“Sobre la realidad del cuerpo” (M. Liliana Herrera)

Religare 10 (1), 1-3, Março de 2013

Dossiê Cioran e a religião [+]

M. Liliana Herrera A. (Universidad Tecnológica de Pereira, Colombia)

Alma se tiene a veces.
Nadie la posee sin pausa y para siempre.
Wislawa Szymborska

Una reflexión contemporánea sobre el cuerpo y la enfermedad realmente sugestiva por su aspereza, es la que ha elaborado Cioran. Y no es que haya algo totalmente original en ella. Lo que llama la atención es la exacerbación con la que trata el tema, el rencor de enfermo que exhibe, la acritud de su sinceridad no carente, sin embargo, de lirismo. Pero también, y para ser justos, no se trata únicamente de la admiración que causa un estilo literario como el suyo. Sus imprecaciones parecerían ser la versión literaria de una idea que cada vez está más cerca de ser probada a plenitud: la de que la consciencia también es fruto de la evolución y no un fenómeno extravital. Esta teoría, (chocante, sí, para muchos) otorga una ocasión para pensar en un acontecimiento maravilloso aunque absurdo porque es, a todas luces, cruel, como es el de la persistencia, diríase viciosa, abrumadora de la vida y, en particular, la configuración que por azar, por una solución simplemente ad hoc – como afirma uno de los investigadores sobre el tema – a la que se vio impelido el cerebro mamífero para ganarse así la supervivencia y la de la especie que se hizo humana… [+]

“Triste com método”, por Constantin Zaharia

modedemploiTristeza, desespero, tédio, amargura, ou ainda o dor, espécie de saudade romena… O escritor experimentou todos os graus da melancolia, indissociável do pensamento.

Por Constantin Zaharia

Artigo publicado no dossiê “Cioran: désespoir, mode d’emploi”, da Magazine Littéraire, maio de 2011

Derivado do latim dolus, o dor romeno pode ser traduzido em francês por “nostalgia”. A palavra, no entanto, é carregada de sentidos difíceis de transpor a outro idioma. Em romeno, a expressão mi-e dor de… significa a falta provocada geralmente pela ausência de um ser querido e pelo desejo de revê-lo. Pode exprimir o amor ou a amizade. Ademais, o uso é pouco frequente em outros contextos, sobretudo no meio citadino, pois o dor participa de uma estética e de uma experiência criadora que são aquelas da cultura popular, essencialmente rural. Durante séculos, a sensibilidade campesina se manifestou por meio da poesia e da canção, notadamente a doina, próxima de uma tonalidade elegíaca, na qual o dor encontra definitivamente o seu lugar.

Desenraizamento metafísico

O dor, portanto, é mais ambíguo que a nostalgia: remete tanto ao passado quanto ao futuro; o lamento do impossível retorno in illo tempore não é obrigatório. É um desejo mesclado ao sofrimento, uma aspiração que não conhece realização, pois aquele que a experimenta se situa numa indeterminação da qual não conhece as possibilidades de realização. Ele só pode pressenti-la, mas não exige sua manifestação. O objeto do dor é fundamentalmente indefinível. Viver aquilo que se deseja tornar-se como um doce sofrimento é mais importante que ver seus desejos realizados, pois a qualidade desse langor é superior ao que se pode obter pela obtenção dos seus desejos.

Cioran raramente empregada a palavra romena dor, exceto para se entregar a uma espécie de exercício daquilo que ele chama “a apreensão da essência dos povos por sua maneira de participar do vago.” Sua análise contém uma crítica implícita ao espaço romeno. Ele considera a palavra como a expressão do desenraizamento metafísico: “O dor é, justamente, sentir-se eternamente distante de casa.” É um abandono em nome de uma indeterminação que adquire dimensões mais gerais ainda, pois se chega a não ser já de nenhum lugar. “Dir-se-ia que a alma não se sente mais consubstancial com o mundo. Então ela sonha com tudo o que perdeu. É a negação da coragem trágica, do abandono no combate.” De todas as utopias do coração, a mais estranha é a do dor, que evoca “um universo natal, onde se repousa de si mesmo, um universo-travesseiro cósmico de todas as nossas fadigas.” (Éxercises négatifs, p. 119) Considerada a essência melancólica do dor, é estranho que Cioran não lhe faça referência de maneira mais explícita quando afirma: “Sou um lamento ambulante, e a nostalgia devora meu sangue e se devora ela mesma” (Cahiers, p. 72), tanto mais é por ele perseguido. Acontece de ele inclusive nomear, nessas situações, seu país e sua infância.

“Despertar para o atroz”

O horizonte afetivo do pensamento de Cioran é a melancolia. Uma multidão de ideias próximas, que são todas sinonímicas, irrompem de seus escritos para designar os sofrimentos inauditos, que nenhum remédio é capaz de aliviar. Ele suporta um a um os tormentos do tédio e da melancolia (cafard), da acídia e da preguiça, do ódio e do rancor, do desespero e da angústia, do remorso e da tristeza, e uma lista de equivalentes inventados para nomeá-la está longe de se esgotar. É uma experiência de uma riqueza fecunda, que começa na adolescência, uma vez que ele se torna insone. É a perda do sono que implica o “despertar para o atroz” (Cahiers, p. 677) e a revelação de verdades insustentáveis que conduzem ao desespero e legitimam a distância em relação aos homens, da civilização, de Deus.

Antes de ser um estado de espírito ou um temperamento, a melancolia é um humor (mélaina cholé significa, em grego antigo, “bílis negra”), um produto fisiológico que desempenhava um papel determinante na medicina hipocrática, fundada em um sistema de quatro humores (sanguíneo, bilioso, melancólico, fleumático). Como o humor se evade do domínio médico?

As virtudes da bílis negra

O Problema XXX, 1, atribuído a Aristóteles,[1] estabelece uma ligação estreita entre o temperamento negro, responsável por tantos danos, segundo Hipócrates, e o homem excepcional, seja ele artista, filósofo, político ou herói. A proposição de Aristóteles não é médica; ele não se detém sobre os detalhes nosológicos. Para ele, é o caráter cambiante da bílis negra que vai explicar a eminência do melancólico; é preciso ainda que este o seja por compleição natural, e não por um excesso sobrevindo acidentalmente. Esta relação entre a melancolia e o homem de gênio, estabelecida pelos peripatéticos, será retomada nas Cartas do pseudo-Hipócrates,[2] e transmitida pela tradição em diferentes formas. Entretanto, é somente a partir do Renascimento que a melancolia é necessariamente associada ao criador. Da Melencolia de Dürer aos langores românticos, numerosos foram os deslocamentos que modificaram seu sentido, sem transformá-lo fundamentalmente. Mais receptivo às contribuições que às metamorfoses espetaculares, e sobretudo fiel à sua transversalidade, a ideia de melancolia permaneceu associada ao medo e à tristeza, como o quer o aforismo VI, 23, de Hipócrates, e conjuntamente ao entusiasmo, ou seja, à violência sob suas formas mais variadas, como o sugere o Problema de Aristóteles: veemência, ressentimento, ódio ou furor.

Quando Cioran evoca “a amargura das entranhas” (Cahiers, p. 214), ou a “lógica do fel” (Oeuvres, p. 767), ou ainda quando menciona o inesgotável gosto de vinagre no seu sangue (Oeuvres, p. 1244), ele se situa na tradição do humorismo. Fiel ao mal secreto que o devora, ele é o primeiro a saber que só triunfará provisoriamente sobre ele, e que a bílis negra, não importa o que ele faça, estará sempre lá para acompanhá-lo no desespero, na tristeza ou no cafard alojado em seu sangue. “De onde pode derivar essa tristeza desumana? Vejo sua causa num duplo desastre: metafísico e psicológico.” (Cahiers, 357), explica ele se refugiando a cama e cobrindo sua cabeça para esquecer os assaltos do “cafard cósmico”. O “desastre fisiológico” não passa de um eufemismo pelo qual Cioran afirma a natureza em parte humorosa de sua tristeza desumana.

O que Kant ou Hegel não podem saber

A melancolia se torna o segundo plano em que se elabora um saber que a filosofia não está à altura de apreender nem de transmitir o alcance. Cioran reage diversas vezes à tradição filosófica, para denunciar sua vaidade e se posicionar na contracorrente, como ele gosta de fazer em todas as circunstâncias. Ele considera o pensamento de Kant ou de Hegel, entre outros, com a ironia de quem sabe mais sobre a vida do que qualquer outro filósofo. Ele lhes opõe o pavor do troglodita diante do “desfile de calamidades que se desenrolam sob seus olhos.” (Oeuvres, p. 1258), e denuncia sobretudo a equanimidade que eleva ao conhecimento o prestígio de ter sofrido para ter chegado lá. Aquele que desde sua juventude se propõe a “estar triste com método” (Oeuvres, p. 219) continuará sofrendo sua autoridade sem se apartar para tantas fontes de reflexão, o que não o impedirá de proclamar que é “um Mongol devastado pela melancolia” (Cahiers, p. 34), quanto mais sofre “acessos de melancolia de que o Diabo mesmo ficaria com inveja” (Cahiers, p. 219).

É o caso de se espantar que a nuance afetiva de tudo o que Cioran escreveu seja aquela da tristeza? Que ele não tenha nunca formulado uma só frase para exprimir a alegria ou a felicidade? A literatura dos moralistas, pela qual Cioran é aficionado ao ponto de considerá-la seu modelo, exprime com frequência a decepção, tonalidade bastante próxima do taedium vitae que o autor dos Silogismos da Amargura praticava ativamente. À exceção de que Cioran lhe atribui um papel heurístico inédito: “Abomino toda ideia indiferente: não estou triste sempre, logo, não penso sempre” (C., p. 666). Ele escreve para designar-se precisamente como “antifilósofo” e para dizer também que não existe pensamento fora da tristeza, que tudo o que concebe o espírito está impregnado dela, que a própria escrita não existiria na ausência de tudo o que a melancolia o faz suportar.

Tradução do francês: Rodrigo I. R. Sá Menezes

“Para que ler?”, por Nicolas Cavaillès (Dossiê Cioran/Magazine Littéraire)

Cioran na Magazine LittéraireGrande leitor, Cioran parecia assim desmentir seu pessimismo: se ele ainda buscava, devia muito bem permanecer uma sombra de esperança. Mas ele não estava à procura de argumentos salvadores, e sim de irmãos de fatalismo.

Por Nicolas Cavaillès

Texto publicado no dossiê “Cioran: désespoir, mode d’emploi”, Magazine Littéraire no. 508, Maio de 2011

A absurdidade de uma vida passada a vasculhar bibliotecas em busca de novas expressões para antigas verdades sem dúvida ultrapassa aquela de sua proclamação lancinante, por vezes explosiva e nuançada, sempre mais decepcionada, distante e cinzelada. Filho do pessimismo germânico fim de século, de Schopenhauer e sua sucessão (Cioran segue os cursos de Nicolai Hartmann em Berlim, entre 1933 e 1935), discípulo entusiasta dos profetas da decadência que Nietzsche queria derrotar, o escritor em seguida tomaria cuidado, na França, de colocar entre aspas essa palavra que se lançava outrora como um insulto: “pessimista” equivalia a “canalha”. Não obstante ele conheceu todas as hipóstases que os raros aristarcos do pessimismo inventariaram: pessimismo especulativo ou espontâneo (James Sully, 1877), cultural, metafísico ou existencial (J. F. Dienstag, 2006), ou ainda pessimismo hexaédrico (Georges Palante, 1914), de cujo detalhe poupamos o leitor para melhor nos inspirar nele na frase seguinte. Assim, ao pessimismo nevropático e niilista da juventude de Cioran, resultante tanto de um drama existencial pessoal quanto de uma reflexão antropológica sobre a história e seu “sentido trágico”, se seguirá  um pessimismo da maturidade, não menos fatalista (à romena), fruto de uma misantropia desabrochada (aquela de um Chamfort, de um Swift), confortada por suas visões obscuras sobre a história (por Valéry, por Maquiavel), e avivado por uma atenção especial em relação às sabedorias orientais, inclusive em relação à ciência e suas últimas lições: “Tendo aberto uma antologia de textos religiosos, caí logo de cara nessas palavras do Buda: ‘Nenhum objeto merece ser desejado.’ – Fechei o livro imediatamente, pois, depois disso, o que ler ainda?”; “O dia que li que em quinhentos mil anos a Inglaterra será completamente recoberta de água, me joguei na cama em sinal de abdicação e de luto.” Que demônio Cioran, leitor insaciável, satisfazia com essa resistência inveterada ao ceticismo, ao qual, por outro lado, ele se atinha? “O pessimismo – essa crueldade dos vencidos que não saberiam perdoar a vida por haver enganado sua espera.”

Também as horas solitárias e melancólicas dedicadas a atravessar as obras dos outros poderiam acarretar a escrita, homenagem tácita à leitura e prolongamento catártico de sua sede de desilusão. Tudo é duvidoso, tudo é insuportável, mas de tal maneira que deveríamos ser agradecidos àqueles que puderam exprimir sua complexidade, por mais que sejam, sempre, estéreis, essa complexidade revelada e suas diversas expressões. Não existe um cenáculo dos pessimistas, mas por vezes correspondências, instantes de reconhecimento, de sinais compartilhados aos quais se enviam certos espíritos sem saber a quem, do seu obscuro isolamento. O pensador, o poeta, qualquer que seja seu nome, permanece à margem, extenuado, perdido, sozinho, excluído de uma sociedade nociva aos caminhos que levam ao essencial.

Curiosidade nascida da intranquilidade

Flanêur curioso sobre a maneira com que cada pessoa suporta o seu quinhão, Cioran frequentou bastante os tribunais e os asilos de loucos (Em Sibiu, em Bucareste, em Berlim, em Sainte-Anne), ou seja, os teatros mais cruéis da vida moderna; desde seus primeiros anos em Paris, anos de extrema solidão, errando pelos bulevares do Quartier Latin, lhe ocorria de interrogar os passantes, de preferência os desajustados e os mendigos, simplesmente para conhece-los, para escutá-los falar, para saber como eles (não) davam um jeito de (sobre)viver. É uma curiosidade similar, nascida da intranquilidade, que o levaria a esgotar as bibliotecas, por algumas dessas correspondências raras, fugidias, reticentes, a partir das quais cérebros mais necessitados ou menos confusos seriam tentados a reconstituir uma tradição daqueles que não possuem uma. Em seu último livro, Aveux et Anathèmes (“Confissões e Anátemas”), como nos precedentes, Cioran registra diversos desses encontros com irmãos desconhecidos, de que apenas um dizer seria suficiente para uni-los a ele. Ele exuma: “’Deus não criou nada que odeie tanto quanto odeia este mundo, e tanto o odeia que, desde o dia em que o criou, nunca olhou para ele.’ Não sei que foi o místico muçulmano que escreveu isso, ignorarei para sempre o nome desse amigo.” Que ele cite aqui uma carta do asceta al-Hassan al-Basrî ao califa Omar II, datada do século VIII, é importante e não é. Mais ainda: “Segundo um chinês, uma única hora de felicidade é o que um centenário poderia confessar após ter refletido bem sobre as vicissitudes de sua existência. […] Já que todo mundo exagera, por que os sábios seriam exceção?” Yang Tchou, o chinês em questão, viveu durante o último milênio a.C., devendo a Lao-Tsé por ter sido privado, até os dias de hoje, de um supremo esquecimento que, não obstante, não o teria incomodado. Similarmente, o grego Hegesias considerava a vida e a morte “igualmente desejáveis”; similarmente, Hegesias encontra em Cioran um novo eco: “’A vida só parece um bem ao insensato’, costumava dizer, há vinte e três séculos, Hegesias, filósofo cirenaico, do qual praticamente resta apenas este comentário… Se há uma obra que eu amaria reinventar, é a sua” (De l’inconvenient d’être né). Hegesias, o “Pisithanatos” (aquele que aconselha a morte) só nos é conhecido por dez linhas de Diógenes Laércio (e pela onda de suicídios que sua filosofia teria produzido, ao ponto de ser proibida por Ptolomeu II); alguns fragmentos bastam, àqueles que não buscam nem auréola nem transcendência, mais apenas “alguma coisa que se possa murmurar à orelha de um ébrio ou de um moribundo”. Como queria Chestov, a essência dos livros como dos olhares que se cruzam se dá num instante por toda a eternidade eventual, e não se explica nem se argumenta. De seus laços com outro homem honesto, Leopardi, cuja infeliz lucidez no que concerne à mediocridade humana o fez ser qualificado de pessimista, Cioran escreve: “São menos os autores que mais lemos os que mais importam para nós, quanto aqueles sobre os quais não cessamos de pensar, que têm estado presentes em nossos momentos essenciais e que, para o seu martírio, nos têm ajudado a suportar o nosso.”

Escapatórias da erudição

Assim, apesar da pose ociosa que ele assumia com frequência, e apesar da lassidão que o corroía sempre, não é sem zelo que Cioran se entregou à leitura. A ilimitação dessa curiosidade mórbida e subjetiva, dessa busca obsessiva pelos cantos mais sombrios – os mais justos – de todos os tempos e de todos os lugares, não deixou de lhe valer a crítica de superficialidade e diletantismo, por exemplo sob a pluma possessiva e maldizente de [René] Étiemble em seu prefácio aos Philosophes taoïstes da Pléiade (1980). Cioran tinha se adiantado, escrevendo em 1952: “Aprofundar uma idéia é atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e até a vida…” Refratário às escapatórias [faux-fuyants] ronronantes daqueles que preferem a história dos problemas aos problemas mesmos, ou ainda o estudo dos sutras à pratica do zazen, Cioran os reencaminha à ligeireza que mascara sua erudição: “Apenas os espíritos superficiais abordam as ideias com delicadeza.” Não se trata, ao ler, nem de se divertir nem de fomentar cultura, mas de recolher algum novo elemento suscetível de nos confortar em nosso esforço de lucidez e de ceticismo, duplo esforço de hostilidade ao mundo tal qual se o vive e ao eu tal qual se o suporta – tantas ilusões, tantos disfarces do pior. Mesmo que dificilmente se acreditaria nisso, é preciso retornar aí, não ser um “pessimista sem entusiasmos”, e cultivar a percepção da vacuidade geral sem elevar essa percepção sobre seu objeto: “O homem debruçado sobre sua inutilidade já não pertence ao desejo de ter uma vida […] já não se embaraça com um si mesmo ideal” (Breviário de Decomposição). É à medida que nos ajudam que os livros, mesmo os dos filósofos, sustêm sua inanidade.

Traduzido do francês por Rodrigo Menezes

01/01/2014

A insônia da razão (Caderno Mais! – 12/02/1995)

Cioran: o pensador da amargura (Mais! - 12/02/1995)
Cioran: o pensador da amargura (caderno Mais! – 12/02/1995)

“Ser desconhecido é uma volúpia” (entrevista publicada no extinto suplemento cultural Mais!, da Folha de São Paulo, 12/02/1995) — Fonte original

Foi assim que consegui resolver o meu problema e tudo isso foi necessário para viver sem exercer uma profissão. Mas tudo isso acabou, os moços, hoje, não têm mais essa possibilidade. Tem moços que vêm me visitar e que me dizem que gostariam de viver como eu. Mas é tarde demais. Tudo isso desapareceu, está acabado agora.
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Pergunta – Mas o sr. continuou a trabalhar, a escrever ainda assim, o sr. publica bastante na Nouvelle Revue Française.

Cioran – É verdade. Não se pode viver totalmente no paraíso — quer dizer, na parasitagem. Eu compreendi que era preciso escrever e isso certamente correspondia a uma necessidade. Assim, publiquei meu primeiro livro em francês, Précis de Décomposition (Breviário de Decomposição).

Depois disso, tinha algumas vagas intenções e já me perguntava na época por que multiplicar livros. Por quê? De todo modo, das pessoas só restam algumas frases, não é? Mas é preciso dizer ainda que os dias são longos demais, e depois havia certamente também uma forma de vitalidade em jogo, uma necessidade de manifestação. Fui totalmente desconhecido por 30 anos, meus livros não tinham a menor saída. Eu aceitei muito bem essa condição e ela correspondia também à minha visão das coisas, até o momento em que vieram os livros de bolso. Acho que essa é a única maneira de tocar de verdade os leitores que se interessam por você.

E depois é o mecanismo de toda carreira literária; mas os únicos anos importantes são os de anonimato. Ser desconhecido é uma volúpia; tem lados amargos às vezes, mas é um estado extraordinário. Durante anos, fui apresentado nos salões —porque teve um tempo em que gostava de beber uísque e, como não podia comprar, ia às recepções— como o amigo de Ionesco e de Beckett. Aceitava muito bem essa condição. Por que não? Por que ser conhecido?

cadernomais01Pergunta – Por que resolveu de repente escrever em francês?

Cioran – Eu tinha tomado a decisão de não voltar mais para a Romênia. Para mim, estava acabado, tudo isso, na verdade, me parecia fazer parte do passado, no sentido absoluto do termo. Eu estava num lugar perto de Dieppe, no litoral, em 1936, e tentava traduzir Mallarmé para o romeno. E, de repente, disse para mim mesmo: Não tenho o menor dom para isso, e foi subitamente que tomei a decisão de escrever em francês.

Até então, curiosamente, eu tinha negligenciado o francês, enquanto que estudava bastante o inglês, cheguei até a seguir o curso para a agrégation na Sorbonne. A decisão de escrever em francês —decisão tomada num minuto— revelou-se muito mais difícil de realizar do que eu pensava. Foi realmente um suplício. Escrevi quatro vezes meu primeiro livro, o que me deu até enjôo de escrever. Depois de escrever o Breviário de Decomposição, me dizia portanto que não valia a pena continuar a me atormentar. Publiquei os Silogismos da Amargura por cansaço. Não vale a pena fazer frases etc.

Depois, o processo continuou, apesar de tudo, e é preciso dizer também que Jean Paulhan me pedia o tempo todo para colaborar na Nouvelle Revue Française. Eu prometia, para depois me arrepender, depois queria cumprir minha promessa e foi assim que entrei numa espécie de engrenagem. Aceitava perfeitamente ficar na periferia.

Era totalmente desconhecido, mas isso não tem nada de desagradável, no fim das contas. São esses os anos de vida de um escritor, o escritor sem leitor —que conhece algumas pessoas e mais nada; isso tem lados desagradáveis no plano prático, mas é a época da verdadeira escritura, porque você tem a impressão de escrever para você mesmo.

Pergunta – Houve também uma motivação política que o levou a se desligar do romeno, da Romênia?

Cioran – O que é que eu vou fazer com o meu romeno em Paris? Eu tinha rompido com a Romênia: ela não existia mais para mim. Eu tinha prometido, na Romênia, que faria uma tese —coisa que nunca fiz. De todo modo, a Romênia para mim só representava o passado. Então para que escrever em romeno? E para quem?

E depois, o que eu escrevia nunca teria sido aceito pelo regime. Hoje eles aceitam os meus escritos e publicam o tempo todo meus artigos nas revistas.

Pergunta – É verdade que o sr. foi aberta e fanaticamente antidemocrata no fim dos anos 40?

Cioran – Sabe, a democracia na Romênia não era uma verdadeira democracia. Eu era antidemocrata porque a democracia não sabia se defender. Ataquei a democracia por causa da sua debilidade. Era um regime que não tinha instinto de conservação. E eu ataquei alguém por quem tinha a maior estima, Juliu Maniu, o chefe dos democratas romanos. Escrevi um artigo em que dizia que Maniu, que é o maior democrata do mundo, devia ter sido chefe de partido na Suécia, no país dos nórdicos. Mas não num país como a Romênia.
A democracia tem que se defender com todos os métodos e dar provas de vitalidade. Mas Maniu só lutava com conceitos puros e esses conceitos não têm nenhuma chance nos Balcãs. A democracia foi realmente deficiente na Romênia, não esteve à altura da situação histórica. Não se pode seguir gente assim, é a utopia encarnada nos Balcãs, não é possível. Houve democracia na Romênia, o partido liberal de Maniu, mas nas situações difíceis esse tipo de partido não aguenta, eles foram completamente ultrapassados pela história.

Pergunta – E a democracia ocidental?

Cioran – Há um certo automatismo no Ocidente, seja como for, porque a democracia nasceu aqui, ela pode sobreviver a si mesma. Mas pode desmoronar, nunca se sabe. O drama do liberalismo e da democracia é que nos momentos graves eles estão perdidos! Já se viu isso. A carreira de Hitler é o resultado da fraqueza democrática. A sua história é muito simples.

Pergunta – Qual é a ponte no seu pensamento entre o indivíduo e a história?

Cioran – Ela se fixa muito mal, pelo mal-estar. Não há ponte e o mal-estar se torna a solução. Temos que ser lúcidos como indivíduos sabendo, ao mesmo tempo, que o excesso de lucidez torna a vida insuportável. A vida só é suportável se não formos às últimas consequências.

Pergunta – Isso é o pensamento indiano que penetrou, para dizer assim, a sua obra? É o sr., de que o sr. fala sempre? Isso marca uma renúncia com relação à lucidez e à nostalgia de uma filosofia adormecida?

Cioran – Eu estou além disso também, mas o budismo desempenhou, realmente, há uns dez anos, um papel muito importante para mim. Eu sempre fui um pouco budista, se é possível ser um pouco. Para lhe dizer a verdade: se tivesse escolha, se pudesse optar por uma religião entre todas, seria budista. Deixando de lado alguns pontos, o budismo me parece aceitável e até confortável.

Pergunta – Mas é possível escolher lucidamente uma religião?

Cioran – É por afinidade secreta, apesar de tudo, que essa escolha é feita; há pontos muito precisos como a visão do sofrimento, que eu aceito; mas a transmigração ou outros aspectos do budismo, como aceitá-los?

É preciso pertencer a uma tradição para poder subscrever esse tipo de coisa, é preciso partilhar de um certo tipo de pensamento, de concepção do mundo. Como acreditar na metempsicose, nas etapas da vida, por exemplo? Os dogmas não são aceitáveis, mas o espírito é, perfeitamente. Tudo o que o budismo constata sobre o sofrimento, sobre a morte etc., é aceitável, o lado negativo. E foi esse lado que levou Buda a deixar o mundo.
E depois disso, é a religião que demanda menos fé. O cristianismo e o judaísmo exigem coisas muito precisas e se você se recusa a acreditar nelas está perdido, acabou; o budismo não, aceita compromissos. As razões que levaram Buda a deixar o mundo, podemos aceitá-las sem dificuldade, com a condição de ter a coragem de ir às últimas consequências. O budismo não lhe pede nenhum voto, nenhum reconhecimento, e é por isso que ele está a ponto de ultrapassar o cristianismo.

Pergunta – O sr. ainda passeia muito?

Cioran – Sim, claro.

Pergunta – E vai sempre aos cemitérios?

Cioran – Não só aos cemitérios. Eu tenho, é verdade, um fraco por cemitérios; mas hoje em dia os cemitérios não são mais bonitos, estão sobrecarregados. Quando vejo amigos, mas também desconhecidos passarem por momentos de abatimento, de desespero, só tenho um conselho a dar: Passe 20 minutos num cemitério, vai ver que a sua tristeza não vai desaparecer, mas vai ser quase superada.

Outro dia, encontrei uma moça que eu conheço, desesperada por causa de um problema amoroso, e lhe disse: Você não está muito longe de Montparnasse, vá lá, passe por ali meia hora, vai ver que a sua tristeza lhe parecer tolerável.

É muito melhor do que ir no médico. Um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática. Eu mesmo sempre pratiquei esse tipo de método; não parece muito sério, mas é relativamente eficaz. O que é que você vai dizer a alguém que está num desespero profundo? Nada ou mais ou menos nada. A única maneira de suportar realmente esse tipo de vazio é ter consciência do nada. Sem isso, a vida não é suportável.
Se você tem consciência do nada, tudo o que lhe acontece é de proporção normal e não assume as proporções dementes que caracterizam o exagero do desespero.

Pergunta – É uma espécie de solução catártica que o sr. está recomendando?

Cioran – Certamente. Precisamos ver o que somos. Eu conheci, por exemplo, muitos jovens escritores que queriam se suicidar por não ter sucesso, o que eu compreendo, a rigor. Mas é muito difícil acalmar alguém que chegou nesse ponto. O que é terrível na vida é o fracasso, e isso acontece com todo mundo…

Pergunta – Mas se tira alguma coisa do fracasso? Quando se sobrevive…

Cioran – – É uma lição extraordinária; mas tem muita gente que não a suporta, e isso em todos os níveis, empregados e gente importante. No fim das contas, a experiência da vida é o fracasso.

São principalmente os ambiciosos, os que fazem um plano de vida que ficam tocados, os que pensam no futuro. É por isso que eu mando as pessoas para o cemitério. É a única maneira de minimizar uma situação trágica.

Pergunta – O sr. disse que agora não escreve mais. Acha que isso vai durar?

Cioran – Eu não sei de nada, mas é muito possível que não escreva mais. Tenho horror de ver todos esses livros que saem… esses autores que publicam pelo menos um livro por ano… é doentio. Eu acho que não se deve escrever mais, que é preciso saber renunciar.
Hoje isso já não me diverte mais, num certo sentido. É preciso um mínimo de entusiasmo, é preciso que haja uma expectativa. E depois eu me digo que já chega de imprecar contra o mundo e contra Deus, não vale a pena…

Pergunta – Mas, em pensamento, o sr. continua a imprecar?

Cioran – Forçosamente. Há uma espécie de resignação que é o fruto da idade e o cansaço é agora um estado muito real que é preciso levar em conta. Podemos sempre escrever e dizer tudo, mas se esse ato não corresponde mais a uma necessidade interior, não passa de literatura.

E isso é o que eu não quero, talvez porque sempre acreditei —é o meu lado ingênuo— no que escrevia. Isso não é bom, vai mesmo contra a minha visão das coisas, mas tanto pior! É evidente que, se temos consciência do nada, é absurdo escrever um livro, é até ridículo. Por que escrever e para quem? Mas há necessidades interiores que escapam a essa visão, elas são de outra natureza, mais íntimas e mais misteriosas, irracionais; levada ao extremo, a consciência do nada não é compatível com coisa nenhuma, com gesto algum; a idéia de fidelidade, de autenticidade etc, tudo desaparece.

Mas, ainda assim, existe essa vitalidade misteriosa que o leva a fazer alguma coisa. E talvez, no fundo, a vida seja isso: fazemos coisas às quais aderimos sem acreditar —é, é mais ou menos isso…

Tradução de LEDA TENÓRIO DA MOTA

Sobre Valéry: carta de Cioran a M. Barrett

Paul ValéryAo final de 1967, a fundação americana Bollingen, tendo decidido publicar uma edição inglesa das obras de Valéry, encarrega Jackson Matthews, tradutor de Monsieur Teste, de estabelecer sua versão definitiva. Este último pede então a Cioran um prefácio ao volume dedicado a Poe e a outros comentários literários. Esse prefácio, que, remodelado, tornar-se-ia “Valéry diante de seus ídolos” (em Exercícios de admiração), será recusado por Jackson Matthews, pois, aparentemente, muito embora o motivo da recusa não tenha sido dado, era muito crítico.  Bastante encolerizado, Cioran redige então uma carta destinada a M. Barrett, o diretor da fundação, para explicar suas razões. Reproduzimos aqui esse texto inédito. (Patrice Bollon)*

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E. M. Cioran

Rue de l’Odéon, Paris, 6e

Paris, 20 de março de 1968

Caro senhor Barrett,

Creio ser o meu dever o lhe dar algumas explicações a propósito do meu prefácio. Jackson me havia dito, em Paris, que queria alguma coisa pessoal que suscitasse reações, lhe respondi que era assim que eu o imaginava e que meu prefácio seria tudo menos neutro. Ele não o é, e chega a ser inclusive bastante duro em alguns momentos, maldoso, eu o reconheço, e eis por quê: eu pratiquei Valéry bastante outrora, e com uma admiração fervente; essa admiração foi pouco a pouco diminuindo durante esses dois últimos meses em que eu o reli. Eu não lhe esconderei que encontrei nele bastante pretensão, bastante saber duvidoso, incompetência e pose: um frasista com gênio e nada mais, assim me pareceu. Eu pensava que não era necessário dizê-lo a você e que, por amizade a Jackson, eu deveria poupá-lo – numa palavra, mentir. E então, deixei-me levar e, por fim, a verdade triunfou sobre a amizade. Devo acrescentar também que, normalmente, eu teria escrito um texto bem menos severo; mas o infortúnio quis que eu relesse Valéry após ter sofrido por algum tempo uma feliz intoxicação pela filosofia hindu.

Seria igualmente deselegante da minha parte enumerar os motivos que levaram Jackson a recusar meu prefácio. Em todo caso, teria sido o seu dever exigir que eu adocicasse algumas partes, que eu fizesse algumas retificações; eu teria consentido, mas por nada neste mundo eu teria mudado o fundo. Ou então teria havido outra solução: solicitar um contra-prefácio, de modo a suscitar uma discussão e despertar o interesse…

Mas não pretendo me perder em recriminações. É perfeitamente natural que eu seja sacrificado já que eu ousei denunciar um falso deus.

Creia, Monsieur Barrett, em meus muito fieis afetos,

CIORAN

* Carta publicada na revista francesa Magazine Littéraire nº 327 (dossiê “Cioran – aristocrate du doute”), em dezembro de 1994. Tradução do francês: Rodrigo Menezes (03/08/2013)

O princípio de estilo (Patrice Bollon)

Dossiê "Cioran, aristocrata da dúvida" (Magazine Littéraire, 12/1994)
Dossiê “Cioran, aristocrata da dúvida” (Magazine Littéraire, 12/1994)

Cinismo? Ceticismo? Estoicismo? Há uma “filosofia de Cioran”? Não de maneira sistemática, mas um princípio de autenticidade e de estilo. Da elegância como ética…

Por Patrice Bollon*

Artigo publicado na Magazine Littéraire (dossiê “Cioran, aristocrate du doute”) nº 327, dezembro de 1994

“Nada mais irritante que essas obras nas quais se coordena as ideias densas de um espírito que visa a tudo, menos ao sistema.  Para que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, sob o pretexto de que elas giram ao redor de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo buscar nele uma vontade de ordem, uma preocupação pela unidade. Cativo de seus humores, ele registrou suas variações.  Em sua filosofia, meditação sobre  seus caprichos, os eruditos querem  discernir as constantes que ela recusa.” Nada fácil, após esta passagem de La tentation d’exister, evocar como toda a inocência uma “filosofia de Cioran”. Tanto mais quanto impressiona logo de entrada a impossibilidade quase que radical de vinculá-lo inteiramente a uma das três ou quatro grandes tradições filosóficas derivadas do mundo grego, às quais se resume facilmente o seu pensamento – todo o resto, sejam os sistemas, não sendo a seus olhos, vão exercício de definição, “pequenos universos inverossímeis”.[1]

Um cético singular, com efeito, um “aristocrata da dúvida” mesmo que, a crer nele, não cesse de sentir a falta da força da ilusão, ou então que deplore o colapso desses “preconceitos” obscuros que fundam as grandes civilizações – inclusive enxergando nesse fato a explicação de sua “decadência” –, ele que pensa que “tudo o que conta foi feito fora da dúvida!”[2] Libertário paradoxal, também, que faz o elogio dos tiranos – “Um mundo sem tiranos seria tão enfadonho quanto um zoológico sem hienas”, escreve ele em História e Utopia –, concebe a liberdade como um “vírus” altamente destrutivo, e, ainda assim, chega a fazer louvores a Torquemada e a Nero! Um estoico não menos surpreendente, enfim, admirador de Marco Aurélio, que não pode – e menos ainda quer – refrear seus instintos, confessando em De l’inconvenient d’être né: “Não mais lerei os sábios. Eles me fizeram muito mal. Eu deveria ter me entregado aos meus instintos, deixar florescer a minha loucura. Fiz todo o contrário, pus a máscara da razão, e a máscara terminou por substituir o rosto e por usurpar o resto”!

De fato, é quase o Cioran inteiro que seria necessário citar para dar-se conta dessa posição propriamente insustentável e inclassificável que afirma no mesmo movimento tanto a necessidade da lucidez mais extrema e a necessidade da ilusão mais sombria, tanto a busca quietista da sabedoria e o recurso primitivo aos instintos, tanto ao elã místico quanto o apego ao materialismo ou, a fortiori, tanto o progresso quanto a inelutabilidade romântica da revolta…

Uma “soma de atitudes”, uma “meditação sobre seus caprichos” – não são estas perfeitas definições de sua maneira de pensar? Conforme comenta Susan Sontag, em Sob o signo de Saturno, o estilo aforístico de Cioran difere, com efeito, daquele da grande escola moralista de Chamfort e La Rochefoucauld na medida em que, representando “menos um princípio ontológico que um princípio epistemológico”, ele “manifesta que o destino de toda ideia profunda é de ser rapidamente ‘derrotada’ por uma outra, cuja existência estava implicitamente contida na primeira”. Pensar tornar-se assim, para ele, “uma confissão, um exorcismo”, no qual toda ideia de verdade definitiva, ultima, só pode, por definição, estar ausente, a favor da representação de um balanço contínuo, inevitável, entre um postulado e todos os limites que o exercício da lucidez lhe impõe. Em suma, no horizonte de Cioran não há nada de “filosofia” no sentido próprio do termo, e menos ainda, certamente, de “sistema”; em vez disso, uma “soma de atitudes” voluntariamente, dir-se-ia necessariamente contraditórias, já que refletem os meandros de uma alma atormentada pela busca de “sua” verdade.

O que Cioran não apenas ilustrou incessantemente em seus aforismos, mas também, mais de uma vez, se não “teorizou”, ao menos “pensou” – e isso, desde seus primeiros livros –, até fazer disso uma razão de rejeitar a filosofia.  Assim, pode-se ler, no Breviário de decomposição, um “adeus à filosofia” particularmente violento, ao qual se opõe, alguns capítulos depois, um elogio de evidencia autobiográfica do “pensador de ocasião”. “Aquele que pensa quando quer”, escreve assim Cioran numa veia que faz lembra r Schopenhauer de Contra a filosofia universitária, “não tem nada a dizer-nos: está acima, ou melhor, à margem de seu pensamento, não é responsável por ele, nem está em absoluto comprometido com ele, pois não ganha nem perde num combate em que ele mesmo não é seu próprio inimigo. Não lhe custa nada crer na Verdade.” O que equivale, para Cioran, a definir implicitamente sua própria atitude de “pensador de ocasião”, cujas verdades, não sendo mais que os “sofismas de (seu) entusiasmo ou de (sua) tristeza”, formam com ele uma só realidade, lado prazeres assim como lado sofrimentos: “Tudo o que concebi se resume a mal-estares degradados em generalidades”.

Condenado a “se constatar, como os enfermos e os poetas”, não saberia o pensador jamais ser outra coisa que uma espécie de “secretário de suas sensações”, cronista-memorialista de sua alma, cujo propósito residiria tão-somente no estabelecimento de verdades altamente subjetivas e marcadas pelo instante em que elas se impõem a ele, portanto transitórias e flutuantes? Cioran não hesita em ir ainda mais longe, fazendo da contradição a única matéria possível do pensamento: “Um espírito só nos cativa”, escreve ele ainda no Breviário de decomposição, “por suas incompatibilidades, pela tensão de seus movimentos, pelo divórcio de suas opiniões e suas tendências. […] Um pessimista sem entusiasmos, um agitador de esperanças sem amargura, merece apenas desprezo. Só é digno de nosso apego quem não tem nenhum respeito com seu passado, com o decoro, a lógica ou a consideração […] Apóstolo de suas flutuações, já não se embaraça com um si mesmo ideal; seu temperamento constitui sua única doutrina, e o capricho de cada hora seu único saber.”

Em suma, poder-se-ia satisfazer-se de fazer de Cioran um destes “pensadores” do capricho (em oposição a “filósofo”, por definição, mais “objetivo”) destinado aos escritores (“Os filósofos escrevem para os professores; os pensadores, para os escritores”, Écartèlement), ou ainda – filiação evidente e que ele reivindica em diversos momentos de sua obra – um “cínico” no sentido grego, original, do termo, seja, como o definiu Peter Sloterdijk em sua Crítica da Razão Cínica, uma “mímica” de seu próprio metabolismo físico e mental; e tudo seria dito sobre sua “filosofia”. Nada evidente, contudo. Pois esse “processo de pensamento”, conforme o nomeia justamente Susan Sontag, que seus aforismos retraçam fielmente, à maneira de um sismógrafo, não apenas comporta diversas “constantes”, mas também desenha, talvez, senão um sistema ou um esboço de sistema, uma “via” filosófica (da mesma maneira que esse budismo que ele constantemente evoca fala de um “caminho” do despertar).

Desafiando o interdito que impedia seu desenvolvimento sobre Nietzsche, voltemo-nos, para definir essa via, ao parece que parece ser muito bem a contradição fundamental de Cioran: o combate da lucidez contra a fé, e, mais ainda, do ceticismo contra um vitalismo jamais renegado desde seus primeiros livros romenos – notadamente, o bastante romântico Nos cumes do desespero. Desse “esquartejamento” (écartèlement), que deveria inclusive fornecer-lhe significativamente o título de um de seus livros, nasce, com efeito, todo o seu pensamento, tanto no que concerne àquela que se poderia apontar como sendo sua posição política, a meio-caminho, quase – na medida em que isso for possível – no meio entre um ceticismo conservador e um anarquismo revoltado, quanto a sua atitude diante de Deus, dividida entre o respeito do divino e um elã místico, por um lado, e o ateísmo, dir-se-ia uma vontade blasfematória, por outro – e não é uma das últimas sentenças que ele escreveria, em Aveux et Anathèmes, este verdadeiro slogan anarquista? “Enquanto ainda houver um só deus de pé, a tarefa do homem não terá terminado.”

Não haveria, não se poderia então haver ai alguma “resolução” – no sentido de que se fala, na música, de um acorde “resolvido” (un accord résolu) – a esse conflito central, que implica fatalmente a suspensão, a abstenção de todo juízo, e, portanto, a uma espécie de deserção da vida? E convergiria tudo a esse pessimismo integral, a esse reconhecimento do sem-sentido de tudo, ao qual a maioria dos comentadores de Cioran, em última instância, parece se resignar? Eis, aparentemente, uma interpretação insuficiente, que consiste no objeto mesmo, da parte do interessado, em diversas partes de sua obra,… de uma refutação em sua devida forma! “Quanto mais leio os pessimistas”, escreveu ele então em 1937, em Lágrimas e Santos, “mais eu amo a vida. Após uma leitura de Schopenhauer, reajo como um noivo. Schopenhauer tem razão de dizer que a vida não passa de um sonho. Mas ele comete uma inconsequência grave quando, em vez de encorajar as ilusões, as desmascara levando a crer que existiria algo por detrás delas.” Em suma, mesmo o pessimismo não saberia oferecer, aos olhos de Cioran, um horizonte ao seu pensamento, ao pensamento em geral!…

De fato, um princípio permite superar bem todas essas contradições incessantes que Cioran vive e exprime: a necessidade de lhes dar uma voz, seja a busca de uma autenticidade imediata, de uma “elegância moral” (“A verdadeira elegância moral reside na arte de transformar suas vitórias em derrotas”, Écartèlement), que reflete também a elegância da expressão: em suma, aquilo que se poderia nomear de um “princípio de estilo”. Seria necessário, então, paradoxalmente, ir em direção a isso que se considera habitualmente como um “plus”, ou um simples “envelope” de uma obra para descobrir tanto o centro verdadeiro quanto a contribuição última da obra de Cioran: o estilo.

Para convencer-se disso, convém reler, certamente com um mínimo de perversidadef, o que permanece sem dúvida o mais belo, ainda que aparentemente o mais excêntrico, o mais “antiquado”, nem mesmo isento de certa insolência, dos seus Exercícios de admiração: aquele que ele consagra ao pensador que, por seu quietismo e sua moderação, parece o mais distante dele, Valéry. Em “Valéry diante de seus ídolos”, encontra-se, com efeito, em estado de esboço, todo um pensamento do vínculo que pode unir lucidez e materialismo, de um lado, e poesia e misticismo, de outro. Nesse verdadeiro “pedaço de bravura”, no qual seu estilo, talvez, nunca tenha sido significativamente tão brilhante, Cioran traça um paralelo entre a ascese que representa a exigência da lucidez e “o grau de despertar que toda experiência espiritual supõe” – sendo que a única e mais radical diferença entre os dois é que a primeira se situa “para cá do absoluto”, enquanto que a segunda, “que é propriamente a via mística”, busca o despertar “em vista do absoluto”: “todo analista impiedoso, todo denunciador de aparências, e com maior razão todo “niilista”, não é mais do que um místico bloqueado, e isso porque se recusa a dar um conteúdo a sua lucidez, dirigi-la no sentido da salvação, associando-a a um desígnio que a ultrapassa”.

Um “místico bloqueado”, e quase, poder-se-ia acrescentar, sem contradição, um “místico realista”, uma vez que para ali onde recomeçaria a ilusão: não seria essa a melhor definição – quase um autorretrato íntimo – de quem, como Cioran, busca na lucidez um princípio superior? Assim poder-se-ia definir o espaço de uma resolução de suas contradições, em suma, o horizonte de uma filosofia – a saber, uma espécie de “ética da elegância”, não muito distante, na  verdade, do famoso “estágio estético” de Kierkegaard, porém, ultrapassando-o, e cujo “modelo histórico” deveria ser buscado tanto na Grécia revisitada por Nietzsche quanto nessa França do século XVIII com a qual Cioran tanto sonhara e na qual tanto se obstinara, por meio da escritura, a ressuscitar.

Nada fácil, certamente, fixar uma matéria tão volátil quanto essa “filosofia do estilo”. O melhor que se pode fazer é circunscrever os limites com a ajuda de algumas máximas. “É fácil ser ‘profundo’; basta deixar-se invadir pelas próprias taras”, escreve Cioran nos Silogismos da Amargura. No mesmo movimento em que afirma a necessidade da lucidez, Cioran se recusa a deixar-se enredar-se nas profundezas que, “sendo naturalmente sem fundo, não podem levar a nenhum lugar” (Breviário). Por que, a partir de então, não prestar culto às aparências, como a este fim poderia conduzir essa outra frase famosa, ela também extraída dos Silogismos: “Sonho com um mundo em que se morreria por uma vírgula”? É porque para Cioran, o realista, isso seria bascular uma vez mais numa realidade tão profunda quanto aquelas que, por outro lado, ele denuncia.

Todas essas ideias não são, em realidade, novas: elas já se encontram na introdução da Gaia Ciência de Nietzsche, quando este observa que os gregos souberam ser “superficiais por profundidade”. Quanto à ascese que representa o estilo, era ela que autorizou Baudelaire a identificar no dândi um herdeiro dos estoicos. Como não perceber, então, na reivindicação de Cioran da “inutilidade” – sem dúvida, uma das palavras que mais incidem sob sua pena –, um eco de certos motivos de O meu coração a nu: “Ser um homem útil pareceu-me sempre algo de muito hediondo”? Como o artista, para Baudelaire, o pensador lúcido, para Cioran, não podendo decidir por nenhuma posição definitiva que seja, é o homem estéril por excelência, que inclusive extrai de sua esterilidade reivindicada o seu valor, ou seja, poder-se-ia dizer, seu “heroísmo”. A única diferença é que, em Cioran, para parafrasear o célebre aforismo de Baudelaire, “Tu me deste tua lama e eu a transformei em ouro”, o “ouro” da linguagem conserva, deve conservar um resto de “lama” metafísica – o que se situa para além do dandismo: nessa espécie de “santidade civil”, que era, ademais, para os estoicos, a definição da realização filosófica e que Cioran nunca cogitou reivindicar para ele mesmo, preferindo, em seus Exercícios de admiração, elegante no mais alto nível, exaltá-la como Wittgenstein ou como seu amigo Beckett…

*Tradução do francês: Rodrigo Menezes (02/08/2013)


[1] Exercícios de admiração.

[2] De l’inconvenient d’être né.

Cioran é herdeiro dos céticos, de Nietzsche a Dostoiévski

CÁSSIO STARLING CARLOS, Editor-adjunto da Ilustrada — Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 17 de fevereiro de 1995

Se é correto, como afirmam a maioria dos seus exegetas, filiar o filósofo E.M. Cioran à corrente dos chamados pessimistas e dos céticos, o romeno seria herdeiro de uma linhagem tão antiga quanto o próprio pensamento.

Pregadores de uma verdade absoluta capaz de resistir até ao ultrapassamento imposto pelo tempo, os filósofos sempre estiveram perigosamente sujeitos ao canto de sereia do ceticismo, resultado quase sempre do fracasso de seus projetos hercúleos.

Desde os gregos, mais especificamente, desde Sócrates, que o otimismo em relação à verdade e à razão é encarado com reservas. Não foi a obsessão socrática pela verdade que justificou a punição do filósofo com a pena de morte? Como resultado, toda uma geração que se seguiu, a dos céticos gregos, inclinou-se para o partido oposto ao de Sócrates, aquele que encontra na desesperança seu próprio alimento.

Os céticos gregos, contemporâneos da variante cientificista consolidada a partir do aristotelismo, representam o ápice da radicalidade que o pensamento é capaz. A “époché”, algo que se poderia traduzir como “suspensão do juízo”, é de fato o reconhecimento trágico da falência do pensamento. Diante de um mundo que se recusa a colaborar na produção das certezas, a única atitude do cético é: “Não afirmo, nem nego”. Nesta dupla recusa, é o pessimismo que vai fincar suas raízes na tradição ocidental.

Indiretamente, é aí que se encontram as origens do pensamento de Cioran. Influências diretas encontraremos a partir da segunda metade do século 19.

O movimento é semelhante. Hegel estabelecera um modelo de descrição do pensamento verdadeiro capaz de resistir ao tempo. Ao contrário da eternidade congelada e morta, uma verdade dinâmica, capaz de converter o devir, grande inimigo, em principal aliado. O método: a dialética. Se tudo se move, porque não fazer a verdade acompanhar o movimento e assimilar o devir das coisas?

Mas um novo monstro —o Absoluto— acabou sendo construído para servir de substrato a tudo que muda, para unificar em seu seio a totalidade da variação dando a ela um sentido final. É contra esta totalidade, que engole as parcialidades, é que vão se levantar três gigantes intelectuais do século passado: Schopenhauer, Nietzsche e Kierkegaard.

Contra o otimismo teleológico da dialética hegeliana, eles opõem o pessimismo do individual, do singular que resiste a qualquer ameaça de devoração pelo Absoluto. A ordenação demasiado perfeita do pensamento parece suspeita a estes filósofos, que descartam a farsa da certeza em proveito de uma parcialidade não mais verdadeira, mas menos falsa.

Nestes casos, o pessimismo não é um parti pris afetivo que contamina o pensamento, ele é uma conclusão extraída do próprio fracasso histórico das tentativas de se estabelecer uma verdade absoluta.

Em um de seus livros mais interessantes e menos conhecidos, “As Lágrimas e os Santos”, Cioran declara: “Não há nada mais fácil que se livrar da herança filosófica, pois a filosofia tem raízes que se fixam em nossas incertezas, enquanto as raízes da santidade ultrapassam em profundidade o próprio sofrimento. A suprema coragem da filosofia é o ceticismo. Além dele, ela reconhece apenas o caos. Uma filosofia só escapa da mediocridade por meio do ceticismo e do misticismo, estas duas formas de desespero frente ao conhecimento. O misticismo é uma evasão para fora do conhecimento, o ceticismo é um conhecimento sem esperança. Duas maneiras de dizer que o mundo não é uma solução”.

Por outro lado, o pessimismo como sentimento e como atitude face ao mundo, Cioran o recebe através da literatura de Dostoiévski e de seus heróis devastados pela melancolia. A “psicologia” dostoievskiana é o ponto em torno do qual Cioran vai orbitar ao longo de toda a sua obra.

Com Nietzsche, além da descrença, Cioran compartilha a forma adotada em seus escritos. O formato da máxima aforismática que o alemão imitou dos moralistas franceses do século 18 (sobretudo de La Rochefoucauld e Pascal) vai ser a mesma adotada por Cioran já nos primeiros escritos.

Em “No Cume do Desespero”, seu primeiro livro, publicado em 1934, Cioran utiliza a fórmula do texto curto, onde a intensidade do sentido deriva em proporção direta do seu estilo depurado. Os textos deste livro lembram com frequência o formato mais longo que Nietzsche utilizou em “Aurora”. O investimento no conceito de individualidade (da qual o aforismo é o reflexo formal, como se tudo, inclusive a escrita, devesse ser concebido como fragmentário) revela, sem subterfúgios, a visão de mundo do autor.

No texto intitulado “Não Poder Mais Viver”, Cioran escreve: “O paroxismo das sensações, o excesso de interioridade nos arrastam para uma região eminentemente perigosa, já que uma existência que adquire uma consciência demasiado viva de suas raízes só acaba por negar a si mesma”.

Pelo menos aqui estamos longe da filiação que se costuma sustentar entre Cioran e o existencialismo. Se no existencialismo a subjetividade funciona como um fundamento para o conhecimento e a liberdade (portanto, tem caráter positivo), para Cioran o investimento na subjetividade é o caminho mais rápido para a dissolução do sujeito, para a efetivação do compromisso com a morte ao qual nenhum homem faltará.

Nem mesmo a loucura, ainda sedutora para Nietzsche como manifestação do vigor dionisíaco, atrai Cioran. “A loucura nos faz perder nossa especificidade, tudo o que nos individualiza no universo, nossa perspectiva própria, o giro particular de nosso espírito”, escreve ele em outro texto de “No Cume do Desespero”. “A morte também nos faz perder tudo, com a exceção que a perda resulta de uma projeção no nada. Assim, se bem que persistente e essencial, o medo da morte é menos estranho que o medo da loucura, onde nossa semipresença é um fator de inquietação bem mais complexo que o temor orgânico da ausência total experimentada diante do nada. A loucura não seria então um meio de escapar das misérias da vida? Esta questão só encontra justificativa no plano teórico, pois, na prática, aquele que sofre certas angústias considera o problema sob uma luz —ou melhor, sob uma sombra— diferente. O pressentimento da loucura se duplica no medo da lucidez na loucura, onde a intuição do desastre arrisca engendrar uma loucura ainda maior. É por isso que não há salvação através da loucura. Adoraríamos o caos, mas temos medo de suas luzes”.

Por fim, Sissi, a imperatriz, é o mais surpreendente dos nomes que exerceram influência sobre Cioran. Apesar da doçura do olhar de Romy Schneider, o cinema não apagou a verdadeira personalidade da imperatriz, que ressurge através do encantamento de Cioran.

Que eu me lembre o cinema não contou que a imperatriz compartilhava com o romeno a admiração por Schopenhauer, nem que seu cavalo favorito foi batizado por ela com o nome de Niilista.