Doença; saúde

Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de que vitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede? Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; “doente”, já não sou eu quem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou por eles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtualidades indiferentes; mas a nitidez de um mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ou não: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios. Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente.
A liberdade? Sofisma dos saudáveis. (Silogismos da amargura)

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Querem multiplicar os desequilíbrios, agravar as perturbações mentais, construir manicômios em cada canto da cidade?
Proíbam a praga.
Compreenderão então que suas virtudes liberadoras, sua função terapêutica, a superioridade de seu método face ao da psicanálise, das ginásticas orientais ou da Igreja. Compreenderão sobretudo que graças às suas maravilhas, a seu auxílio constante, a maior parte de nós não é criminoso nem está louco.(Silogismos da amargura)

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Não encontrando nenhuma satisfação na vida, os biologicamente fracos se dedicam a modificá-la atacando seus princípios. (Silogismos da amargura)

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Acesso involuntário a nós mesmos, a doença nos obriga à “profundidade”, nos condena a ela. O doente? Um metafísico involuntário. (Silogismos da amargura)

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Um doente me dizia: “Para que sofro minhas dores se não sou poeta para vangloriar-me ou servir-me delas?” (Silogismos da amargura)

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A saúde é certamente um bem; mas àqueles que a possuem foi recusada a chance de se darem conta disso, pois uma saúde auto-consciente, se já não estiver comprometida, está prestes a tal. Como ninguém goza de sua ausência de enfermidades, pode-se falar sem exagero em uma justa punição dos saudáveis. (De l’inconvenient d’être né)

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São os nossos  mal-estares [malaises] que suscitam, que criam a consciência; terminada a tarefa, se enfraquecem e desaparecem um após o outro. A consciência, por sua vez, permanece e sobrevive a eles, sem se lembrar o que lhes deve, sem sequer tê-lo sabido em algum momento. Deste modo, ela não cessa de proclamar sua autonomia, sua soberania, ainda que se deteste e que queira se aniquilar. (De l’inconvenient d’être né)

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A inconsciência é o segredo, o “princípio de vida” da vida… é o único recurso contra o eu, contra o mal de ser indivíduo, contra o efeito debilitante do estado de consciência, estado tão terrível, tão penoso, que deveria ser reservado somente aos atletas. (De l’inconvenient d’être né)

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É típico da doença vigiar enquanto todos dormem, quando tudo repousa, mesmo o doente. (De l’inconvenient d’être né)

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“As doenças, umas de dia, outras à noite, à sua própria maneira, visitam os homens, impondo sofrimento aos mortais – em silêncio, pois o sábio Zeus lhes recusou a palavra.” (Hesíodo)
Felizmente, pois, mesmo mudas, elas já são atrozes. Tagarelas, que seriam? Pode-se sequer imaginar uma doença se anunciando? No lugar de sintomas, proclamações! Zeus, pelo menos uma vez, deu prova de delicadeza. (De l’inconvenient d’être né)

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Se conseguimos perseverar apesar de tudo, é porque nossas enfermidades são tão múltiplas e tão contraditórias que se anulam umas as outras. (De l’inconvenient d’être né)

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Que é a injustiça comparada com a doença? É verdade que se pode achar injusto o fato de estar doente. E é justamente assim que reagimos, sem nos preocupar se estamos com a razão ou não.
A doença é: nada mais real que ela. Se a declaramos injusta, devemos ousar fazer o mesmo em relação ao ser enquanto tal, falar, inclusive, da injustiça de existir. (De l’inconvenient d’être né)

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