cioran inteiro que seria necess谩rio citar para dar-se conta dessa posi莽茫o propriamente insustent谩vel e inclassific谩vel que afirma no mesmo movimento tanto a necessidade da lucidez mais extrema e a necessidade da ilus茫o mais sombria, tanto a busca quietista da sabedoria e o recurso primitivo aos instintos, tanto ao el茫 m铆stico quanto o apego ao materialismo ou, a fortiori, tanto o progresso quanto a inelutabilidade rom芒ntica da revolta…

Uma 鈥渟oma de atitudes鈥, uma 鈥渕edita莽茫o sobre seus caprichos鈥 鈥 n茫o s茫o estas perfeitas defini莽玫es de sua maneira de pensar? Conforme comenta Susan Sontag, em Sob o signo de Saturno, o estilo afor铆stico de Cioran difere, com efeito, daquele da grande escola moralista de Chamfort e La Rochefoucauld na medida em que, representando 鈥渕enos um princ铆pio ontol贸gico que um princ铆pio epistemol贸gico鈥, ele 鈥渕anifesta que o destino de toda ideia profunda 茅 de ser rapidamente 鈥榙errotada鈥 por uma outra, cuja exist锚ncia estava implicitamente contida na primeira鈥. Pensar tornar-se assim, para ele, 鈥渦ma confiss茫o, um exorcismo鈥, no qual toda ideia de verdade definitiva, ultima, s贸 pode, por defini莽茫o, estar ausente, a favor da representa莽茫o de um balan莽o cont铆nuo, inevit谩vel, entre um postulado e todos os limites que o exerc铆cio da lucidez lhe imp玫e. Em suma, no horizonte de Cioran n茫o h谩 nada de 鈥渇ilosofia鈥 no sentido pr贸prio do termo, e menos ainda, certamente, de 鈥渟istema鈥; em vez disso, uma 鈥渟oma de atitudes鈥 voluntariamente, dir-se-ia necessariamente contradit贸rias, j谩 que refletem os meandros de uma alma atormentada pela busca de 鈥渟ua鈥 verdade.

O que Cioran n茫o apenas ilustrou incessantemente em seus aforismos, mas tamb茅m, mais de uma vez, se n茫o 鈥渢eorizou鈥, ao menos 鈥減ensou鈥 鈥 e isso, desde seus primeiros livros 鈥, at茅 fazer disso uma raz茫o de rejeitar a filosofia.聽 Assim, pode-se ler, no Brevi谩rio de decomposi莽茫o, um 鈥渁deus 脿 filosofia鈥 particularmente violento, ao qual se op玫e, alguns cap铆tulos depois, um elogio de evidencia autobiogr谩fica do 鈥減ensador de ocasi茫o鈥. 鈥淎quele que pensa quando quer鈥, escreve assim Cioran numa veia que faz lembra r Schopenhauer de Contra a filosofia universit谩ria, 鈥渘茫o tem nada a dizer-nos: est谩 acima, ou melhor, 脿 margem de seu pensamento, n茫o 茅 respons谩vel por ele, nem est谩 em absoluto comprometido com ele, pois n茫o ganha nem perde num combate em que ele mesmo n茫o 茅 seu pr贸prio inimigo. N茫o lhe custa nada crer na Verdade.鈥 O que equivale, para Cioran, a definir implicitamente sua pr贸pria atitude de 鈥減ensador de ocasi茫o鈥, cujas verdades, n茫o sendo mais que os 鈥渟ofismas de (seu) entusiasmo ou de (sua) tristeza鈥, formam com ele uma s贸 realidade, lado prazeres assim como lado sofrimentos: 鈥淭udo o que concebi se resume a mal-estares degradados em generalidades鈥.

Condenado a 鈥渟e constatar, como os enfermos e os poetas鈥, n茫o saberia o pensador jamais ser outra coisa que uma esp茅cie de 鈥渟ecret谩rio de suas sensa莽玫es鈥, cronista-memorialista de sua alma, cujo prop贸sito residiria t茫o-somente no estabelecimento de verdades altamente subjetivas e marcadas pelo instante em que elas se imp玫em a ele, portanto transit贸rias e flutuantes? Cioran n茫o hesita em ir ainda mais longe, fazendo da contradi莽茫o a 煤nica mat茅ria poss铆vel do pensamento: 鈥淯m esp铆rito s贸 nos cativa鈥, escreve ele ainda no Brevi谩rio de decomposi莽茫o, 鈥減or suas incompatibilidades, pela tens茫o de seus movimentos, pelo div贸rcio de suas opini玫es e suas tend锚ncias. […] Um pessimista sem entusiasmos, um agitador de esperan莽as sem amargura, merece apenas desprezo. S贸 茅 digno de nosso apego quem n茫o tem nenhum respeito com seu passado, com o decoro, a l贸gica ou a considera莽茫o […] Ap贸stolo de suas flutua莽玫es, j谩 n茫o se embara莽a com um si mesmo ideal; seu temperamento constitui sua 煤nica doutrina, e o capricho de cada hora seu 煤nico saber.鈥

Em suma, poder-se-ia satisfazer-se de fazer de Cioran um destes 鈥減ensadores鈥 do capricho (em oposi莽茫o a 鈥渇il贸sofo鈥, por defini莽茫o, mais 鈥渙bjetivo鈥) destinado aos escritores (鈥淥s fil贸sofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores鈥, 脡cart猫lement), ou ainda 鈥 filia莽茫o evidente e que ele reivindica em diversos momentos de sua obra 鈥 um 鈥渃铆nico鈥 no sentido grego, original, do termo, seja, como o definiu Peter Sloterdijk em sua Cr铆tica da Raz茫o C铆nica, uma 鈥渕铆mica鈥 de seu pr贸prio metabolismo f铆sico e mental; e tudo seria dito sobre sua 鈥渇ilosofia鈥. Nada evidente, contudo. Pois esse 鈥減rocesso de pensamento鈥, conforme o nomeia justamente Susan Sontag, que seus aforismos retra莽am fielmente, 脿 maneira de um sism贸grafo, n茫o apenas comporta diversas 鈥渃onstantes鈥, mas tamb茅m desenha, talvez, sen茫o um sistema ou um esbo莽o de sistema, uma 鈥渧ia鈥 filos贸fica (da mesma maneira que esse budismo que ele constantemente evoca fala de um 鈥渃aminho鈥 do despertar).

Desafiando o interdito que impedia seu desenvolvimento sobre Nietzsche, voltemo-nos, para definir essa via, ao parece que parece ser muito bem a contradi莽茫o fundamental de Cioran: o combate da lucidez contra a f茅, e, mais ainda, do ceticismo contra um vitalismo jamais renegado desde seus primeiros livros romenos 鈥 notadamente, o bastante rom芒ntico Nos cumes do desespero. Desse 鈥渆squartejamento鈥 (茅cart猫lement), que deveria inclusive fornecer-lhe significativamente o t铆tulo de um de seus livros, nasce, com efeito, todo o seu pensamento, tanto no que concerne 脿quela que se poderia apontar como sendo sua posi莽茫o pol铆tica, a meio-caminho, quase 鈥 na medida em que isso for poss铆vel 鈥 no meio entre um ceticismo conservador e um anarquismo revoltado, quanto a sua atitude diante de Deus, dividida entre o respeito do divino e um el茫 m铆stico, por um lado, e o ate铆smo, dir-se-ia uma vontade blasfemat贸ria, por outro 鈥 e n茫o 茅 uma das 煤ltimas senten莽as que ele escreveria, em Aveux et Anath猫mes, este verdadeiro slogan anarquista? 鈥淓nquanto ainda houver um s贸 deus de p茅, a tarefa do homem n茫o ter谩 terminado.鈥

N茫o haveria, n茫o se poderia ent茫o haver ai alguma 鈥渞esolu莽茫o鈥 鈥 no sentido de que se fala, na m煤sica, de um acorde 鈥渞esolvido鈥 (un accord r茅solu) 鈥 a esse conflito central, que implica fatalmente a suspens茫o, a absten莽茫o de todo ju铆zo, e, portanto, a uma esp茅cie de deser莽茫o da vida? E convergiria tudo a esse pessimismo integral, a esse reconhecimento do sem-sentido de tudo, ao qual a maioria dos comentadores de Cioran, em 煤ltima inst芒ncia, parece se resignar? Eis, aparentemente, uma interpreta莽茫o insuficiente, que consiste no objeto mesmo, da parte do interessado, em diversas partes de sua obra,… de uma refuta莽茫o em sua devida forma! 鈥淨uanto mais leio os pessimistas鈥, escreveu ele ent茫o em 1937, em L谩grimas e Santos, 鈥渕ais eu amo a vida. Ap贸s uma leitura de Schopenhauer, reajo como um noivo. Schopenhauer tem raz茫o de dizer que a vida n茫o passa de um sonho. Mas ele comete uma inconsequ锚ncia grave quando, em vez de encorajar as ilus玫es, as desmascara levando a crer que existiria algo por detr谩s delas.鈥 Em suma, mesmo o pessimismo n茫o saberia oferecer, aos olhos de Cioran, um horizonte ao seu pensamento, ao pensamento em geral!…

De fato, um princ铆pio permite superar bem todas essas contradi莽玫es incessantes que Cioran vive e exprime: a necessidade de lhes dar uma voz, seja a busca de uma autenticidade imediata, de uma 鈥渆leg芒ncia moral鈥 (鈥淎 verdadeira eleg芒ncia moral reside na arte de transformar suas vit贸rias em derrotas鈥, 脡cart猫lement), que reflete tamb茅m a eleg芒ncia da express茫o: em suma, aquilo que se poderia nomear de um 鈥減rinc铆pio de estilo鈥. Seria necess谩rio, ent茫o, paradoxalmente, ir em dire莽茫o a isso que se considera habitualmente como um 鈥減lus鈥, ou um simples 鈥渆nvelope鈥 de uma obra para descobrir tanto o centro verdadeiro quanto a contribui莽茫o 煤ltima da obra de Cioran: o estilo.

Para convencer-se disso, conv茅m reler, certamente com um m铆nimo de perversidadef, o que permanece sem d煤vida o mais belo, ainda que aparentemente o mais exc锚ntrico, o mais 鈥渁ntiquado鈥, nem mesmo isento de certa insol锚ncia, dos seus Exerc铆cios de admira莽茫o: aquele que ele consagra ao pensador que, por seu quietismo e sua modera莽茫o, parece o mais distante dele, Val茅ry. Em 鈥淰al茅ry diante de seus 铆dolos鈥, encontra-se, com efeito, em estado de esbo莽o, todo um pensamento do v铆nculo que pode unir lucidez e materialismo, de um lado, e poesia e misticismo, de outro. Nesse verdadeiro 鈥減eda莽o de bravura鈥, no qual seu estilo, talvez, nunca tenha sido significativamente t茫o brilhante, Cioran tra莽a um paralelo entre a ascese que representa a exig锚ncia da lucidez e 鈥渙 grau de despertar que toda experi锚ncia espiritual sup玫e鈥 鈥 sendo que a 煤nica e mais radical diferen莽a entre os dois 茅 que a primeira se situa 鈥para c谩 do absoluto鈥, enquanto que a segunda, 鈥渜ue 茅 propriamente a via m铆stica鈥, busca o despertar 鈥渆m vista do absoluto鈥: 鈥渢odo analista impiedoso, todo denunciador de apar锚ncias, e com maior raz茫o todo 鈥渘iilista鈥, n茫o 茅 mais do que um m铆stico bloqueado, e isso porque se recusa a dar um conte煤do a sua lucidez, dirigi-la no sentido da salva莽茫o, associando-a a um des铆gnio que a ultrapassa鈥.

Um 鈥渕铆stico bloqueado鈥, e quase, poder-se-ia acrescentar, sem contradi莽茫o, um 鈥渕铆stico realista鈥, uma vez que para ali onde recome莽aria a ilus茫o: n茫o seria essa a melhor defini莽茫o 鈥 quase um autorretrato 铆ntimo 鈥 de quem, como Cioran, busca na lucidez um princ铆pio superior? Assim poder-se-ia definir o espa莽o de uma resolu莽茫o de suas contradi莽玫es, em suma, o horizonte de uma filosofia 鈥 a saber, uma esp茅cie de 鈥溍﹖ica da eleg芒ncia鈥, n茫o muito distante, na聽 verdade, do famoso 鈥渆st谩gio est茅tico鈥 de Kierkegaard, por茅m, ultrapassando-o, e cujo 鈥渕odelo hist贸rico鈥 deveria ser buscado tanto na Gr茅cia revisitada por Nietzsche quanto nessa Fran莽a do s茅culo XVIII com a qual Cioran tanto sonhara e na qual tanto se obstinara, por meio da escritura, a ressuscitar.

Nada f谩cil, certamente, fixar uma mat茅ria t茫o vol谩til quanto essa 鈥渇ilosofia do estilo鈥. O melhor que se pode fazer 茅 circunscrever os limites com a ajuda de algumas m谩ximas. 鈥溍 f谩cil ser 鈥榩rofundo鈥; basta deixar-se invadir pelas pr贸prias taras鈥, escreve Cioran nos Silogismos da Amargura. No mesmo movimento em que afirma a necessidade da lucidez, Cioran se recusa a deixar-se enredar-se nas profundezas que, 鈥渟endo naturalmente sem fundo, n茫o podem levar a nenhum lugar鈥 (Brevi谩rio). Por que, a partir de ent茫o, n茫o prestar culto 脿s apar锚ncias, como a este fim poderia conduzir essa outra frase famosa, ela tamb茅m extra铆da dos Silogismos: 鈥淪onho com um mundo em que se morreria por uma v铆rgula鈥? 脡 porque para Cioran, o realista, isso seria bascular uma vez mais numa realidade t茫o profunda quanto aquelas que, por outro lado, ele denuncia.

Todas essas ideias n茫o s茫o, em realidade, novas: elas j谩 se encontram na introdu莽茫o da Gaia Ci锚ncia de Nietzsche, quando este observa que os gregos souberam ser 鈥渟uperficiais por profundidade鈥. Quanto 脿 ascese que representa o estilo, era ela que autorizou Baudelaire a identificar no d芒ndi um herdeiro dos estoicos. Como n茫o perceber, ent茫o, na reivindica莽茫o de Cioran da 鈥渋nutilidade鈥 鈥 sem d煤vida, uma das palavras que mais incidem sob sua pena 鈥, um eco de certos motivos de O meu cora莽茫o a nu: 鈥淪er um homem 煤til pareceu-me sempre algo de muito hediondo鈥? Como o artista, para Baudelaire, o pensador l煤cido, para Cioran, n茫o podendo decidir por nenhuma posi莽茫o definitiva que seja, 茅 o homem est茅ril por excel锚ncia, que inclusive extrai de sua esterilidade reivindicada o seu valor, ou seja, poder-se-ia dizer, seu 鈥渉ero铆smo鈥. A 煤nica diferen莽a 茅 que, em Cioran, para parafrasear o c茅lebre aforismo de Baudelaire, 鈥淭u me deste tua lama e eu a transformei em ouro鈥, o 鈥渙uro鈥 da linguagem conserva, deve conservar um resto de 鈥渓ama鈥 metaf铆sica 鈥 o que se situa para al茅m do dandismo: nessa esp茅cie de 鈥渟antidade civil鈥, que era, ademais, para os estoicos, a defini莽茫o da realiza莽茫o filos贸fica e que Cioran nunca cogitou reivindicar para ele mesmo, preferindo, em seus Exerc铆cios de admira莽茫o, elegante no mais alto n铆vel, exalt谩-la como Wittgenstein ou como seu amigo Beckett…

*Tradu莽茫o do franc锚s: Rodrigo Menezes (02/08/2013)


[1] Exerc铆cios de admira莽茫o.

[2] De l鈥檌nconvenient d鈥櫭猼re n茅.

Cioran 茅 herdeiro dos c茅ticos, de Nietzsche a Dostoi茅vski

C脕SSIO STARLING CARLOS, Editor-adjunto da Ilustrada — Caderno Mais!, Folha de S茫o Paulo, 17 de fevereiro de 1995

Se 茅 correto, como afirmam a maioria dos seus exegetas, filiar o fil贸sofo E.M. Cioran 脿 corrente dos chamados pessimistas e dos c茅ticos, o romeno seria herdeiro de uma linhagem t茫o antiga quanto o pr贸prio pensamento.

Pregadores de uma verdade absoluta capaz de resistir at茅 ao ultrapassamento imposto pelo tempo, os fil贸sofos sempre estiveram perigosamente sujeitos ao canto de sereia do ceticismo, resultado quase sempre do fracasso de seus projetos herc煤leos.

Desde os gregos, mais especificamente, desde S贸crates, que o otimismo em rela莽茫o 脿 verdade e 脿 raz茫o 茅 encarado com reservas. N茫o foi a obsess茫o socr谩tica pela verdade que justificou a puni莽茫o do fil贸sofo com a pena de morte? Como resultado, toda uma gera莽茫o que se seguiu, a dos c茅ticos gregos, inclinou-se para o partido oposto ao de S贸crates, aquele que encontra na desesperan莽a seu pr贸prio alimento.

Os c茅ticos gregos, contempor芒neos da variante cientificista consolidada a partir do aristotelismo, representam o 谩pice da radicalidade que o pensamento 茅 capaz. A “茅poch茅”, algo que se poderia traduzir como “suspens茫o do ju铆zo”, 茅 de fato o reconhecimento tr谩gico da fal锚ncia do pensamento. Diante de um mundo que se recusa a colaborar na produ莽茫o das certezas, a 煤nica atitude do c茅tico 茅: “N茫o afirmo, nem nego”. Nesta dupla recusa, 茅 o pessimismo que vai fincar suas ra铆zes na tradi莽茫o ocidental.

Indiretamente, 茅 a铆 que se encontram as origens do pensamento de Cioran. Influ锚ncias diretas encontraremos a partir da segunda metade do s茅culo 19.

O movimento 茅 semelhante. Hegel estabelecera um modelo de descri莽茫o do pensamento verdadeiro capaz de resistir ao tempo. Ao contr谩rio da eternidade congelada e morta, uma verdade din芒mica, capaz de converter o devir, grande inimigo, em principal aliado. O m茅todo: a dial茅tica. Se tudo se move, porque n茫o fazer a verdade acompanhar o movimento e assimilar o devir das coisas?

Mas um novo monstro 鈥攐 Absoluto鈥 acabou sendo constru铆do para servir de substrato a tudo que muda, para unificar em seu seio a totalidade da varia莽茫o dando a ela um sentido final. 脡 contra esta totalidade, que engole as parcialidades, 茅 que v茫o se levantar tr锚s gigantes intelectuais do s茅culo passado: Schopenhauer, Nietzsche e Kierkegaard.

Contra o otimismo teleol贸gico da dial茅tica hegeliana, eles op玫em o pessimismo do individual, do singular que resiste a qualquer amea莽a de devora莽茫o pelo Absoluto. A ordena莽茫o demasiado perfeita do pensamento parece suspeita a estes fil贸sofos, que descartam a farsa da certeza em proveito de uma parcialidade n茫o mais verdadeira, mas menos falsa.

Nestes casos, o pessimismo n茫o 茅 um parti pris afetivo que contamina o pensamento, ele 茅 uma conclus茫o extra铆da do pr贸prio fracasso hist贸rico das tentativas de se estabelecer uma verdade absoluta.

Em um de seus livros mais interessantes e menos conhecidos, “As L谩grimas e os Santos”, Cioran declara: “N茫o h谩 nada mais f谩cil que se livrar da heran莽a filos贸fica, pois a filosofia tem ra铆zes que se fixam em nossas incertezas, enquanto as ra铆zes da santidade ultrapassam em profundidade o pr贸prio sofrimento. A suprema coragem da filosofia 茅 o ceticismo. Al茅m dele, ela reconhece apenas o caos. Uma filosofia s贸 escapa da mediocridade por meio do ceticismo e do misticismo, estas duas formas de desespero frente ao conhecimento. O misticismo 茅 uma evas茫o para fora do conhecimento, o ceticismo 茅 um conhecimento sem esperan莽a. Duas maneiras de dizer que o mundo n茫o 茅 uma solu莽茫o”.

Por outro lado, o pessimismo como sentimento e como atitude face ao mundo, Cioran o recebe atrav茅s da literatura de Dostoi茅vski e de seus her贸is devastados pela melancolia. A “psicologia” dostoievskiana 茅 o ponto em torno do qual Cioran vai orbitar ao longo de toda a sua obra.

Com Nietzsche, al茅m da descren莽a, Cioran compartilha a forma adotada em seus escritos. O formato da m谩xima aforism谩tica que o alem茫o imitou dos moralistas franceses do s茅culo 18 (sobretudo de La Rochefoucauld e Pascal) vai ser a mesma adotada por Cioran j谩 nos primeiros escritos.

Em “No Cume do Desespero”, seu primeiro livro, publicado em 1934, Cioran utiliza a f贸rmula do texto curto, onde a intensidade do sentido deriva em propor莽茫o direta do seu estilo depurado. Os textos deste livro lembram com frequ锚ncia o formato mais longo que Nietzsche utilizou em “Aurora”. O investimento no conceito de individualidade (da qual o aforismo 茅 o reflexo formal, como se tudo, inclusive a escrita, devesse ser concebido como fragment谩rio) revela, sem subterf煤gios, a vis茫o de mundo do autor.

No texto intitulado “N茫o Poder Mais Viver”, Cioran escreve: “O paroxismo das sensa莽玫es, o excesso de interioridade nos arrastam para uma regi茫o eminentemente perigosa, j谩 que uma exist锚ncia que adquire uma consci锚ncia demasiado viva de suas ra铆zes s贸 acaba por negar a si mesma”.

Pelo menos aqui estamos longe da filia莽茫o que se costuma sustentar entre Cioran e o existencialismo. Se no existencialismo a subjetividade funciona como um fundamento para o conhecimento e a liberdade (portanto, tem car谩ter positivo), para Cioran o investimento na subjetividade 茅 o caminho mais r谩pido para a dissolu莽茫o do sujeito, para a efetiva莽茫o do compromisso com a morte ao qual nenhum homem faltar谩.

Nem mesmo a loucura, ainda sedutora para Nietzsche como manifesta莽茫o do vigor dionis铆aco, atrai Cioran. “A loucura nos faz perder nossa especificidade, tudo o que nos individualiza no universo, nossa perspectiva pr贸pria, o giro particular de nosso esp铆rito”, escreve ele em outro texto de “No Cume do Desespero”. “A morte tamb茅m nos faz perder tudo, com a exce莽茫o que a perda resulta de uma proje莽茫o no nada. Assim, se bem que persistente e essencial, o medo da morte 茅 menos estranho que o medo da loucura, onde nossa semipresen莽a 茅 um fator de inquieta莽茫o bem mais complexo que o temor org芒nico da aus锚ncia total experimentada diante do nada. A loucura n茫o seria ent茫o um meio de escapar das mis茅rias da vida? Esta quest茫o s贸 encontra justificativa no plano te贸rico, pois, na pr谩tica, aquele que sofre certas ang煤stias considera o problema sob uma luz 鈥攐u melhor, sob uma sombra鈥 diferente. O pressentimento da loucura se duplica no medo da lucidez na loucura, onde a intui莽茫o do desastre arrisca engendrar uma loucura ainda maior. 脡 por isso que n茫o h谩 salva莽茫o atrav茅s da loucura. Adorar铆amos o caos, mas temos medo de suas luzes”.

Por fim, Sissi, a imperatriz, 茅 o mais surpreendente dos nomes que exerceram influ锚ncia sobre Cioran. Apesar da do莽ura do olhar de Romy Schneider, o cinema n茫o apagou a verdadeira personalidade da imperatriz, que ressurge atrav茅s do encantamento de Cioran.

Que eu me lembre o cinema n茫o contou que a imperatriz compartilhava com o romeno a admira莽茫o por Schopenhauer, nem que seu cavalo favorito foi batizado por ela com o nome de Niilista.