“Carta a propósito de certos impasses” (E.M. Cioran)

VOCÊ CENSUROU muitas vezes em mim aquilo a que chama o meu “apetite de destruição”. Saiba, porém, que eu nada destruo: registo, registo o iminente, a sede de um mundo que se anula, e que, através da ruína das suas evidências, corre em direcção ao insólito e ao incomensurável, em direcção a um estilo espasmódico.…

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“A melancholic exile: Emil Cioran and the feeling of nostalgia” (Paolo Vanini)

Abstract: This article aims to investigate the relationship between nostalgia, solitude, and skepticism in Emil Cioran’s thought. In the first place, we will examine how the concepts of Sehnsucht, saudade and dor are interpreted by Cioran as similar forms of radical nostalgia. In the second place, we will see how the skeptical attitude of doubting…

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“Estranha forma de vida” (Amália Rodrigues)

“Não discutiremos sobre o dever, pois assim o fazendo, falamos a crianças e a povos em sua infância, e não àqueles que assimilaram em si mesmos toda a cultura de uma época madura. De fato, é uma contradição flagrante denominar a Vontade livre e, no entanto, prescrever-lhe leis segundo as quais deve querer: ‘deve querer!’,…

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“Não basta abrir a janela” (Alberto Caeiro)

Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e…

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“O Esteta Hagiógrafo” (E.M. Cioran)

Não é um sinal de bênção haver estado obcecado pela existência dos santos. Mistura-se a esta obsessão um gosto pelas enfermidades e uma avidez de depravações. Só nos inquietamos pela santidade se tivermos sido decepcionados pelos paradoxos terrestres; buscam-se então outros, de teor mais estranho, impregnados de perfumes e de verdades desconhecidos; confia-se em loucuras…

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Colóquio “Emil Cioran, pensador incontornável do século XX”

Decorrerá no próximo dia 11 de outubro, a partir das 18h30, no El Corte Inglés de Lisboa, e terá como convidados os professores Ciprian Valcan da Universidade “Tibiscus” de Timisoara, Ricardo Gil Soeiro e Paulo Borges da Universidade de Lisboa. O Colóquio “Emil Cioran, pensador incontornável do século XX” é o segundo projeto da série…

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Colóquio “Emil Cioran, pensador incontornável do século XX”

Lisboa, 11 de outubro de 2019 El Corte Inglés Sala Âmbito Cultural, Piso 6 Programação 18h30-18h40 – Sessão inaugural: – Tânia Pires, Comunicação e Meios, El Corte Inglés – Daniel Nicolescu, Director do Instituto Cultural Romeno em Lisboa 18h40-19h10 – Paulo Borges – Saudade e nostalgia do absoluto em Fernando Pessoa e Emil Cioran 19h10-19h15…

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G.K. Chesterton, por Gustavo Corção

O GLOBO, Rio de Janeiro, 06 de junho de 1974 Graças à vigilância de Antônio Olinto, na sua “Porta de Livraria” de O Globo, chego ainda a tempo para saudar o centenário de G. K. Chesterton, o incomparável escritor inglês que mais indelevelmente me marcou a alma nos dias em que andei perdido pelo mundo…

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via 🎼 Delìrivm Còrdia*

Uma bela e pesada faixa da banda portuguesa Moonspell. Metal simples, muito bem composto e tocado, sem virtuose nem afetações (do jeitinho que eu gosto). A propósito, o Moonspell tem um álbum intitulado 1755 (2017), em referência ao ano do terrível terremoto (seguido por um tsunami) que destruiu Lisboa quase por completo.

O terremoto de 1755 provocou dois tipos de reação opostas nos europeus, uma apavorada, reativa e reacionária, a outra lúcida, esclarecida e moderna. A primeira, por parte dos cristãos e particularmente da Igreja Católica, que não tardou a lançar pela Europa diversas Cruzadas para caçar os hereges cuja impiedade teria supostamente causado a ira injustificada de Deus.

A outra reação é bem exemplificada pela postura — não religiosa, menos ainda supersticiosa — do Marquês de Pombal, que teria respondido a um voluntário que lhe perguntou: “E agora, o que fazemos?” A resposta pragmática: “Enterremos os mortos e cuidemos dos vivos.”

O irônico é que, enquanto igrejas, santuários e monumentos foram reduzidos a pó, um dos poucos espaços que permaneceram intactos foi um bairro do baixo meretrício de Lisboa.

Que não se subestime o impacto — não apenas sísmico — que aquele terremoto teve sobre a mentalidade dos europeus. Em função dessa tragédia — totalmente inesperada, tendo pegado de surpresa os lisboetas enquanto cuidavam de seus afazeres cotidianos — toda uma cosmovisão mudaria como que da noite para o dia. A filósofa Susan Neiman identifica naquele fatídico dia o início da Modernidade:

Uma razão central para localizar o início do moderno em Lisboa é justamente sua tentativa de dividir claramente a responsabilidade. Um exame atento dessa tentativa revelará toda sua ironia. Embora os philosophes sempre tenham acusado Rousseau de nostalgia, a discussão de Voltaire sobre o terremoto deixava ainda mais coisas na mão de Deus do que a de Rousseau. E, quando Rousseau inventou as ciências modernas da história e da psicologia para lidar com questões que o terremoto trazia à tona, foi em defesa da ordem de Deus. Sem levar em conta as ironias, a consciência que emergiu depois de Lisboa foi uma tentativa de maturidade. Se o Iluminismo é a coragem de pensar por si mesmo, é também a coragem de assumir responsabilidade pelo mundo no qual se é lançado. Separar radicalmente o que épocas anteriores chamavam de males naturais dos males morais fazia, portanto, parte do significado da modernidade.

Uma das ideias tradicionais da cultura ocidental que mais seria abalada pelo Terremoto de Lisboa é a ideia de uma Providência divina a conduzir o rumo dos acontecimentos (isso que Kant chama de “fio condutor da História”). Pode-se dizer que, se o ateísmo já era uma tendência em ascensão na mentalidade europeia, o terremoto só contribuiu para acentuá-la. Assim como, segundo Neiman, os horrores e a barbárie das guerras mundiais que o século XX testemunhou, e especialmente os campos de concentração nazistas. Dois marcos históricos, dois tipos distintos de mal, um natural, o outro humano e moral: a aurora e o crepúsculo da Modernidade…

Em nome do medo, do medo sem fim
Na ira dos deuses, caímos enfim
A vida cruel, tormenta assim
O céu que nos esmaga n’ausência de ti
Em nome do medo, do medo sem fim
Em nome do medo, medo
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo
Negro alfabeto do chão te levanta
Tua confiança jamais se aquebranta
Comemos os frutos de tão triste jardim
Faltou-nos o tempo, chegamos ao fim
Em nome do medo, medo
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Em nome do medo
Mas nem o vento por terra me deita
E nem o fogo por dentro me queima
Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo
Sou sangue
Sou Medo
Medo! Medo!

“A linguagem da ironia” (E.M. Cioran)

Por muito perto que estejamos do Paraíso, a ironia vem afastar-nos dele. “Inépcias”, diz-nos ela, “as vossas ideias de felicidade imemorial ou futura. Curai-vos das vossas nostalgias, da obsessão pueril do começo e do fim dos tempos. A eternidade, duração morta, só aos débeis interessa. Deixai vir o instante, deixai-o absorver os vossos sonhos.” Voltamos…

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“Acerca do budismo, Cioran e filosofia ocidental” (Paulo Borges)

CV – Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica? PB – Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria…

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Sobre desastres, escritura fragmentária e outras volúpias: as “Notas Soltas para Cioran”, de Ricardo Gil Soeiro (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

RESENHA DO LIVRO: Volúpia do Desastre: Notas Soltas para Cioran de Ricardo Gil Soeiro Existe um ponto de vista desde o qual o discurso pedagógico é impossível. O que se consegue ver deste ponto cego do espírito – que aqui chamaremos lucidez –, mais que dizer, apaga o dito; nega inclusive quando afirma – a…

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“Primeiro passo para a libertação” (E.M. Cioran)

Para fazermos uma experiência essencial, para nos emanciparmos das aparências, não é necessário, de maneira alguma, colocarmos a nós próprios grandes problemas; qualquer pessoa pode dissertar acerca de Deus ou exibir um verniz metafísico. As leituras, as conversas, a ociosidade asseguram-no. Nada mais banal do que um falso espírito inquieto; porque tudo se aprende, mesmo…

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“O reverso de um jardim” (E.M. Cioran)

Quando o problema da felicidade suplanta o do conhecimento, a filosofia abandona o seu domínio próprio para se consagrar a uma actividade suspeita: interessa-se pelo homem… Atraem-na questões que até então não se dignara abordar, e tenta responder-lhes com o ar mais sério deste mundo. «Como não sofrer?» — é uma das questões que a…

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“São Paulo” (E.M. Cioran)

Nunca o acusaremos o bastante por ter feito do cristianismo uma religião deselegante, por nele ter introduzido as tradições mais detestáveis do Antigo Testamento: a intolerância, a brutalidade, o provincianismo. Com que indiscrição interfere em coisas que não lhe dizem respeito, de que nada entende! As suas considerações sobre a virgindade, a abstinência e o…

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«La voluttà del disastro: Note sciolte per Cioran». Intervista con Ricardo Gil Soeiro

ORIZZONTI CULTURALI ITALO-ROMENI – Rivista Interculturale Bilingue, anno IX, febbraio 2019 «L’ESISTENZA, per Cioran, oscilla sempre in questa delicata tensione tra, da un lato, l’assumersi come tragedia incommensurabile e, dall’altro, l’essere messa in prospettiva come una lieve noia, come un tedio che deve essere sopportato…  Ad ogni modo, si tratta sempre (come nel caso di…

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“O comércio dos místicos” (E.M. Cioran)

Nada mais irritante do que essas obras que apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo excepto com o sistema. De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes,…

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Escritas do desastre e outras volúpias: entrevista com Ricardo Gil Soeiro, autor de “Notas Soltas para Cioran” (Labirinto, Portugal, 2019)

“A EXISTÊNCIA, para Cioran, oscila sempre nessa delicada tensão entre, por um lado, se assumir como uma tragédia incomensurável e, por outro lado, ser perspectivada como um leve aborrecimento, como um tédio que se tem de suportar… Mas trata-se sempre (como também em Pessoa) de um enquadramento muito específico: de uma teologia sem teologia, uma…

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“Transcender Deus de Eckhart a Silesius” (Paulo Borges)

Philosophica, 34, Lisboa, 2009, pp. 439-457. Transcender Deus, transcender o transcendente, como supremo cumprimento da mais perfeita vida religiosa? Pretendemos compreender o sentido desta proposta em dois dos autores que mais explicitamente a formularam – Mestre Eckhart e Angelus Silesius – e ponderar como ela, ao desvelar uma instância não só a-teológica, mas também a-teia,…

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Prefácio a “Revelações da Morte”, de Chestov (Jorge de Sena)

Léon Chestov – pseudónimo de Lev Isaakovitch Chvartsman – nasceu em 1866, em Kiev, capital da Ucrânia e uma das mais antigas e prestigiosas cidades da civilização russa; aí, oriundo de rica família judaica, estudou direito; tomando posição contra a Revolução de 1917, emigrou para a França em 1920, onde são publicados em francês estudos…

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“Sinais do demiurgo cego em ‘Todos os que caem’, de Samuel Beckett” (Armando Nascimento Rosa)

Uma versão inicial deste estudo foi apresentada como conferência em 15 de Novembro de 2002 no Teatro Garcia de Resende, em Évora, numa sessão promovida pelo Cendrev (Centro Dramático de Évora). «MRS. ROONEY (Aflita): Cuidado com a galinha! (Guinchar de travões. Cacarejo) Oh, céus, esborrachou-a! Continue! Continue, não páre! (O carro acelera. Pausa) Que maneira…

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“A luta contra as evidências (2)” (Lev Chestov)

Surgunt indocti et rapiunt coelum! Para arrebatar o céu, é preciso renunciar ao saber, aos princípios primeiros, que bebemos no leite materno. E mais. É preciso, conforme tivemos ocasião de nos convencermos ao ler as frases anteriormente citadas, renunciar na generalidade às ideias, quer dizer, pôr em dúvida o seu maravilhoso poder de transmutar em…

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“A luta contra as evidências” (Chestov)

“QUEM SABE?” — diz Eurípedes — “Talvez a vida seja a morte, e a morte a vida.” Estas palavras, Platão, em um dos seus diálogos, fá-las repetir a Sócrates, o mais sábio dos homens, o criador da teoria das ideias gerais e o primeiro a considerar a nitidez e a claridade dos nossos juízos como…

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“As revelações da morte” (Chestov)

A Inmate Blogger DOSTOIEVSKY CUMPRIU A PENA; terminou, também, o serviço militar. Está em Tver, e depois em Petersburgo. Tudo quanto espera se realiza. Sobre ele estende-se a imensa cúpula celeste. É um homem livre, como aqueles cuja sorte invejara, quando acorrentado. Resta-lhe pôr em prática as promessas que a si próprio fez. Devemos acreditar…

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“O conhecimento póstumo” (E.M. Cioran)

Existe um conhecimento que retira peso e alcance ao que fazemos: para ele, tudo está desprovido de fundamento, à excepção de si mesmo. Puro ao ponto de abominar a própria ideia de objectivo, ele traduz essa sabedoria extrema segundo a qual é indiferente praticar ou não praticar um acto, e que se faz acompanhar por…

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“Fernando Pessoa e a filosofia. Um diálogo com Emil Cioran e John Gray” (João Maurício Barreiros Brás)

Resumo: A revista Orpheu é uma publicação ímpar na história cultural Portuguesa, a sua brevidade é sintomática do nosso modo de estar. É contudo sobre Fernando Pessoa que este texto incide. Defendemos que não é possível uma compreensão ampla de Pessoa sem analisar a importância da Filosofia na sua obra. Para sustentar esta afirmação: «Numa…

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“Emile Cioran e os Equívocos da Filosofia” (João Maurício Barreiros Brás)

Revista Gepolis, Universidade Católica Portuguesa, no. 5, 1998 [Pdf] O objectivo deste artigo consiste em abordar estas questões insignificantes, acompanhados por um pensador, Emile Cioran, que pode servir como exemplo de um tipo de filósofo c filosofia esquecidos. Estamos em presença de um perseguidor incansável da lucidez e do desengano, no sentido daquele que vê,…

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