Entrevista com Matéi Visniec: “Em Cioran há o prazer de pensar”

O dramaturgo romeno Matéi Visniec diz que o pensamento de Emil Cioran, o mais famoso filósofo romeno, é um pensamento que dá vertigem. Instigado, porém, pela maneira elegante e eloquente de Cioran refletir e escrever sobre o vazio – ou os vazios – Visniec dedicou ao pensador niilista uma de suas peças: Os desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte, no Brasil publicada pela É Realizações. Com exclusividade para a Fausto, quando em visita ao país, Matéi Visniec fala um pouco mais desse guia espiritual de almas inquietas, mestre tão perturbador quanto irresistível – diga-se já, uma das pedras fundamentais dessa revista. Deleite-se! [+]

Publicado em Faustomag. Tradução: Flavio Deroo.

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“A liquidação tecnológica da palavra está em marcha”: Matéi Visniec no Brasil

Autor romeno naturalizado francês realizará palestras neste domingo em Porto Alegre dentro do 9º Festival de Inverno

Por Fábio Prikladnicki – Porto Alegre, Zero Hora, 27/07/2017

Se a tarefa de um dramaturgo é responder às grandes questões de seu tempo, o romeno naturalizado francês Matéi Visniec pode se dar por satisfeito. Sua mais recente peça publicada no Brasil, Migraaaantes, é inspirada na muito atual tragédia dos refugiados. Seus textos reescrevem a história e recuperam grandes personagens da cultura e da intelectualidade em uma chave não realista que muitos identificam com o teatro do absurdo. Visniec estará em Porto Alegre para realizar a palestra Teatro e Jornalismo: Tentativas de Compreender o Mundo, na qual abordará a relação entre sua vivência na imprensa e a criação teatral. Será neste domingo (30/7), às 15h, na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307), com entrada franca, dentro da programação do 9º Festival de Inverno, que vai até quarta-feira (veja detalhes no roteiro da página 8). Leia, a seguir, a entrevista concedida pelo autor a Zero Hora por e-mail.

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Migraaaantes trata de um tema bastante atual. Poderia comentar quais foram suas inspirações para escrevê-la? E você acredita que o dramaturgo tem o compromisso de abordar as grandes questões de seu tempo?
A Europa está sacudida neste momento pelo fenômeno da imigração. Trata-se de um movimento massivo de populações que batem às portas da Europa para escapar da guerra, dos massacres, das perseguições de todo tipo, do subdesenvolvimento, da miséria material (e por vezes cultural e sexual), da fome, das mudanças climáticas catastróficas. As migrações tornaram-se um fenômeno duradouro. Nada poderá parar essas milhões de pessoas em busca de dignidade e de uma vida melhor. Isso é fato, é uma constatação de todos os especialistas e da mídia. A questão agora está ligada às mudanças políticas, culturais, identitárias, sociais e de outras naturezas que esses movimentos vão gerar. O debate é rico, suscita polêmicas, engendra reações de fechamento e de medo. Uma coisa é certa: nada será como antes. As migrações são sinais de um mundo em mudança. Creio que o olhar do artista é importante na compreensão do que está ocorrendo. Todo mundo deve participar desse debate, deve esforçar-se para compreender o que está acontecendo à humanidade: os políticos, os sociólogos, os historiadores, os jornalistas, os especialistas em geopolítica, os pesquisadores, os cientistas, os climatólogos, os economistas. Nesse contexto de brainstorming, a voz dos artistas é importante, ela é mesmo peculiar. O teatro pode também participar desse debate, pois atrás do fenômeno das migrações se escondem dramas individuais e coletivos assustadores, tráficos de todos os tipos e redes de explorações infernais, escolhas políticas discutíveis do lado das grandes potências e formas de indiferença condenáveis… (leia a entrevista na íntegra aqui)

Teatro: Mansarde à Paris (Papierthêatre)

Mise-en-scène da peça de Matéi Visniec (Desvãos Cioran ou Mansarda em Paris com vista para a morte) pela companhia francesa Papierthêatre.

Direção: Alain Lecucq

Resumo: Saindo da Editions Gallimard um dia, o filósofo Emil Cioran se dá conta de que esqueceu o caminho para sua casa. É o ponto de partida desta peça, que segua a errância de um grande filósofo romeno de expressão francesa a partir do momento em que ele começa a perder a memória. Durante vários dias, Emil Cioran perambula por Paris, vai à Gare de l’Est para esperar o Expresso Oriente, à prefeitura para que carimbem seu documento de apátrida, encontra diversos personagens insólitos como a Dama das migalhas ou o Cego do telescópio. Ele, o filósofo que cultivou sua lucidez e o niilismo, que demoliu em seus livros todas as ideias suscetíveis de salvar o Homem, ele, o teórico do suicídio como único horizonte que torna a vida suportável, se dirige em direção à morte aspirado pela perda de sua memória (do site da companhia)

Resenha do livro: “Quando a memória sai de cena”

“Uma homenagem subjetiva…” (Matéi Visniec)

Entrevista com Henrique Zanoni: “Música perfeita para o suicídio”, espetáculo teatral inspirado na obra de Cioran

Ao longo de mais uma madrugada insone, o jovem filósofo Emil Cioran embarca numa viagem vertiginosa, mas repleta de um humor ácido, se embrenhando por temas como a lucidez, o amor, a arte, a morte e a vida.

A peça “Música perfeita para o suicídio”, que integra o repertório teatral da Cia. dos Infames, criada a partir dos escritos de Cioran, entrou em cartaz no dia 24 de maio de 2016, no Teatro Cemitério de Automóveis, na capital paulista.

 

Contemplada no 2º Prêmio Zé Renato de Teatro da Secretária Municipal de Cultura, tem direção de Cristiano Burlan e atuação de Henrique Zanoni. Este é o segundo projeto da Cia. dos Infames – a estreia se deu com “A Vida dos Homens Infames”, baseada na obra de Michel Foucault. Jean-Claude Bernardet, crítico, professor e ator, faz uma participação especial em vídeos que interagem com o protagonista.

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Nesta entrevista, o ator, diretor e dramaturgo Henrique nos conta um pouco sobre o e sobre a trajetória que o levou à ideia de produzir um monólogo sobre o autor romeno. O potencial dramatúrgico de Cioran, a virtude catártica de sua obra, a infâmia como ética de vida, o humor e a poeticidade da prosa cioraniana como ingredientes de uma mise-en-scène explosiva , entre outros assuntos – eis o que o leitor encontrará a seguir. 

EMCioran/Br: Primeiramente, Henrique, muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Para começar, que tal se você se apresentasse, falando um pouco de sua formação e de sua carreira artística?

H.Z.: Em primeiro lugar, sou eu que gostaria de agradecer! O blog mantido por você foi uma das grandes fontes de pesquisa para o projeto! Então, registro aqui publicamente minha admiração por esse trabalho e a importância para a difusão e potencialização da obra de Cioran.
Em relação à minha formação, tenho um passado que condena – sou economista! Depois dessa fase vergonhosa, estudei e me formei como ator no INDAC. Lá se vão quase dez anos! Nesse período, trabalhei com algumas companhias de teatro, passando por textos clássicos como Shakespeare, Tchekhov, Arrabal, e também por autores brasileiros contemporâneos (Mario Bortolotto, Samir Yazbek, Marcos Barbosa).
Em 2012, me tornei sócio da produtora de cinema Bela Filmes, ao lado de Cristiano Burlan. Na produtora, realizamos inúmeros longas metragens (ficção e documentário), tais como “Sinfonia de um Homem Só”, “Amador”, “Mataram Meu Irmão”, “Hamlet”, “Em Busca de Borges”, entre outros. Trabalhei também com outros diretores, tais como Marcelo Caetano e Cláudio Gonçalves. Em 2015, dirigi meu primeiro curta-metragem, “Brutalidade”, que passou em alguns festivais nacionais (Juiz de Fora, Ouro Preto) e internacionais (Itália, México).
A partir dessa pesquisa que eu e o Cristiano desenvolvemos no cinema, decidimos, em 2013, fundar nossa Companhia de Teatro, a Cia dos Infames. Nosso primeiro projeto foi “A Vida dos Homens Infames”, baseado em dois diários resgatados por Michel Foucault – “Eu, Pierre Riviere, que degolei minha mãe, meu irmão e minha irmã…” e “Herculine Barbin: Diário de uma Hermafrodita”. A peça tinha direção do Cristiano Burlan e dramaturgia minha e da Marcela Vieira. Além da peça, que cumpriu 2 temporadas em São Paulo e rodou por alguns festivais nacionais, o projeto contou com o ciclo de debates “Por um Teatro Não-Fascista”, onde debatemos temas como escrita, atuação, encenação e crítica teatral, e contou com nomes como Luiz Fuganti, Roberto Alvim, Samir Yazbek, Salma Tannus, Maria Eugênia de Menezes, entre outros.
Bom, e chegamos agora com o projeto “Música Perfeita para o Suicídio”, que foi contemplado no 2o Edital Zé Renato de teatro da prefeitura de São Paulo.

EMCioran/Br: Como você chegou a Cioran, ou, pela perspectiva oposta, como Cioran chegou até você? Qual foi sua primeira leitura do autor e o que o atraiu a ele?

H.Z.: Há 3 anos atrás, o Cristiano me deu o livro “Breviário de Decomposição”. Confesso que não fui arrebatado de imediato pela obra, mas desde o início, o cinismo e humor de Cioran, aliado a sua escrita altamente poética e pessoal me pareceram um material muito interessante para trabalhar dramaturgicamente. Fui atrás das outras obras. Foi então que entrei em contato com “Nos Cumes do Desespero”. Quando li a abertura do livro (“Escrevi esse livro aos 22 anos de idade… se não o houvesse escrito com certeza teria posto fim às minhas noites”), fui imediatamente capturado. A partir daí, devorei todos os livros (em português) de Cioran e a leitura realmente teve um efeito devastador sobre minha visão e ética com a vida. Comecei a separar os temas que me interessavam, as mudanças e contradições ao longo de sua obra, as histórias que contava, etc.. De certa maneira, encaro sua obra sob uma certa perspectiva trágica: fico sempre imaginando o que esse franco-romeno teve que passar para produzir sua obra, o que ele se dispôs a enfrentar, uma lucidez e consciência ininterruptas, e, ao dar forma a esses pensamentos duros e difíceis, quando lemos, sentimos uma certa catarse, pois todos sentimos aquilo, mas nos falta coragem para enfrentar as questões de frente; mas através da leitura, da expressão, a vida torna-se um pouco menos insuportável.

EMCioran/Br: Você acaba de estrear um monólogo inspirado na obra de Cioran, e intitulado “Música perfeita para o suicídio”. Anteriormente, você havia produzido outra peça, inspirada na obra de Foucault. O que o levou a escolher estes dois autores? Como surgiu a ideia de dramatizar a obra de Cioran, que, diferentemente de outros pensadores do mesmo contexto histórico-cultural (vêm a mente Sartre, Camus e Beckett, entre tantos outros), nunca se arriscou a produzir para o teatro? Enfim, que tipo de apelo dramatúrgico você enxerga na obra de Cioran? Aliás, não é a primeira vez que a obra do autor do Breviário de decomposição é adaptada ao teatro, no Brasil ou em outros países, como a França…

H.Z.: O que, talvez, me interessa nas obras de Foucault e Cioran é uma certa infâmia com a vida, com os temas escolhidos e a própria escrita que produziram (as escolhas artísticas não são exatamente planejadas e conscientes; por vezes tomamos contato com obras que nos arrebatam e você simplesmente não consegue se livrar delas; talvez as peças sirvam a esse propósito de libertação). A nossa companhia de teatro tem esse interesse, de lidar com autores infames, de unir o pensamento com a encenação, unir ética e estética. Mas também estamos interessados agora em autores brasileiros contemporâneos.
Devo dizer que o humor de Cioran foi o que me arrebatou profundamente. Ainda que um sorriso estranho, desconfortável (a imagem da hiena, tão cara a ele, me vem a mente de imediato) sempre que penso em Cioran, quase não consigo parar de rir! Além disso, a própria escritura/estilística de Cioran me estimulava muito: capaz de criar imagens que flertam com uma certa “paixão do absurdo”, de uma poética fabulosa e intrincada, e, principalmente por escrever tudo em primeira pessoa! Como ele mesmo diz, “tudo o que escrevi, é inseparável do que vivi. Não inventei nada, fui apenas o secretário de minhas sensações”. Juntando todos esses elementos – escritura profundamente pessoal, altamente poética e imagética e dotada de humor pra lá de instigante – me pareceram ingredientes com um potencial dramatúrgico muito rico e explosivo.
Mas a grande dificuldade foi: o que o teatro, e somente o teatro, pode trazer para a obra de Cioran? Caso contrário, acho muito mais interessante ler os livros! Além disso, o tempo todo, queria fugir de dois problemas que enxergo numa leitura superficial de Cioran: como não “construir” um personagem que fosse uma caricatura de um louco (o que Cioran definitivamente não era) e como não fazer uma “palestra” sobre seus escritos. E sempre achei que o humor/cinismo de Cioran deveria dar o tom da peça (como não cair num “stand-up comedy” banalizado e boçal era outro desafio). Finalmente, tanto os temas como a própria escrita de Cioran são muito complexos, quase labirínticos, então o desafio seria como “incluir” (no bom sentido) o público nessa viagem do pensamento. Se o teatro é ação, como fazer do pensamento, ação? Enfim, foram 3 anos de um longo, difícil e prazeroso caminho para chegarmos aqui.

EMCioran/Br: Por que o título “Música perfeita para o suicídio”?

H.Z.: Nomear as obras é sempre uma grande luta! E nomear uma obra baseada em Cioran, mestre nos títulos, trouxeram ainda mais dificuldade para isso!
Em termos mais concretos, posso citar alguns, digamos, disparadores (não há nenhuma “hierarquia” aqui): a música tem uma importância muito grande para Cioran e também para mim (cada trabalho que faço, utilizo um conjunto de músicas para estimular a criação). Além disso, a música tem um poder muito forte para mim e o Cristiano em termos de encenação. Teve também o fato de entrar em contato com a música “Domingo Sombrio”, de Rezso Seres (que ficou conhecida como música húngara do suicídio), que acho que dialoga muito com a obra cioraniana. Por fim, tanto na dramaturgia como interpretação e encenação, buscamos transformar os escritos em música; uma música feita de palavras, de entonações, pausas, velocidades, que fosse perfeita para o suicídio; transformar o “falar” do ator numa partitura musical. Em suma, tentar dar conta do que considero talvez o mais importante para uma obra de arte: a criação de uma atmosfera.

EMCioran/Br: Como alguém dedicado às artes cênicas e à dramaturgia, você encontra alguma dificuldade especial em adaptar a obra de um autor como Cioran para o teatro, algum desafio específico em se tratando de uma discursividade tão complexa como a do autor do Breviário, tão fragmentária e assistemática como a dele?

H.Z.: Cada vez mais tenho a percepção de que mais importante para o artista é saber o que não queremos! Então, desde o início não queria transformar Cioran num louco vulgar e também não queria fazer uma palestra a partir dos escritos de Cioran. Queria também incluir o humor cioraniano, sem simplificar suas ideias, sem fazer algo mastigado e bobinho para a plateia (acredito piamente que os espectadores, quando criadas as condições, topam a viagem teatral e embarcam junto com você). O desafio era fazer uma biografia de Cioran, mas não uma biografia “histórica”, e sim uma biografia através de seu pensamento (que, no fim das contas, é o que interessa). Então, precisava de certa maneira unir o subtexto do ator com o subtexto do pensamento de Cioran. Enfim, todo o trabalho talvez tenha sido deixar me permear pelo pensamento de Cioran, sentir esse pensamento na minha pele, transformar esse pensamento em ação.

EMCioran/Br: Um livro favorito de Cioran? Algum aforismo, ou alguns?

H.Z.: Difícil…. muito difícil… Vou citar apenas o que talvez tenha sido o livro mais importante para a escritura da peça (e que inclusive o próprio Cioran disse que todos seus temas estão ali, somente foram retrabalhados nos livros posteriores): “Nos Cumes do Desespero”.
E, mais difícil que um livro, talvez seja um aforismo. Vou escolher um em função do próprio ofício do ator. Ainda que essencialmente coletivo, existe uma solidão essencial do trabalho de criação: “É na solidão que as lágrimas são ardentes”.

EMCioran/Br: Há um teaser da peça que, aliás, acompanha esta entrevista. Para além dele, o que você poderia adiantar a respeito da peça, sem estragar a surpresa? É para deixar os leitores do portal, e potencial público do espetáculo, ainda mais instigado para vê-lo…

H.Z.: Qualquer coisa que eu diga, será diferente da experiência que buscamos criar com a peça. Então, a única coisa que diria: VENHAM VER A PEÇA! São 50 minutos viajando pelos pensamentos (e atmosfera) de Cioran!
Antes de ser uma palestra pedante sobre como lidar com sua vida, embarcamos numa viagem vertiginosa por temas difíceis e delicados, mas dotados de um humor e um cinismo ímpar, contagiantes! (“se fosse eleito Deus, imediatamente pediria demissão”; ou “durante todo minha vida nutri a pretensão extraordinária de ser o homem mais lúcido que já existiu. Cada um com sua loucura; a minha foi me julgar normal”; ou “um passeio no cemitério é uma lição de sabedoria quase automática; é melhor que ir no médico”). Enfim… venham!

EMCioran/Br: Para terminar, deixo com você as últimas palavras: gostaria de dizer algo mais, sobre Cioran, sobre o teatro, sobre sua peça inspirada em Cioran?

H.Z.: Já falei muito! Hehe… Mas gostaria novamente de agradecer imensamente a você (e seu blog!). Devo agradecer também a Fernando Klabin, Flamarion Caldeira Ramos e José Thomaz Brum. Vocês são os verdadeiros multiplicadores desse kamikaze chamado Cioran. E para os leitores, diria: o teatro é por definição efêmero. Então, venham experienciar essa atmosfera cioraniana materializada na cena.

EMCioran/Br: Caro Henrique, muito obrigado, uma vez mais, pela entrevista. Sinto-me tentado a desejar o seguinte para você e todos os envolvidos no espetáculo que você protagoniza: “Merda!”, o que vem a ser ainda mais oportuno em se tratando de uma peça sobre Cioran…

SERVIÇO

“Música perfeita para o suicídio”, espetáculo teatral

Local: Cemitério de Automóveis – Rua Frei Caneca, 384 – São Paulo.
Classificação etária: 14 anos

Duração: 60 minutos*
(*todas as quintas haverá debates após a apresentação)

Datas e horários: somente às quintas, às 22h, dias 26 de maio, 02, 09 e 16 de junho.

PROGRAMAÇÃO DEBATES

(Mediação: Fábio Zanoni)

26 de maio – Cioran no Século XXI: Nos Cumes do Desespero
Fernando Klabin e Marcelo Mirisola

02 de junho – Escrita: Solidão e Êxtase
Dione Carlos e Rodrigo Menezes

09 de junho – O Ator e a Lucidez
Chico Carvalho e Flamarion Caldeira Ramos

16 de junho – O que Resta ao Teatro?
Mario Bortolotto e convidado à confirmar

Realização:
Prefeitura de Ṣo Paulo РPr̻mio Z̩ Renato

Produção:
Bela Filmes & Cia. dos Infames

VENDA ON-LINE (Ingresse.com)
РOs Ingressos desta oferta ṣo referentes ao ;
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Euler Santi assina o texto, dirige e atua em ‘Palestra sobre o Nada’

O monólogo se propõe a desconstruir valores e conceitos vigentes

Por Globo Teatro

Publicado originalmente em 23/04/2013

No tempo das palestras motivacionais, o ator e diretor Euler Santi decide falar sobre o nada. Inspirado na obra de um dos maiores pensadores do século XX, o franco-romeno Emil Michel Cioran, ele promove uma quebra de valores estabelecidos na sociedade e tenta mostrar que o homem vive inserido em uma dormência intelectual, resultado de uma visão antropocêntrica. Este é o mote do espetáculo “Palestra Sobre Nada”.

Cioran nasceu na Transilvânia, mas foi em Paris que escreveu a maior parte de suas obras. Pouco conhecido no Brasil, é integrante de um grupo de autores tachados de malditos, como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e o brasileiro Augusto dos Anjos. Em seus textos, buscava lidar com um lado humano mais oculto, o que chocava a comunidade.

– Na verdade, Cioran se considerava um “anti-filósofo”, pois depois de toda a reflexão feita, ele não conseguiu achar sentido em nada. Ele viu que tudo era uma mentira, uma ilusão humana. É a partir daí que nasce a obra dele, na qual ele desconstrói todos os nossos valores. Segundo ele, nossos conceitos vêm de uma visão antropocêntrica, que coloca o homem como centro do mundo. Então ele mostra que é por causa disso que nos enganamos o tempo todo, pois não enxergamos a realidade como ela realmente é – explica Euler Santi, que se baseou em seis livros da obra de Cioran para montar o roteiro do espetáculo.

Durante o espetáculo, Santi assume o papel de Cioran e promove uma espécie de palestra para a plateia. O monólogo é pontuado por algumas inserções cênicas que representam o interior da mente do pensador, representadas em cena pelos atores Leonni Moreno, Mislene Abreu e Michele Costela.

– É como se fosse uma palestra “desmotivacional” – diverte-se. – É ele destruindo as pessoas e tudo o que elas acreditam. Isso faz com que o público saia do teatro muito chocado. As verdades e os valores estabelecidos são quebrados e apontados como ilusão. Por isso é uma palestra sobre nada. Ao entenderem as reflexões de Cioran, as pessoas se conscientizam sobre a sua própria insignificância.

É essa acidez presente no texto que leva o leitor a uma reflexão sobre a atualidade. Após tanto tempo imerso na obra de Cioran, Euler explica que isso mudou a sua forma de ver as coisas. E diz que a mesma coisa acontece com todos que assistem ao espetáculo:

– A minha vida mudou. É impossível passar pela obra de Cioran de maneira impune. É algo muito contundente e isso mexe muito com você. É difícil argumentar com o que ele diz, pois todas as suas reflexões tem um embasamento profundo. Isso tem tudo a ver com a época em que vivemos, na medida em que tudo já foi experimentado e estamos vivendo um fracasso geral. Então, se chocar com esse pensamento significa ser atingido por ele e, consequentemente, modificado. É o que ocorre com todos que assistem à peça. O público sai do teatro e se pergunta: “Quem sou eu?” – conclui Santi.

“Palestra sobre nada” + História da Romênia na PUC-SP

"Palestra sobre nada", de Euler Santi
“Palestra sobre nada”, de Euler Santi

No dia 25 de outubro de 2013, foi realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) um evento consistindo na apresentação do monólogo “Palestra sobre nada” de Euler Santi e numa conversa informal com Fernando Klabin (tradutor do romeno, tendo sido o responsável pela publicação, no Brasil, de autores romenos como Emil Cioran, Mircea Eliade, Constantin Noica, Nicolae Steinhardt, entre outros) sobre a Romênia: sua história, cultura, língua.

100_1900A apresentação teatral sobre Cioran se destacou, desta vez, por ser feita especialmente para um público acadêmico (estudantes de Filosofia e outras áreas), dentro de um espaço acadêmico, levando a filosofia marginal de Cioran para dentro da universidade. Como não poderia deixar de ser, cada membro do público reage à sua maneira, porém, é impossível que fiquem indiferentes.

Após o espetáculo, teve-se a oportunidade de aprender um pouco sobre a história da Romênia, sua cultura, sua língua, etc. Fernando Klabin, que morou em Bucareste há mais de 10 anos, tendo traduzido de lá para cá importantes nomes da cultura romena (dentre eles, o próprio Cioran, com seu primeiro livro em romeno, Nos Cumes do Desespero). Euler Santi, o ator que interpreta Cioran, também esteve presente para participar da conversa e responder perguntas sobre o espetáculo.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Fernando Klabin falou sobre a configuração geopolítica da Romênia, a especificidade geográfica e cultural da região da Transilvânia, em que Cioran nasceu, em relação aos outros grandes territórios que compõe o espaço nacional da Romênia, a Valáquia e a Moldávia. Sua proximidade com a Europa central e sua inserção no espectro de domínio do Império Austro-Húngaro, que fez com que o transilvano tivesse uma formação mais européia do que os outros romenos. Explicou a origem da expressão popular romena “cabeça baixa, espada não corta” (Capul plecat sabia nu-l taie) na estratégia de sobrevivência face às sucessivas invasões de outros povos, bárbaros ou não, que consistia em certo “jogo de cintura”, e uma perspicácia psicológica, para lidar com os inimigos, sobretudo os turcos (de onde a alusão à espada), e conseguir reduzir os danos causados por suas investidas. É notável que, muito embora tenha sofrido a invasão otomana, a Romênia, diferentemente da Hungria, pôde manter intacta sua religião, o cristianismo ortodoxo, sem proibição de culto, fechamento de igrejas, perseguição religiosa, tanto que é que os otomanos não estabeleceram nenhuma mesquita em território romeno.

Palestra sobre nada
Palestra sobre nada

Euler Santi respondeu a perguntas sobre a peça e pôde falar sobre o processo de criação da mesma, suas motivações artísticas, as influências adjacentes que compõe, além de Cioran, o seu horizonte referencial em termos de arte e pensamento: Jacques Rigaut, Samuel Beckett, Os Dadaístas… Enfim, as pessoas presentes tiveram a oportunidade de assistir a uma apresentação especial, ironicamente instalada no interior de uma instituição que Cioran tanto desprezava como sendo “a morte do espírito” (Entrevistas), da “Palestra sobre nada” dedicada a Emil Cioran, que é incorporado com naturalidade e verossimilhança, profundidade e intensidade, por Euler Santi. Uma palestra de tirar o fôlego e que “abre sob nossos olhos”, como diz Jacques Lacarrière sobre Cioran, “os apocalipses e abismos do ser” (apud BRUM, José Thomas, prefácio ao Breviário de Decomposição). Também tiveram a chance de conhecer um pouco mais sobre este obscuro pensador e o seu país, que ainda têm muito a ser conhecidos pelo público brasileiro. Por fim, houve o sorteio de livros de autores romenos publicados pela É Realizações, como Matéi Visniéc (“Desvãos Cioran”), Nicolae Steinhardt (“O Diário da Felicidade”), Constantin Noica (“Diário Filosófico”) e Lucian Blaga (“A Barca de Caronte”).

Rodrigo Menezes, 27/10/2013

Uma homenagem subjetiva… (Matéi Visniec)

Não conheci Cioran pessoalmente. Aliás, nem mesmo tentei, já que sua obra me parecia suficiente para que eu pudesse me comunicar e dialogar com ele tendo toda liberdade e da maneira mais cordial.

Mas, por curiosidade, fui ouvir Cioran, que devia se apresentar num colóquio sobre Benjamin Fondane. Foi em 1988, creio. Escutei a intervenção de Cioran em francês e fiquei bastante tocado pelo fato de que naquele que era considerado pela crítica um mestre incontestável da língua francesa ainda transparecia um leve sotaque romeno.

Alguns anos mais tarde, na saída de um recital de piano dado por um artista romeno na Sorbonne, alguém me apresentou a Cioran. Demos um aperto de mão mas não trocamos uma só palavra.

Então gostaria de precisar que minha peça, que tem como personagem principal Cioran, é um encontro subjetivo e imaginário do autor Matéi Visniec com o filósofo Emil Cioran. Depois de sua morte, Emil Cioran se tornou para mim um personagem disponível. Quando era vivo, Cioran soube construir para si uma mansarda sobre o teto daquele edifício tão requerido, chamado de patrimônio cultural da humanidade.

Como personagem, ele continua a habitar em sua mansarda imortal e continua a nos intrigar e a nos incitar a pôr em questão todas as ideias recebidas.

Consequentemente, todas as personagens dessa peça (com uma nuance no que diz respeito a Cioran) são fictícias. Toda eventual semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, será inteiramente fruto do acaso c do jogo de puras coincidências.

Esta peça se quer uma homenagem subjetiva a Cioran, não obstante ela extraia sua matéria-prima do pensa-mento e das ideias do grande filosofo. As alusões não podem ser colocadas entre aspas, mas os conhecedores identificarão rapidamente, nesta peça, as fontes cioranianas de certas falas. Para os que não conhecem em profundidade a obra de Cioran, esclareço que minha peça está impregnada de numerosas ideias desenvolvidas por ele sobre unia grande diversidade de temas, começando pelo suicídio e acabando no destino do povo romeno. Entretanto, no meu trabalho de escrita, durante a construção das minhas réplicas, evitei empregar “palavra por palavra” as frases de Cioran. E, quando a lógica da peça me obriga de todo modo a utilizar as palavras dele, estas foram colocadas entre aspas, e as personagens especificam que se trata de verdadeiras citações.

Fora a obra de Cioran e suas entrevistas, vários artigos e livros sobre Cioran me foram de grande utilidade c, por isso, vou citá-los aqui. Testemunhos interessantes e reflexões sutis sobre o homem Cioran, conto, por exemplo, os assinados por Gabriel Liiceanu, Simona Modreanu, Marta Petreu, Mihai Sora, lon Vartic ou Simone Boué, me ajudaram a construir a situação dramática e a “colorir” a personagem.

Estes são os livros que permaneceram na minha mesa de trabalho durante o período em que escrevi a peça:

— Lectures de Cioran. Textos reunidos por Norbert Dodille c Gabriel Liiceanu. Paris, Éditions L’Harrnattan, 1997.

— Déclarations d’Amour, de Gabriel Liiceanu. Bucarest, Editions Humanitas, 2001.

— Cioran Naif et Sentimental, de Ion Vartic. Cluj, Editions Biblioteca Apostrof, 2000.

Este conjunto de fontes, que se encontra na minha sala, deve ser completado pelas revelações ligadas ao grande amor de outono de Cioran: Friedgard Thoma. A revista Seine et Danube, editada em Paris e que dedicou seu primeiro número a Cioran, me trouxe inúmeras informações sobre esse assunto, mais especialmente graças ao artigo assinado por Dieter Schlesak com o titulo de Je m’Ennuie de Toi — Les Lettres d’Amour de Cioran à une Allemande (Tenho Saudades de Você — As Cartas de Amor de Cioran a uma Alemã).

Matéi Visniec, Os Desvãos Cioran – Cioran ou Mansarda em Paris com Vista para a Morte, tradução de Luiza Jatobá, São Paulo: É Realizações, 2012.