“Vai passar” (Chico Buarque & Francis Hime)

Os homens dizem: “tudo passa” – mas quantos compreendem o alcance desta aterradora banalidade? Quantos fogem da vida, a cantam ou a choram? Quem não está imbuído da convicção de que tudo é vão? Mas quem ousa encarar as consequências disso? O homem com vocação metafísica é mais raro que um monstro – e entretanto…

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“Às margens do ser (a propósito de Liliana Herrera)” (Alfredo Abad)

Um belo e inspirado texto do filósofo e professor colombiano a esta que foi, além de poeta, escritora e tradutora (mulher polivalente), uma filósofa da existência perfeitamente marginal, ou seja, alheia aos academicismos, às patifarias e à vanitas que são, via de regra, proporcionais ao grau de erudição e de institucionalização, vícios quase onipresentes nos…

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“En las margenes del ser (a propósito de Liliana Herrera)” (Alfredo Abad)

Un inspirado y bello homenaje del filósofo y profesor colombiano a esta que fue, además de poeta, escritora y traductora (mujer polivalente), una filósofa de la existencia perfectamente marginal, es decir ajena a los academicismos, a las patrañas y a la vanitas que son por lo general proporcionales al grado de erudición y de institucionalización,…

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“A patifaria intelectual de Olavo de Carvalho” (Tomás Troster)

Decidi revisitar o trabalho do filósofo e avaliar o agora ‘guru do presidente’. Deixo o leitor tirar suas próprias conclusões Carta Capital, 13 de dez. 2019 A Dialética erística é uma obra na qual Schopenhauer expõe 38 estratagemas – subterfúgios ou artimanhas – usados inescrupulosamente para vencer um debate. Segundo Dionisio Garzón, a obra só…

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“Devemos repetir a nós próprios todos os dias: Sou um daqueles que, entre milhares, se arrastam pela superfície do globo. Essa banalidade justifica qualquer conclusão, qualquer comportamento ou acto: deboche, castidade, suicídio, trabalho, crime, preguiça ou rebelião. … E daí se conclui que todos nós temos razão em fazer o que fazemos.” (Do inconveniente de […]

via Breviário de Decomposição 7.0

“Sede escassos!” (E.M. Cioran)

TÍMIDO, desprovido de dinamismo, o bem é inapto a se comunicar; o mal, pelo contrário, apressado, quer se transmitir e o consegue, já que possui o duplo privilégio de ser fascinante e contagioso. Assim, vê-se mais facilmente se estender, descolar de si, um deus malvado que um deus bom. Esta incapacidade de permanecer em si…

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“A Ditadura da Transparência” (Byung-Chul Han)

No início, a rede digital foi celebrada como um medium de liberdade ilimitada. O primeiro slogan publicitário da Microsoft, «Aonde você quer ir hoje?», sugeria uma liberdade e uma mobilidade sem fronteiras na internet. Hoje, essa euforia já se mostrou uma ilusão. A liberdade e a comunicação ilimitadas se transformam em monitoramento e controle total.…

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Encuentro Internacional Cioran México: Entre Filosofía y Literatura

11-16 noviembre, 2019 In memoriam Liliana Herrera (1960-2019) LUNES 11 Facultad de Estudios Superiores – Acatlán (Unidad de Congresos UIM II) 11h – 12h | Inauguración Manuel Martínez (director de la FES Acatlán) Alejandro Byrd (Secretario de Extensión Universitaria y vinculación institucional) Claudia Márquez (Jefa de la división de Ciencias Socioeconómicas)  Ionuţ-Maria Valcu (Embajada de…

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In memoriam Maria Liliana Herrera, filosofa e studiosa pioniera di Cioran (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Orizzonti Culturali Italo-Romeni, n. 11, novembre 2019, anno IX L’Accademia e l’intellettualità colombiane, così come la comunità cioraniana internazionale, hanno recentemente perso una figura molto importante: la poetessa, traduttrice, filosofa e studiosa pioniera di Cioran, María Liliana Herrera (1960-2019), scomparsa il 20 settembre 2019, a Pereira, Colombia. Professoressa di Filosofia all’Universidad Tecnológica de Pereira (UTP) e…

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“El poder de la palabra”: única grabación de la voz de Miguel de Unamuno (1931)

“Un crítico francés de nuestra literatura española, dijo, que en España, apenas hay escritores, sino oradores por escrito. Acaso es cierto. Por mi parte, nada me molesta más, que oír decir de alguien que habla como un libro, prefiero los libros que hablan como hombres. Y lo que es menester, es que la gente aprenda…

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“O pensamento da morte” (Nietzsche)

EM MIM me produz uma melancólica felicidade viver nessa profusão de vielas, de necessidades, de vozes: quanta fruição, quanta impaciência e cobiça, quanta sede e embriaguez de vida não se manifestam aí a cada instante! Mas logo haverá tanto silêncio para todos esses viventes ruidosos e sequiosos de vida! Como atrás de cada um está…

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“O que significa conhecer” (Nietzsche)

Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere! [Não rir, não lamentar nem detestar, mas compreender!] disse Spinoza, da maneira simples e sublime que é sua. No entanto, que é intelligere, em última instância, senão a forma na qual justamente aquelas três coisas tornam-se de uma vez sensíveis para nós? Um resultado dos diferentes e contraditórios…

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“O Nascimento como Problema Bioético” (Julio Cabrera)

Programa de Pós-graduação em Bioética da Universidade de Brasília (UnB), maio de 2018 Conferência: “O Nascimento como Problema Bioético: Primeiros passos para uma Bioética Radical” [Birth as a Bioethical Problem: First Steps Towards a Radical Bioethics] Julio Cabrera é um filósofo argentino que atualmente vive no Brasil, professor aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília e ex-chefe deste departamento. Já…

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O risco totalitário entre a língua e a linguagem (Roland Barthes)

A linguagem é legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: ordo quer dizer, ao mesmo tempo, repartição e cominação. Jákobson mostrou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que…

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🇨🇴 Espaço M. Liliana Herrera A. (1960-2019)

Uma vida, uma obra Em homenagem à professora María Liliana Herrera Alzate (1960-2019), falecida em 20 de setembro de 2019, o Portal E.M.Cioran 🇧🇷 inaugura o especial  Espaço M. Liliana Herrera. É, antes de tudo, uma homenagem à poeta, filósofa, professora, tradutora, curadora cultural, conhecedora e importante estudiosa da obra Cioran — entre tantas outras atividades, virtudes e facetas…

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Cioran y Colombia: la última entrevista de M. Liliana Herrera. Conversación con Ciprian Vălcan & Ilinca Ilian

Del libro: VĂLCAN, Ciprian. Cioran, un aventurero inmóvil. Treinta entrevistas. Trad. del rumano de Miguel Ángel Gómez Mendoza. Pereira: Universidad Tecnológica de Pereira, 2019, p. 121-125. [PDF] La conversación de María Liliana Herrera (1960-2019) con Ciprian Vălcan e Ilinca Ilian es una cortesía de Miguel Ángel Gómez Mendoza, traductor del libro de entrevistas, historiador colombiano…

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Revista Trágica: edições temáticas Clément Rosset (in memoriam) [2]

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 12, nº 2, 2019 Editorial Rosset educador O sucesso da obra de Clément Rosset pode ser aferido pela imensa venda de seus livros, pelo número de traduções nas mais diversas línguas, pelas revistas magazine sobre suas ideias, pelas numerosas entrevistas que foi chamado a…

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Revista Trágica: edições temáticas Clément Rosset (in memoriam) [1]

Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência, Rio de Janeiro, v. 12, nº 1, 2019 Editorial Clément Rosset, in memoriam: um testemunho Nos idos de 1987, comecei a ler Clément Rosset, entre os 18 e 19 anos de idade, na graduação, no texto original francês, com o saudoso Fernando José Fagundes Ribeiro, que viria logo…

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O diretor americano Terrence Malick é autor de uma respeitável obra cinematográfica que inclui filmes Badlands (1973), Além da Linha Vermelha (1998), A Árvore da Vida (2011) e De Canção em Canção (2017), entre outros. Alguns dados biográficos são dignos de nota: nem todos os apreciadores da obra cinematográfica de Malick sabem que ele é filósofo […]

via Proposta de leitura de dois filmes de Terrence Malick pela ótica de Kierkegaard (pt. I) — Leitvras, Escritvras & Poéticas do Fragmento

Kierkegaard, precursor do “Antifilósofo” cioraniano (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

O prefácio de O Desespero Humano (1849) é bastante elucidativo da problemática existencial — e religiosa — colocada pelo pensamento kierkegaardiano, e também da sua divisa intelectual existencial-religiosa em oposição ao “totalitarismo” racionalista do Espírito absoluto hegeliano. “O professor, o mestre de estudos, o estudante e enfim o filósofo, amador ou formado não ficam na…

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O Niilismo (Nietzsche)

1. O NIILISMO está à porta: de onde nos vem esse mais sinistro de todos os hóspedes? – Ponto de partida: é um erro remeter a “estados de indigência social” ou “degeneração filosófica” ou até mesmo à corrupção, como causa do niilismo. Estamos no mais decente, no mais compassivo dos tempos. Indigência, indigência psíquica, física,…

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via Resenha: “A negação da morte”, de Ernest BeckerLivro: A negação da morte: uma abordagem psicológica da finitude humana. Rio de Janeiro: Record, 2007, 363 págs.

91233A Negação da Morte: Uma Abordagem Psicológica da Finitude Humana (1973), de Ernest Becker, é um livro iluminador que analisa, a partir de uma abordagem multidisciplinar fincada na psicanálise, o problema da morte na vida humana, a relação íntima e problemática que se configura entre o homem e esta realidade tão aterradora quanto inescapável, da qual ele possui uma angustiada consciência. O autor, que em 1974 recebeu o prêmio Pulitzer por esta obra, teve ali a pretensão de reunir e sistematizar todo o conhecimento sobre o problema da morte produzido pelas diferentes áreas do saber ao longo da história, das ciências humanas, passando pela filosofia, à religião.

O livro parte da premissa de que “a idéia da morte e o medo que ela inspira perseguem o animal humano como nenhuma outra coisa”, representando, em realidade, “uma proposição universal da condição humana” (BECKER 2007: 11). Nesta perspectiva, as diferentes culturas constituem sistemas simbólicos complexos que têm por função negar a realidade da morte, permitindo assim que as pessoas vivam com a ilusão de estarem imunes ao Inevitável, sem o fardo de sua constante e penosa consciência. O título em si já sugere uma idéia central no livro: o conceito de mentira vital serve para explicar que, a morte desempenhando um papel crucial na existência, a tendência humana mais instintiva é negá-la através de artifícios psicológicos subconscientes de auto-engano e auto-ilusão.

O conceito de heroísmo também é central e atravessa toda a trama de análise do livro. Heroísmo, aqui, designa a atitude humana fundamental (poder-se-ia dizer arquetípica) frente ao mundo, a vida e a perspectiva da morte, definindo-se como um ideal de coragem e sabedoria que varia de acordo com as culturas e os povos; aplica-se como uma chave de interpretação psicológica e antropológica, segundo a qual “nossa tendência central, nossa principal tarefa neste planeta, é a heróica” (BECKER 2007: 19). Escreve Becker: “Não importa se o sistema de heroísmo de uma cultura é francamente mágico, religioso e primitivo ou secular, científico e civilizado. É, de qualquer forma, um sistema de heróis mítico, no qual as pessoas se esforçam para adquirir um sentimento básico de valor, para serem especiais no cosmo, úteis para a criação, inabaláveis quanto ao seu significado” (BECKER 2007: 24).

Igualmente importante para a análise de Becker (conceito diretamente relacionado àquele de heroísmo) é a categoria psicanalítica de narcisismo, que nos diz, basicamente, que “estamos perdidamente absortos em nós mesmos”, e que, para cada um de nós, “todos são sacrificáveis, exceto nós mesmos” (BECKER 2007: 20). O narcisismo é a causa do egoísmo instintual que nos torna seres essencialmente associais e agressivos, mas essa tendência narcisística tem o seu lado positivo, dir-se-ia vital, pois “um grau prático de narcisismo é inseparável da auto-estima, de um sentimento básico de valorização de si mesmo” (BECKER 2007: 21). Ademais, afirma Becker, sem um mínimo de vaidade e ilusão sobre nós mesmos, sobre nossa condição e nosso valor, cairíamos numa depressão profunda.

Em função do nosso narcisismo natural, somos seres com expectativas, exigências e ansiedades, das quais os animais estão livres por não possuírem uma consciência individual abstrata, encerrados como estão no automatismo inconsciente da natureza, na ordem da generalidade e do anonimato. Os adultos, segundo o autor, reproduzem um comportamento que aparece com muito mais nitidez nas crianças: o desejo de afirmar-se como centro do universo, reconhecido e admirado por todos, de ser o primeiro e o único, o que se torna ainda mais problemático quando há mais de uma criança – ou um adulto – competindo por esses privilégios. A esta carência de nossa psique corresponde um estatuto ontológico desejável, ao qual Becker dá o nome de significância cósmica: um sentimento oceânico de ser parte dos planos da Criação, dotado de importância e valor absolutos. Seja como for, mais do que expressar um problema pedagógico ou cultural, redutível às formas de educação adequadas (“apenas as crianças mimadas se comportam assim…”), a necessidade de significância cósmica é, segundo o autor, um dado antropológico estrutural, diretamente ligado ao terror da aniquilação pela morte e à percepção da própria nulidade na economia do universo.

Em termos filosóficos, Becker parte da premissa de que o homem não possui uma “essência”: “algo fixado em sua natureza, como uma qualidade ou substância especial” (BECKER 2007: 48), como postularam durante muito tempo a teologia e a metafísica. Ao buscar-se esta suposta essência do animal racional, nada se encontra além de uma consciência angustiada, incorporada provisoriamente a um composto orgânico “que vale cerca de 98 centavos de dólar” (BECKER 2007: 50). É justamente esse o dilema existencial do ser humano, que o autor nomeia em termos de uma condição deindividualidade dentro da finitude: ele se encontra cindido entre a finitude e a necessidade da parte física do seu ser, e a dimensão da infinita possibilidade que constitui sua consciência reflexiva, seu universo simbólico, sua capacidade de abstração e imaginação. Inserindo-se numa tradição de pensadores como Pascal e Kierkegaard (ao qual ele recorrerá mais adiante), Becker aponta esta condição paradoxal, possibilitada pela presença de uma consciência dilacerada, como a causa do fardo experiencial humano, incapaz de suportar o peso esmagador de uma realidade que parece, mais do que indiferente, hostil, aos nossos sonhos e expectativas. Nosso eu, formado em tensão com aquilo que Freud chama de princípio de realidade, desenvolve, desde cedo, barreiras para impedir que o terror da aniquilação nos paralise por completo, tornando-nos presas fáceis de predadores e outras ameaças; estruturado sobre camadas de proteção simbólica contra as contingências que nos ameaçam, ele simplesmente se recusa a aceitar que esteja submetido a uma realidade que o transcende e sobre a qual não tem nenhum controle. “O homem está literalmente dividido em dois: tem consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador”, e é por isso que Becker acredita que “têm razão, absoluta razão, aqueles que acham que uma plena compreensão da condição humana levaria o homem à loucura” (BECKER 2007: 49).

No capítulo sobre “o caráter como mentira vital”, é analisada a maneira pela qual o ego se constitui como uma defesa neurótica contra o desespero provocado pela verdade da condição humana. Trata-se, com efeito, de uma “desonestidade necessária e básica acerca da própria pessoa e de toda sua situação” (BECKER 2007: 80). Segundo Becker, o sentimento básico da criatura consciente de si mesma é o medo, e o homem, mesmo depois de crescido, carrega em si, ainda que escamoteado, o terror profundo que a criança sente perante os mistérios e os perigos da vida. Ele é um covarde inveterado que se engana acerca de suas forças e capacidades, de sua importância e valor, para não sucumbir ao completo desespero em um mundo que pode engolfá-lo a todo momento. No fundo, ele se sabe frágil, impotente, ignorante, sem a força necessária para tornar-se o deus que desejaria ser; mesmo assim, segue adiante, mentindo para si mesmo sobre sua condição insuficiente.

Becker assume a tese de que o ser humano não possui autonomia ontológica, recebendo do exterior suas idéias, crenças, valores e significados – suaidentidade mesma: “Todos os nossos significados nos são inculcados pelo lado de fora, pelas nossas relações com os outros. É isso que nos dá um ‘eu’ e um superego. Todo o nosso mundo de certo e errado, bom e mau, nosso nome, exatamente quem somos, tudo isso é enxertado em nós. Nunca sentimos que temos autoridade para oferecer coisas por nossa conta” (BECKER 2007: 72), mas isso é tudo o que nos recusamos a aceitar e admitir. Aquilo que chamamos de “caráter” – a pretensão de uma individualidade simbólica auto-subsistente – é uma ilusão, uma falsidade, uma mentira vitalresultante de uma de uma negação, de uma covardia instintiva. Assim, nossos “traços de caráter” seriam pequenas neuroses que refletem a maneira como reagimos ao problema da vida e da morte, da existência consciente em meio à cadeia alimentar. Eis porque o auto-conhecimento é tão amargo e indesejável: “A hostilidade contra a psicanálise, no passado, hoje e no futuro, será sempre uma hostilidade contra o reconhecimento de que o homem vive à custa de mentir para si mesmo sobre si mesmo e sobre o mundo, e de que o caráter […] é uma mentira vital” (BECKER 2007: 76).

O problema da negação da morte leva o autor de encontro ao filósofo dinamarquês Kierkegaard, que produziu importantes reflexões sobre o problema existencial da morte. Becker apresenta “o psicanalista Kierkegaard”, buscando mostrar a relevância psicanalítica de sua obra, que segundo ele antecipou muitos dados da moderna psicologia clínica. Neste âmbito, Becker afirma que o maior mérito de Kierkegaard foi haver demonstrado a relação íntima que se configura entre a psicologia e a religião, no sentido de que “a melhor análise existencial da condição humana leva diretamente ao problema da existência de Deus e da fé” (BECKER 2007: 94), e vice-versa. O ponto de partida kierkegaardiano para o problema da consciência da morte é o mito bíblico da Queda, que, segundo Becker, aponta para o paradoxo existencial que é o início comum da psicologia e da religião. Ele aposta numa convergência destas duas formas culturais no sentido de iluminar o fato de que “a angústia da morte é a angústia característica, a mais intensa angústia do homem” (BECKER 2007: 96). O postulado comum entre o cristão Kierkegaard e a psicologia secular moderna é que “o homem é uma união de contrários, de autoconsciência e de corpo físico”, um ser que experimenta o paradoxo de ser meio anjo, meio besta, um animal com um rosto único e um nome próprio, mas que tem “consciência do terror do mundo e de sua morte e deterioração” (BECKER 2007: 95).

Becker segue para mostrar quão grande conhecedor dos mecanismos psicológicos de negação da morte Kierkegaard mostra ser, sugerindo já no século XIX a idéia do caráter como uma “estrutura erguida para evitar a percepção do ‘terror, perdição [e] aniquilamento [que] são vizinhos de todo homem’”. Segundo ele, Kierkegaard “entendia a psicologia tal como um psicanalista contemporâneo a entende: sua tarefa é descobrir as estratégias que uma pessoa usa para evitar a angústia” (BECKER 2007: 96). O filósofo estaria interessado em entender os estilos adotados pelas pessoas para viver sem serem perturbadas pelo terror existencial. Para ele, o confinamento em si e o automatismo cultural (“filistinismo”) seriam duas destas formas. A moderna compreensão psiquiátrica das psicoses também seria, na visão de Becker, tributária das reflexões kierkegaardianas sobre o desespero  e a loucura. Sua reflexão sobre as diferentes formas do desespero, o da finitude e o da infinitude – relacionados, respectivamente, ao fator corporal limitante e ao fator espiritual, expansivo e ilimitado, da síntese humana – mostram como o indivíduo pode beirar o colapso psíquico caso afirme em excesso, ou suprima, um de seus pólos ontológicos.

Em matéria de psicanálise, a referência principal de A Negação da Morte não é Freud, que, aliás, Becker critica por haver se esquivado do verdadeiro problema da morte, transformando o que seria uma necessidade indesejável num impulso inconscientemente desejado – a “pulsão de morte”. É o brilhante ex-discípulo e colega de círculo psicanalítico de Freud, Otto Rank, que Becker considera haver melhor trabalhado o problema da morte na psicanálise, e ele recebe em sua obra um tratamento mais elaborado. Em se tratando dos temores básicos de todo ser humano, escreve Becker, “na ciência do homem foi Otto Rank, acima de tudo, quem colocou esses temores em evidência, baseando todo seu sistema de pensamento neles e mostrando o quanto são fundamentais para uma compreensão do homem” (BECKER 2007: 78).

Por fim, neste livro iluminador, que vai muito além da psicanálise e pode ser do interesse de qualquer pessoa, especialista ou leiga, Ernest Becker realiza uma verdadeira anatomia da consciência humana angustiada pelo drama da finitude, dissecando com uma coragem admirável os temores, obsessões e traumas que têm concurso nos mecanismos instintuais da nossa vida psíquica. Uma deliciosa leitura que pode muito bem ser angustiante, vertiginosa, solapando nossas armaduras de caráter e revelando as formas essenciais de mentira das quais dependemos para nos mantermos de pé. Mas desagradável e amarga tão-somente na medida em que funciona como uma espécie de remédio salutar, que tomamos na expectativa de que faça bem à alma, pela virtude do auto-conhecimento.

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes, 2009

Sobre ruídos e “fruição estática” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Por onde começar? Podemos começar de qualquer ponto. É sempre útil examinar o negativo para poder ver claramente o positivo. O negativo do som musical é o ruído. Ruído é o som indesejável. Ruído é a estática no telefone ou o desembrulhar balas do celofane durante Beethoven. Não há outro meio para defini-lo. Às vezes,…

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“As ambiguidades da experiência moderna” (Franklin Leopoldo e Silva)

A partir da visão hegeliana de modernidade , o professor discute a como é possível pensar a arte e a poesia num mundo sem ideal. Neste cenário, a pergunta que parece se impor é: Como pensar a arte depois de Hegel?

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Interviu realizat de Ciprian Vălcan cu Luis S. Krausz

ARCA – Revistă de literatură, eseu, arte vizuale, muzică, no. 4-5-6/2019 „Ne-am scufundat, atât în Brazilia cât şi în întreaga lume, într-o perioadă de pesimism şi de teroare, în care viziunile catastrofiste se înmulţesc” Ciprian Vălcan: Potrivit informaţiilor pe care le-am primit de la prietenii mei brazilieni, bunica dumneavoastră este originară din Basarabia. Ce amintiri s-au…

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“Entre o esgotamento e o devir” (André Fogliano)

Galaxia (São Paulo, Online), n. 29, p. 308-313, jun. 2015 PELBART, P-P. O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: N-1 Edições, p.345, 2013. Resumo: O avesso do niilismo é um rigoroso diagnóstico dos afetos que o governo niilista da vida aciona. O objetivo do estudo é, a partir da relação entre niilismo e…

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Café filósofico: “A morte como instante de vida” (Scarlett Marton)

Por que a morte é sempre vista como uma espécie de escândalo? Por que esse acontecimento banal provoca ao mesmo tempo horror e curiosidade? Os antigos diziam que a filosofia era uma longa meditação sobre a morte; os modernos quiseram afastá-la de suas preocupações; nós, contemporâneos, procuramos bani-la de nosso mundo. Mas a morte se…

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“O que é o trágico?” (Clément Rosset)

Antes de responder a esta pergunta inicial, impõe-se uma precaução preliminar: não pretendo fazer aqui uma interpretação do Trágico. Apenas desejo fazer a sua descrição, e a ideia de uma interpretação compromete toda possibilidade de descrição. Pode-se inclusive dizer que o rechaço de toda interpretação é tão mais indispensável em nosso assunto tanto mais quanto…

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Café filosófico: “As vertigens da razão e o mistério da fé. Kierkegaard e Pascal” (Franklin Leopoldo e Silva)

Pascal e Kierkegaard, que viveram tempos muito distintos da história da Europa, partilhavam a experiência radical de uma razão que, em seus desdobramentos, atinge enfim seus limites, seus abismos, e não se detém em suas bordas, mas neles se precipita corajosamente. A aposta de Pascal e a ironia de Kierkegaard não são apenas criações teóricas…

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