“Os Anjos Reacionários” (E. M. Cioran)

É DIFÍCIL formular um juízo sobre a rebelião do menos filósofo dos anjos, sem misturar nele simpatia, assombro e reprovação. A injustiça governa o universo. Tudo o que se constrói, tudo o que se desfaz, leva a marca de uma fragilidade imunda, como se a matéria fosse o fruto de um escândalo no seio do…

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“A Ditadura da Transparência” (Byung-Chul Han)

No início, a rede digital foi celebrada como um medium de liberdade ilimitada. O primeiro slogan publicitário da Microsoft, «Aonde você quer ir hoje?», sugeria uma liberdade e uma mobilidade sem fronteiras na internet. Hoje, essa euforia já se mostrou uma ilusão. A liberdade e a comunicação ilimitadas se transformam em monitoramento e controle total.…

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“Bípedes de rostos desvalorizados” (E.M. Cioran)

SÓ NOS SUAVIZAMOS, só nos tornamos bons destruindo o melhor de nossa natureza, submetendo o corpo à disciplina da anemia, e o espírito à do esquecimento. Enquanto guardamos nem que seja uma sombra de memória, o perdão se reduz a uma luta com os instintos, a uma agressão contra o próprio eu. São nossas vilanias…

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Estilo e ceticismo (Cioran)

COM CERTEZAS, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própria dos que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se às palavras – sombras de realidade –, enquanto os outros, seguros de suas convicções, desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação. Avec des certitudes,…

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Perfeccionismo, “Obsessão do Essencial” e a condição fragmentária (Cioran)

Nos Cahiers (p. 73), estas 2 anotações, uma seguida da outra: Chercher l’être avec des mots!- Tel est notre donquichottisme, tel est le délire de notre entreprise essentielle. [Buscar o ser com palavras! — tal é o nosso donquixotismo, tal é o delírio de nossa empresa essencial.] Si jamais mortel a été tourmenté, supplicié par…

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“Madrigal triste” (Charles Baudelaire)

I Que m’importe que tu sois sage? Sois belle! Et sois triste! Les pleurs Ajoutent un charme au visage, Comme le fleuve au paysage; L’orage rajeunit les fleurs. Je t’aime surtout quand la joie S’enfuit de ton front terrassé; Quand ton coeur dans l’horreur se noie; Quand sur ton présent se déploie Le nuage affreux…

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De Maistre, Baudelaire, and Original Sin: between Tyranny and Heresy as Radical Liberty (Joseph Acquisto)

“Freedom is the supreme good only for those animated by the will to heresy.“ Cioran, Syllogismes de l’amertume * The high stakes of any modern or contemporary discussion of original sin immediately become apparent: quickly divorced from questions of belief, original sin becomes the base of a political theology that veers toward tyranny. The authoritarian conclusions fall back, however,…

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“Exegese da decadência” (E.M. Cioran)

O aforismo “Exegese da decadência” retoma — sob uma outra luz, pelo filtro de um novo idioma e da forma mentis peculiar que ele modela — a temática e a problemática de um importante texto periodístico de juventude do autor romeno do Breviário de decomposição: trata-se de Nihilism şi natura [Niilismo e natureza], publicado originalmente na revista…

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“Beatitude e sofrimento” (Clément Rosset)

Tomo emprestado ao comunicado de Henri Birault, no colóquio Royaumont sobre Nietzsche, em 1964, o termo “beatitude”, para definir o tema central da filosofia nietzschiana. Provavelmente, do mesmo modo, outros termos conviriam: alegria de viver, gáudio, júbilo, prazer de existir, adesão à realidade, e ainda muitos outros. Pouco importa a palavra, aqui é a ideia…

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“O pensamento da morte” (Nietzsche)

EM MIM me produz uma melancólica felicidade viver nessa profusão de vielas, de necessidades, de vozes: quanta fruição, quanta impaciência e cobiça, quanta sede e embriaguez de vida não se manifestam aí a cada instante! Mas logo haverá tanto silêncio para todos esses viventes ruidosos e sequiosos de vida! Como atrás de cada um está…

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“É preciso aprender a amar” (Nietzsche)

EIS O QUE SUCEDE conosco na música: primeiro temos que aprender a ouvir uma figura, uma melodia, a detectá-la, distingui-la, isolando-a e demarcando-a como uma vida em si; então é necessário empenho e boa vontade para suportá-la, não obstante sua estranheza, usar de paciência com seu olhar e sua expressão, de brandura c om o que nela é…

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“La perduta gente” (E.M. Cioran)

QUE IDEIA RIDÍCULA construir círculos no inferno, variar por compartimentos a intensidade das chamas e hierarquizar os tormentos! O importante é estar ali: o resto – simples floreios ou… queimaduras. Na cidade de cima – prefiguração mais doce da de baixo, ambas originárias do mesmo modelo –, o essencial, igualmente, não é ser algo concreto…

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Guido Ceronetti por Cioran

GUIDO seria um amante de desequilíbrios disfarçado de erudito? Às vezes isso me convence, mas no fundo não penso assim. Porque, se tem uma nítida preferência pela podridão, por outro lado é igualmente atraído pelo que há de puro na sabedoria visionária ou desesperada do Antigo Testamento. Não traduziu — admiravelmente — Jó, o Eclesiastes,…

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“Disciplina da atonia” (E.M. Cioran)

COMO CERA sob o calor do sol, derreto-me durante o dia e solidifico-me à noite, alternância que me decompõe e me restitui a mim mesmo, metamorfose na inércia e na preguiça… Aqui devia acabar tudo o que li e soube, é este o termo de minhas vigílias? A preguiça embotou meus entusiasmos, enfraqueceu meus apetites,…

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“Contra si mesmo” (E.M. Cioran)

UM ESPÍRITO só nos cativa por suas incompatibilidades, pela tensão de seus movimentos, pelo divórcio de suas opiniões e suas tendências. Marco Aurélio, engajado em expedições longínquas, inclinava-se mais sobre a ideia da morte que sobre a do Império; Juliano, ao tornar-se imperador, sente saudades da vida contemplativa, inveja os sábios e perde suas noites…

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Liberdade, Enfermidade, Utopia (E.M. Cioran)

A LIBERDADE, eu dizia, exige o vazio para manifestar-se; o exige e sucumbe a ele. A condição que a determina é a mesma que a anula. Ela carece de bases: quanto mais completa for, mais vacilará, pois tudo a ameaça, até o princípio do qual emana. O homem é tão pouco feito para suportar a…

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“Certas manhãs” (E.M. Cioran)

PESAR POR NÃO SER ATLAS, por não poder sacudir os ombros para assistir ao desmoronamento desta risível matéria… a raiva segue o caminho inverso da cosmogonia. Por que mistério despertamos certas manhãs com a sede de demolir o conjunto inerte e vivo? Quando o diabo penetra em nossas veias, quando nossas ideias sofrem convulsões, e…

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“Esgotamento por excesso de sonhos” (E.M. Cioran)

SE PUDÉSSEMOS conservar a energia que prodigamos nessa sucessão de sonhos realizados noturnamente, a profundidade e a sutileza do espírito alcançariam proporções insuspeitáveis. O argumento de um pesadelo exige um desgaste nervoso mais extenuante que a construção teórica melhor articulada. Como, após o despertar, recomeçar a tarefa de alinhar ideias quando, na inconsciência, estávamos imersos…

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“Lógica do Pior”, prefácio à edição brasileira (Clément Rosset)

Aqueles de meus amigos que tiveram a ocasião de estadiar no Brasil retornaram todos com o mesmo sentimento dominante: de uma excepcional animação e alegria de viver, junto a um sentido agudo do desastre e da catástrofe iminente. Eu experimentei pessoalmente esse mesmo sentimento assistindo ao belíssimo filme de Marcel Camus consagrado ao Brasil e…

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“Fisionomia de um fracasso” (E.M. Cioran)

SONHOS MONSTRUOSOS povoam as mercearias e as igrejas: nunca surpreendi ninguém que não vivesse no delírio. Como o menor desejo oculta uma fonte de insanidade, basta conformar-se ao instinto de conservação para merecer o asilo. A vida, acesso de loucura que sacode a matéria… Respiro: é o bastante para que me enclausurem. Incapaz de alcançar…

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“O Esteta Hagiógrafo” (E.M. Cioran)

Não é um sinal de bênção haver estado obcecado pela existência dos santos. Mistura-se a esta obsessão um gosto pelas enfermidades e uma avidez de depravações. Só nos inquietamos pela santidade se tivermos sido decepcionados pelos paradoxos terrestres; buscam-se então outros, de teor mais estranho, impregnados de perfumes e de verdades desconhecidos; confia-se em loucuras…

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“Insomnia – A Cultural History” (Eluned Summers-Bremner)

CONTENTS Sleeplessness in the Ancient World Love, Labour, Anxiety The Sleep of Reason The Night of Empire Cities That Never Sleep Wired INTRODUCTION What is insomnia? Medical practitioners describe it as the habitual inability to fall asleep or remain asleep when one wishes or needs to do so. As such, it would seem to be…

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“Lenguaje interior y aforismo: una analogía” (M. Liliana Herrera A.)

In: HERRERA A., M. Liliana; ABAD T., Alfredo A. (orgs). Cioran en perspectivas. Pereira: Universidad Tecnológica de Pereira, 2009, p. 235-253. [Pdf] Dentro de la investigación llevada a cabo por Vygotsky acerca del pensamiento y el lenguaje, queremos retomar el tema del lenguaje interior para establecer un paralelo entre los planteamientos del psicólogo ruso y…

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O risco totalitário entre a língua e a linguagem (Roland Barthes)

A linguagem é legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: ordo quer dizer, ao mesmo tempo, repartição e cominação. Jákobson mostrou que um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que…

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“Cioran y el instinto religioso: la no rendición” (M. Liliana Herrera)

In: HERRERA A., M. Liliana; ABAD T., Alfredo A. (orgs). Cioran: ensayos críticos. Pereira: Universidad Tecnológica de Pereira, 2008, p. 208-225. ¡La pasión de lo absoluto en un alma escéptica! Cioran En su artículo Le démon cioranien et dieu, Ariana Bălaşa señala que la confrontación que Cioran sostiene con Dios “ha preocupado a muchos pensadores…

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Sobre cinismos, niilismos e terrorismo de Estado (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Com o absurdo não se barganha, não se negocia. “Absurdo”, ou seja, esta palavrinha que nós, modernos, encontramos para maquiar o Mal. Como as explicações teológicas e metafísicas perderam sua razão de ser, não pegaria bem continuar usando tão atávica (e suja) expressão: “o Mal”. “O absurdo” soa melhor, mais moderno, mais filosófico, menos “cristão”… A…

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Sobre a Música (E.M. Cioran)

Nascido com uma alma habitual, pedi outra à música: foi o começo de desgraças maravilhosas… § Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido o paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases. § Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou que nela penetrasse a cólera.…

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“O conflito entre-mundos e o desconsolo a serviço das aparências” (Emil Cioran)

Vou passar a vida fugindo para o mundo no qual os homens tenham a ilusão de que são, para que o outro mundo me abrace mais forte, mais e mais. Os conflitos entre os dois mundos ou entre os inumeráveis que se interpõem têm um sabor celeste e o sentido trágico da terra. O sorriso…

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A Grande Dor: Amor Fati (Nietzsche)

1. Freqüentemente me perguntei se não tenho um débito mais profundo com os anos mais difíceis de minha vida do que com outros quaisquer. Minha natureza íntima me ensina que tudo necessário, visto do alto e no sentido de uma grande economia, é também vantajoso em si — deve-se não apenas suportá-lo, deve-se amá-lo… Amor…

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Schopenhauer, pessimismo filosófico e a recepção brasileira de Cioran: Ciprian Vălcan em diálogo com Flamarion Caldeira Ramos

Entrevista originalmente publicada em ARCA – Revistã lunarã de literaturã, eseu, arte vizuale, muzicã (fondatã în februarie 1990 la Arad), anul XXV, nr. 4-5-6, 2014, e incluída no volume Cioran, un aventurier nemişcat. 30 de interviuri [Cioran, um aventureiro imóvel. 30 entrevistas] (Bucureşti, Editura ALL, 2015), com 30 entrevistas feitas por Ciprian Vălcan com de exegetas de Cioran de todo o mundo, das…

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Do inconveniente de ter nascido, o tédio da decomposição e a necessidade última de ilusão (Emil Cioran)

“Três horas da manhã. Apercebo-me deste segundo, e do que se lhe segue, faço o balanço de cada minuto. Por quê tudo isto? — Porque eu nasci. Questionarmos o nascimento resulta de um tipo especial de vigília. (Do inconveniente de ter nascido) § Não está em nosso poder fazer voltar os arrebatamentos que nos faziam…

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