Um pensamento contra os falsos sábios e sofistas – entrevista com Helène Politis sobre Kierkegaard

IHU On-line – Revista do Instituto Humanitas Unisinos, n. 418, 13 maio 2013 Autor de uma obra endereçada aos “leitores possíveis” dispostos a estudá-la sem preconceito, Kiekegaard denunciou o caráter irrealista e abstrato da racionalidade hegeliana, destaca Helène Politis. Conexões entre o existencialismo e as ideias do dinamarquês são inadequadas Leitora de Kierkegaard há mais…

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Chestov e a razão

Folha de São Paulo, 14 março 1978 Já tive ocasião de apontar que em Plotino encontramos a melhor, ou antes, a mais completa definição de filosofia. A pergunta – que é filosofia? – ele responde: – “To timiotaton” (o que mais importa). Essa definição destrói, logo de início e, ao que parece, não intencionalmente, as…

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“Eterno” (Carlos Drummond de Andrade)

E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno. Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna, o fogo eterno. (Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.) — O que é eterno, Yayá Lindinha? — Ingrato! é o amor que te tenho. Eternalidade eternite eternaltivamente eternuávamos eternissíssimo A cada instante se criam novas categorias do eterno.…

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Alguns aforismos de Razne: um dos últimos escritos de Cioran em romeno

Li todos os livros da tristeza humana. E não me convenceram Convenceu-me o sangue, não obstante, sussurrando às ideias o cansaço de seu próprio calor. § A nostalgia é a forma mais doce da alienação mental, de nossa tendência a conceber outros mundos. § Estar no tempo, com menos proveito do que Deus antes da…

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“Harmonias do inferno” – Baudelaire e a crise do paradigma musical (Eduardo Veras)

Remate de Males, Campinas-SP, n. 1, pp. 301-320, ja.jun./2019 Resumo: Este artigo propõe uma análise da relação problemática que a poesia de Baudelaire estabelece com a música. Pretendemos mostrar como o poeta dramatiza a desestruturação da linguagem poética tradicional pela adesão a uma retórica da desarmonia, da dissonância e do barulho, sem contudo se render…

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“A dor e o existir: Fernando Pessoa” (Neyza Prochet)

Cadernos de psicanálise (Rio de Janeiro), vol. 34, no. 27, Rio de Janeiro, dez. 2012 Para o homem, a arte é o recurso que possibilita dar forma, tempo e lugar àquilo que, de outro modo, lhe seria inacessível. É a capacidade criativa que conecta o indivíduo a seu núcleo central, à fonte de onde se…

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Eduardo Marinho, filósofo essencial (2)

No entanto, a função dos olhos não é ver, mas chorar; e para ver realmente é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, enquanto que a percepção esgota-se no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre. CIORAN, Breviário de decomposição

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“Ictiofídeos e liberais” (John Gray)

Em Da outra margem, coleção de ensaios e diálogos escrita por Alexander Herzen entre 1847 e 1851, o jornalista radical russo imagina um diálogo entre alguém que acredita na liberdade humana e um cético que julga os seres humanos por seu comportamento, e não pelos ideais professados. Para surpresa daquele que acredita, o cético cita…

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“O mundo tem de recomeçar” (Emil Cioran)

ALGUÉM terá de sair um dia sob o sol e gritar para seu esplendor e para as trevas dos homens: “O mundo tem de recomeçar, o mundo tem de recomeçar!” Será necessário encontrar um emissário de um mundo novo que assuma todos os riscos da grande nova, que se esgote gritando em todas as direções…

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“Não resistência à noite” (E.M. Cioran)

No começo, acreditamos avançar para a luz; depois, fatigados por uma marcha sem fim, deixamo-nos deslizar: a terra, cada vez menos firme, não nos suporta mais: abre-se. Em vão buscaríamos perseguir um trajeto para um fim ensolarado, as trevas se dilatam ao redor e dentro de nós. Nenhuma luz para iluminar-nos em nosso deslizamento: o…

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10 anos de (in)existência: um blogue que não dorme desde 2010

Os trabalhos e os dias… Três horas da manhã. Apercebo-me deste segundo, e do que se lhe segue, faço o balanço de cada minuto. Por que tudo isto? — Porque eu nasci. Questionarmos o nascimento resulta de um tipo especial de vigílias. CIORAN, Do inconveniente de ter nascido (1973) Em 2019, o Portal E.M.Cioran🇧🇷 completou…

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Desespero, a maior vantagem humana: Kierkegaard & Cioran

“A superioridade do homem sobre o animal está pois em ser suscetível de desesperar. […] Assim há uma infinita vantagem em poder desesperar, e, contudo, o desespero não só é a pior das misérias, como a nossa perdição.” (Kierkegaard, O Desespero humano) * “Não existem argumentos para viver. Quem chegou ao limite ainda pode recorrer…

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Eduardo Marinho, filósofo essencial

Cioran: … A liberdade (…), não ter obrigações nem responsabilidades, fazer só o que eu quero, não ter horários, só escrever sobre as coisas que me interessam. E não ter outros objetivos que estes. Liiceanu: E esta é a única realização da qual você se orgulha? Ter feito apenas o que você quis? Cioran: Nada mal!

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Cioran, o místico de uma era pós-Deus: entrevista com Mirko Integlia (última parte)

[PDF] Acaba de ser publicado, em inglês, um novo livro de exegese filosófica sobre Cioran – e um importantíssimo, tanto pela temática quanto pela abordagem: Atormentado por Deus: o niilismo místico de Emil Cioran (Libreria Editrice Vaticana, 2019), do filósofo e teólogo Mirko Integlia. O livro é uma minuciosa análise textual e contextual, histórico-hermenêutica, disso…

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“Canto Das Três Raças” (Clara Nunes)

Ninguém ouviu Um soluçar de dor No canto do Brasil Um lamento triste Sempre ecoou Desde que o índio guerreiro Foi pro cativeiro E de lá cantou Negro entoou Um canto de revolta pelos ares No Quilombo dos Palmares Onde se refugiou Fora a luta dos Inconfidentes Pela quebra das correntes Nada adiantou E de…

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“Vai passar” (Chico Buarque & Francis Hime)

Os homens dizem: “tudo passa” – mas quantos compreendem o alcance desta aterradora banalidade? Quantos fogem da vida, a cantam ou a choram? Quem não está imbuído da convicção de que tudo é vão? Mas quem ousa encarar as consequências disso? O homem com vocação metafísica é mais raro que um monstro – e entretanto…

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Jeff Koons, Anti-Cioran

Um ser sem duplicidade não possui profundidade e mistério; não esconde nada. Só a impureza é sinal de realidade. E se os santos não são inteiramente desprovidos de interesse, é que sua sublimidade mistura-se ao romance e sua eternidade presta-se à biografia; suas vidas indicam que abandonaram o mundo por um gênero suscetível de cativar-nos…

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“Mensagem à Poesia” (Vinícius de Moraes)

“A minha missão é sofrer por todos os que sofrem sem o saberem. Devo pagar por eles, expiar a sua inconsciência, a sorte que têm de ignorar até que ponto são infelizes.” (Cioran) Não posso Não é possível Digam-lhe que é totalmente impossível Agora não pode ser É impossível Não posso. Digam-lhe que estou tristíssimo,…

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“Poema de Natal” (Vinícius de Moraes)

POEMA DE NATAL Rio de Janeiro , 1946 Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos – Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será a nossa vida:Uma tarde sempre…

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O Diabo, filantropo funesto (E.M. Cioran)

PLANEJAR uma sociedade na qual, segundo uma etiqueta aterradora, nossos atos são catalogados e regulamentados, na qual, por uma caridade levada até a indecência, se preocupam com nossos pensamentos mais íntimos, é transportar os tormentos do inferno para a idade de ouro, ou criar, com a ajuda do diabo, uma instituição filantrópica. Solares, utópicos, harmônicos…

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Leia texto de Dostoiévski inspirado em Natal na prisão

Trecho é de ‘Escritos da Casa Morta’, antes traduzido como ‘Memórias da Casa dos Mortos’ [SOBRE O TEXTO] Fiódor Dostoiévski era um nome promissor nas letras russas quando foi preso, em 1849, aos 28 anos. Condenado ao fuzilamento por frequentar um círculo de pensadores críticos ao czarismo, teve sua pena comutada, passando quatro anos no presídio…

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“Não existem ateus na Bahia” (Cynara Menezes)

Carta Capital, 3 de abril 2012 Um ateu baiano é que nem uma pessoa que crê em Deus: ambos têm diante de si a dura missão de convencer o mundo. O crente é desafiado a provar a vida inteira, inclusive a si, que há um Deus. Já o ateu baiano, nascido numa terra cuja capital,…

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“Onde nascem os mitos? Cioran responde” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Onde nascem os mitos? Eles “surgem do lugar mais corrompido que existe entre a terra e o céu, do lugar onde a loucura jaz na ternura, cloaca de utopias e vermineira de sonhos: nossa alma.” Um mito prospera num corpo social enfermo de insegurança e medo, desorientação e (desejada) ignorância; pode sobreviver durante longos períodos…

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“Às margens do ser (a propósito de Liliana Herrera)” (Alfredo Abad)

Um belo e inspirado texto do filósofo e professor colombiano a esta que foi, além de poeta, escritora e tradutora (mulher polivalente), uma filósofa da existência perfeitamente marginal, ou seja, alheia aos academicismos, às patifarias e à vanitas que são, via de regra, proporcionais ao grau de erudição e de institucionalização, vícios quase onipresentes nos…

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“Cioran: pensador-cantor com uma alma perdidamente musical” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Não se pode eludir a existência com explicações, só se pode suportá-la, amá-la ou odiá-la, adorá-la ou temê-la, nessa alternância de felicidade e de horror que exprime o ritmo mesmo do ser, suas oscilações, suas dissonâncias, suas veemências amargas ou alegres.” (Breviário de decomposição) “Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia:…

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“O tédio dos conquistadores” (E.M. Cioran)

PARIS PESAVA sobre Napoleão, segundo confissão do próprio, como um “manto de chumbo”: dez milhões de homens pereceram em consequência disso. É o balanço do “mal do século”, quando um René a cavalo torna-se seu agente. Esse mal, nascido na ociosidade dos salões do século XVIII, na languidez de uma aristocracia demasiado lúcida, fez estragos…

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“Jesus veio nos libertar das religiões?” (Juan Arias)

El País, 17 de dezembro 2019 Logo depois surgiu uma Igreja misógina que continua tristemente viva dois mil anos mais tarde e pela qual o revolucionário papa Francisco luta para devolvê-la o sopro de liberdade Pode parecer um paradoxo, mas existe um consenso entre o biblistas mais abertos de hoje em defender que o profeta…

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Cioran, o místico de uma era pós-Deus: entrevista com Mirko Integlia (2ª parte)

“Il testo cioraniano è ‘rischioso‘. A escritura cioraniana possui uma profundidade que poderíamos definir, para usar uma terminologia atual, “hipertextual”, isto é, a assim-chamada mensagem não se esgota na imediatidade do escrito, mas abre continuamente vertentes de reflexão ulterior, as quais, de resto, atravessam a obra inteira como um fluxo de consciência que busca superar…

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