JAUDEAU, S.

Cioran – Entrevistas com Sylvie Jaudeau.

Sulinas, Porto Alegre, 2001, (trad. de Juremir Machado da Silva )
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“A criação do tédio”
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A verdadeira filosofia é a literatura, a única reflexão que não teme o escândalo da vida. Fora disso, mostra Cioran, só existem as tentativas positivistas de regular o irregulável, o limitado, o racional. Mas o verdadeiro filósofo deve alimentar-se de paradoxos, de paixões, de ironias, de tempestades. “Não se evita impunemente uma crise interior”, avisa Cioran.

Este livro, ENTREVISTAS, com Sylvie Jaudeau, lendo e escrevendo, último grande, diálogo do mestre romeno publicado na França, revisa o pensamento de um autor impiedoso, fulminante e satírico. Para Cioran, sempre atento à sedução da forma, toda tragédia pressupõe uma comédia. Tudo é tragicômico. A morte é a última anedota da vida.

A filosofia tradicional não passaria de um exercício de opacidade verbal: “Pareceu-me que pretendiam iludir-me com palavras. Devo agradecer a Heidegger por ter conseguido, com sua prodigiosa inventividade verbal, abrir-me os olhos”. Atenção: Cioran não gaba os méritos de Heidegger, mas os deméritos. A leitura de Heidegger ensinou-lhe o que não deveria repetir: a floresta densa dos conceitos inertes.

Cioran evitou as concessões. Teve sucesso sem adorar o brilho. Permaneceu libertário mesmo quando se tornou um mito, uma celebridade, um adulado. Desprezou os prêmios e as honrarias fáceis. Buscou no tédio, no vazio, na insignificância das coisas, o sabor da existência. Só há sentido na falta de sentido. Depois de ter reduzido o tudo ao nada, suspirou: “Se não escrevo mais, é por estar farto de caluniar o universo”.

Quando a maioria dos pensadores estiver relegada ao silêncio empoeirado das estantes, Cioran ainda resistirá como um analista do impossível, um mestre da dúvida, um espírito da mordacidade a serviço da palavra maldita. Cioran conseguiu ser maldito sem nunca ter nada mal dito. Era um virtuose da maldição bem dita, da fórmula insuperável. A sua insolência resistirá ao sol do tempo dando sal à impaciência dos que já não suportam a morosidade do “vitalmente correto”. (da orelha do livro, pelo tradutor)

Prólogo da autora:
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Se depois de alguns anos Cioran parou de escrever, ele permanece não menos prodigiosamente ativo, mantendo abundantes intercâmbiosa com amigos, escritores, intelectuais ou com simples leitores, estrangeiros na maioria, que adquirem através desse contato uma nova força. É verdade que agora Cioran reservsa o melhor do seu tempo e das suas forças a essa palavra viva que sempre privilegiou, tanto na arte da conversação quanto na confidência, pelo simples prazer de estabelecer entre os indivíduos uma conivência capaz de provisoriamente tirá-los da prisão existencial.

Escrever ou falar, pouco importa, os livros ficam, com freqüência, sem resposta e as palavras sem amanhã, mas, no espaço de um instante, a morte f0i mantida a distância.

Estas entrevistas são o fruto de meus encontros regulares com Cioran durante o ano de 1988. Na época, eu escrevia sobre a obra dele um ensaio e, na arideza da tarefa, encontrava grande reconforto em nossas conversas. Cioran, consciente de que isso me estimulava, entregava-se de boa vontade ao jogo, ainda mais que uma amizade nos ligava fazia já alguns anos.

De acordo com as minhas reflexões, eu o questionava sobre os pontos que me preocupavam. Depois, transcrevia as respostas com a idéia de que formariam o contraponto vivo do ensaio. Evitei, dessa maneira, os extravios de um trabalho solitário e a inevitável secura de um contato exclusivo com os textos.

Estas observações preliminares destinam-se a justificar o tom e os assuntos abordados aqui. Eliminei, deliberadamente, as questões de atualidade – não sou jornalista – e ficamos além ou aquém da história.

Os acontecimentos que mudaram a Romênia ainda não tinham explodido. É certo que se os nossos encontros tivessem ocorrido em dezembro de 1989, não seria possível ignorar uma atualidade tão excepcional. Mas teria sido realmente necessário levar Cioran a falar disso, quando basta, para conhecer a essência do seu pensamento sobre esse tema, recorrer à impiedosa perspicácia de História e Utopia, livro que foi o alimento essencial de um célebre refém durante a sua longa detenção?

A atualidade, na sua aparente novidade, nada mais faz do que reproduzir os eternos mecanismos da História, os quais Cioran nunca cessou de trazer à luz.

Sylvie Jaudeau

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