JACCARD, Roland

Cioran et compagnie, de Roland Jaccard

Presses Universitaires de France (PUF), Paris, 2005.
.

“Um brinquedo triste”

Se as moças me vissem chorar
elas diriam
É um cão que uiva para a lua.
Takuboku

Cioran não conheceu Ishikawa Takuboku, mas não tenho dúvidas de que ele o incluiria em seu panteão, ao lado de Kleist ou de Heine. Como ele, Takuboku tinha um diário íntimo com seus pensamentos e aspirava a ser o secretário de suas sensações. Apenas a forma breve tinha graça a seus olhos: ele o preservava da platitude empírica onde afundam nossas tragédias íntimas. Ele sabia que não podemos esperar nada da existência além de fulgurações catastróficas sobre um fundo de atonia.

Antes de morrer em seu vigésimo sétimo ano – estamos em 1912, ao final da era Meiji – ele confia a um amigo o cuidado de publicar uma coletânea de tanka: Kanashiki Gangu (o brinquedo triste). Não conheço melhor definição da criação poética: um brinquedo triste.

Filho de um monge budista acusado de desvio de fundos, como Cioran será de um pope, Takuboku também se definia como um “preguiçoso egoísta”. A ideia de que ele viveu demasiado  me vem incessantemente à cabeça. Ele não se ama nenhum pouco, e é por isso que ele dá como título a uma de suas plaquetas: “O amor a mim”. Ele escreve aí:

Este bigode caído
me exaspera
pareço aquele que odeio.

Lendo-o, lembro de Cioran: ele conheceu verdadeiramente o ódio a si mesmo? Seu desespero era tão profundo quanto o de Takuboku? E essa suspeita persistente: não estava ele, afinal de contas, mais bem dotado para a fraude do que para as vertigens da decadência? E, no entanto, eu sei disso: ele uivava como um lobo à lua. Ainda Takuboku:

Tenho uma mulher
que se esforça para não me contrariar
que tristeza vê-la.
Como elas são frágeis
nossas mulheres do sol nascente
uma noite de outono chuvosa, eu as insultei
Nasci homem, vivo entre eles
mas sem alcançar nada.
É para isso que o outono me invadiu?

O que me atraiu imediatamente em Takuboku foi o título de seu primeiro livro traduzido em francês: Aqueles que dificilmente se esquece. É realmente necessário escrever sobre os outros, eu me perguntava então.

(Tradução do francês por Rodrigo Menezes)

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